Foi há dias levantada esta questão, que acho muito pertinente nesta altura e gostaria de dar a minha opinião.

O modo que, quanto a mim, mais facilmente pode ajudar a esclarecer esta dúvida , é a análise técnica das Elliott Waves.

Através do seu traçado histórico, permitem-nos determinar com muito mais probabilidades a evolução futura do mercado, através da análise de períodos de tempo anteriores, suficientemente alargados.

O mercado move-se por ondas, em ciclos e super ciclos. Em subida, não sobe todos os dias, assim como em descida, não desce todos os dias, assim como num mesmo dia não sobe ou desce sempre.
O mercado move-se de acordo com “regras”, de difícil compreensão. Curiosamente e a não ser que surjam notícias que o influenciem de imediato, são normalmente fórmulas matemáticas simples (números de Fibonacci), que por efeito psicológico e sociológico (... ? ), conduzem a tal.

Segundo a teoria de Elliott não é possível que depois de uma onda 2 ou 4 de um bear, surja uma outra onda com as mesmas características correctivas. Se assim for, é porque não se tratava da onda que esperávamos que fosse.

Um bear market rally, num ciclo tendencialmente bear, corresponde a um movimento em alta, de uma das ondas 2 ou 4, desde que, uma vez acabado, a tendência de base se continue a verificar e se confirme.

Deve dizer-se que, quer o Bear rally como o Bull market, não se revelam ao fim de poucos dias, ou semanas, podendo até demorar meses a confirmar. Por vezes há necessidade de alterar a conclusão a que se chegou, de que se tivesse tratado de um bear rally e estarmos de facto num bull, o que quer dizer que um bear rally pode ser um falso sinal e fazer de facto parte dum bull market.

O início de um novo bull só se poderá detectar tempos depois do final de um ciclo bear, se este for indubitavelmente evidente (o que seria lógico), ou então, “ o início desse bull market já se teria iniciado, em altura bastante anterior, a partir da qual não foi possível fazer-se uma interpretação inequívoca das ondas e seja necessário reavaliá-las, em novas contagens, que nos podem levar a mudar de opinião e entretanto já ter decorrido muito tempo.

Ora isso não é normal acontecer em situações de tendências de base evidente, como parecia estar a desenhar-se a presente, mas não é inevitável. Estamos num momento crítico, podendo permitir mais que uma leitura possível.

Contrariamente às principais ondas já bem claramente definidas, as pequenas reavaliações da natureza das ondas é um facto corrente no dia a dia ou de mais de uma vez por dia, ou seja : se em cada altura a cotação atingir e ultrapassar valores determinados pela evolução previsível das ondas, isso poderá fazer alterar a leitura que estava a ser feita e passar-se a encarar outra. Isto, tanto é válido para a hora a hora como para o mês a mês, até à situação anterior que já não possa oferecer quaisquer dúvidas. Daí as possibilidades de mudanças de opinião sobre a evolução do mercado.

É consensual que tivemos um bull market até Q1 de 2000. É também consensual que a partir daí se entrou num bear market. Não é consensual que esse bear ainda se mantenha ou se já teria acabado.

Entre o fim bull e o início bear, quanto tempo deixamos passar sem que tal tivesse sido perceptível ?...
Talvez o suficiente para termos deixado escapar uma substancial parte do que tínhamos ganho anteriormente, por não nos termos apercebido a tempo da mudança verificada.

Também agora, que garantias temos de que já estamos ou não em bull market desde Outubro de 2002 ou de que o bear se mantenha ? Ninguém o pode garantir. No entanto já passaram 10 meses !...

Repare-se que usei o pronome “nós”. Quero eu dizer, que nós não somos os que escrevemos esta opinião ou os que a lemos. “Nós” são os maiores peritos do mundo, nestes tipos de análise. Será que eles são ignorantes e que não sabem o que dizem? Serão “burros” ? É evidente que não !
O que se passa é que o mercado e a sua análise são coisas muito mais complicadas que o que parece e daí surgirem diferentes opiniões.

No presente caso, a partir de Outº 02 tudo indicava (ou ainda indica) que se estivesse perante um ABC, correctivo (por definição) de tendência de base bear. Em 18/6 passado, tudo indicava (ou indica) que um Bear rally tinha terminado.

É absolutamente natural que se verifiquem períodos bull dentro de tendências bear. No entanto, não podemos pôr completamente de parte a hipótese de estarmos enganados.

A partir dessa altura o mercado (SXP) começou a apresentar indicações contraditórias. Entre essa data e fim de Junho poderá fazer-se uma leitura correctiva e daí até dia 9 poderá ser interpretada uma contagem impulsiva. Também ontem e 6ª feira da semana passada, o mercado apresentou tendência favorável ao bull. Embora algumas indicações bearish permaneçam possíveis, os sinais bullish surgidos não deverão ser ignorados.

