Como certamente repararam 6ª. feira foi um dia muito estranho no Forex. A subida do USD poderia ter, em condições normais, várias explicações, mas as razões subjacentes a este movimento de preços deverão atribuir-se a um plano já conhecido e agora em plena execução. E assim torna-se perfeitamente claro o alcance das afirmações dos vários intervenientes na reunião do G-7 que, à partida, pareciam não fazer muito sentido. Na realidade, todos disseram o mesmo, embora cada um tenha desvendado uma parte da mesma verdade.

Na 6ª. feira foi o Japão a fazer quase tudo, mas todos os blocos foram beneficiados. Com efeito, tanto os EUA como a Europa estão a retirar vantagem de um plano global de concórdia cambial e, ao mesmo tempo, todos esperam conseguir um maior crescimento da economia.

Mas não há bela sem senão! Este plano é para 2004, um ano decididamente fora do comum, talvez até um ano chave para a política económica mundial. Mas esse mesmo plano é muito arriscado para os anos seguintes e, apesar da retoma que se está a concretizar, compromete o futuro e adia medidas económicas e financeiras urgentes.

Em primeiro lugar, a política monetária e financeira dos EUA, da responsabilidade de Snow (Secretário do Tesouro) e de Greenspan (Chairman do FED), tem como objectivo principal a reeleição de Bush. É a verdade nua e crua. Há algumas traves mestras que estão a ser concretizadas custe o que custar: o aumento do consumo através do crédito concedido por todas as formas imagináveis, mas em que avulta o crédito hipotecário; a liquidez necessária e suficiente para o aumento “sustentado” do mercado accionista; o adiamento total de qualquer preocupação com os défices da balança comercial e do orçamento. Ou seja, está tudo controlado e até a dívida externa tem colocação garantida, principalmente através do Japão.

A União Europeia, com a actuação monolítica do BCE e sem uma verdadeira estratégia económica global, pretende muito simplesmente que as suas exportações não sejam muito afectadas, e que por esse motivo o valor do euro contra o dólar não ultrapasse 1,30/1,35 e que qualquer subida até àquele patamar se faça de forma gradual. Ou seja, basta diminuir a taxa de juro ou intervir no mercado, estando esta tarefa a ser executada indirectamente pelo Banco do Japão, com o apoio tácito do BCE.

O Japão está a sair de uma recessão e deflação secular e ninguém o vai impedir de fazer o que pensa ser imprescindível para passar duma situação de crise para o crescimento económico sustentado. Para isso, a sua moeda não poderá valorizar-se para manter as exportações competitivas (as quais têm muito maior importância para a economia japonesa do que têm para a UE). Para isso, o BoJ tem que intervir maciçamente no mercado cambial vendendo os ienes que for preciso e comprando dólares, contrabalançando assim a fraqueza desta moeda e a procura de ienes motivada pelo actual crescimento da sua economia.

Após a última reunião do G-7 parecia que o Japão continuaria a intervir no mercado para não deixar subir muito a sua moeda, que os EUA só podiam preferir a descida do USD (embora Snow tenha voltado a admitir um dólar forte) e que os europeus, completamente “às aranhas”, se tinham refugiado na retórica do funcionamento do mercado e na inconveniência da volatilidade excessiva (cuja tradução era a subida excessiva do euro).

Agora, na minha opinião, conclui-se que não era nada disso. Os responsáveis económicos do G-7 não o quiseram dizer publicamente (daí as indicações sem grande sentido na comunicação social), mas chegaram a um acordo completo sobre o essencial, nos aspectos financeiros e económicos, incluindo portanto a área monetária e cambial.

O esquema para 2004 é particularmente simples e se o contexto de mercado não sofrer grandes alterações, pode resumir-se do seguinte modo:

1. Os EUA

a) não estão preocupados com qualquer dos seus défices, bastando acautelar devidamente a respectiva cobertura através de dívida pública, interna e externa.
b) não têm nenhuma preocupação com a evolução da cotação do USD, que até pode vir a subir (excepção óbvia para movimentos mais extremos facilmente geríveis).
c) farão tudo, mas tudo, para que o mercado de acções suba!

2. O Japão compra os dólares que forem necessários para que o iene mantenha o seu valor ou desça, mantendo a sua indústria exportadora competitiva.

3. A União Europeia dá-se por satisfeita por não precisar de fazer quase nada, bastando-lhe apoiar a tarefa do Japão e a relativa neutralidade dos EUA em relação ao dólar, conseguindo assim com alguma facilidade que o euro não ultrapasse os tais 1,30/1,35 nos próximos meses.

O Japão ao comprar biliões de dólares para fazer descer o iene, e ao enviar esses dólares para financiar o défice externo e também para aumentar a liquidez no sistema financeiro americano, consegue também fazer com que o euro não suba, por carambola dos vários crosses. Deste modo, chegámos a um ponto tão técnico (e por outro lado, quase pérfido) das relações entre blocos, que facilmente concluímos que o mundo é uma pequena aldeia global e que nós todos somos geridos por uma grande mão invisível.

Uma boa semana para todos

Um abraço

Comentador









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