Já no Dow a situação é um pouco diferente, o que é estranho. Entre 18 e 30 de Junho apresenta uma contagem impulsiva bear e o mês de Julho, uma contagem correctiva, o que aponta para tendência bear.

Pessoalmente, o meu sentimento, quanto à questão do mercado, é a de bear, no longo prazo. Em primeiro lugar porque estou convencido que, apesar da encruzilhada actual , bastante difícil de analisar neste momento, pesa mais na minha interpretação das ondas de Elliott uma futura descida, acentuada, do que a possibilidade de subida sustentada.
Em segundo lugar, a análise fundamental, macroeconómica e microeconómica , bem como a interpretação de uma grande parte dos “indicadores”, bem como os ainda “riscos” terroristas que os E.U. correm não me permitem encarar um futuro bull. Quando muito, uma vez quebrada a resistência dos 1016 pontos, não me custa encarar uma chegada aos cerca de 1050 pontos. Todavia, se este valor for ultrapassado, poderei alterar a minha opinião. Parece-me, no entanto, extremamente difícil de entender uma subida sustentada do mercado, quando os fundamentais da economia nos indicam o contrário.

Reflexões :

Chegado a este ponto, em que provavelmente alguma confusão se tenha instalado, gostaria de referir várias coisas:

O mercado apresenta características de tal ordem, que se torna extremamente difícil emitir uma opinião com total segurança e rigor.

Se fosse fácil avaliar a tempo as mudanças de tendência, todos poderíamos estar ricos. Nos “timings”, reside quanto a mim , a grande e principal dificuldade dos analistas. Há muitos, que conhecemos e dos quais não podemos pôr em causa os seus méritos, que têm ou tiveram como grande inimigo o “timing”. Normalmente, o decorrer do tempo encarrega-se de demonstrar que estavam certos, mas em tempo errado, ... ou noutros casos , talvez nem tivessem estado certos...?

Por isso, palavras como, provável, possível, previsível, deverão ser introduzidas nas análises, com mais frequência, assim como deverão ser evitadas expressões tais como, “tenho a certeza “ “é absolutamente certo que” e outras do mesmo teor.

Sinceramente, admiro, considero e respeito os que manifestam opiniões, de qualquer teor, diferentes das minhas. Assiste-lhes o mérito de terem a coragem de as expor, fundamentadas e com lógica, correndo “riscos” de virem a ser mal julgados pelos leitores.

Portanto, dadas as dificuldades de interpretação dos mercados, ofender quem emite opiniões, será injusto.

Ora é isto, o confronto de opiniões contrárias, que é enriquecedor e não nos devemos dar ao luxo de as desperdiçar.

Só através das opiniões dos outros é que podemos mais tarde avaliar, se as nossas estavam do lado certo. Terá que haver um contraponto de comparação. Mas se estivermos certos, não é por isso que o vamos apregoar aos quatro ventos. Deverá bastar-nos a satisfação do “ego”.

Tendo em consideração que ao expor uma opinião estamos a empenhar algo de nós próprios, não é justo que, se quem lê não está de acordo, se depreciem essas opiniões. Agressões verbais sarcásticas, não ficam bem e deveriam ser evitadas. Não ficam bem a quem as profere e magoam desnecessariamente os alvos que pretendem atingir. O resultado é o afastamento gradual ou definitivo daqueles que mais falta fazem nestes espaços de opinião, pois são os que se “arriscam”, escrevendo. É lamentável e empobrece todos.

Lendo as várias opiniões, quer internacionais, dos analistas mais consagrados, quer nacionais, é normal que encontremos divergências de fundo entre elas e relativamente às nossas. Mas será que são as nossas que estão certas? Não poderá valer a pena tentar compreender o ponto de vista dos outros e ganhar com isso ? Pessoalmente acho que estes grupos de opinião deverão ter sempre presente o “talvez” e nunca o “sim” ou “não” radicais.

Para finalizar e porque o mercado é realmente muito mais complicado que o que possa parecer, sugiro uma maior atenção a 3 conceitos:

“Tolerância”, na aceitação das opiniões dos outros e tentativa de compreender os seus pontos de vista.
“Humildade”, no reconhecimento que poderemos ser nós que estamos errados e os outros certos.
“Moderação”, nas palavras de crítica, se porventura se recorrer a elas.



Holly, 14/07/2003


Nota : Sobre estes assuntos aconselho a leitura, na rubrica “artigos de foruns” :
“ As Ondas de Elliott... o que é Bull ? ... O que é Bear ?... “
“ Nyse – Omoletas sem ovos.

Ou ainda melhor, a leitura do livro “Elliott Wave Principle” de Robert Prechter and A. J. Frost’s
que é o livro mais básico e compreensível, para iniciados nas análises das Elliott Waves.