A teoria dos candlesticks tem origem no Japão, por volta do ano 1700, quando era utilizada pelos comerciantes e traders de arroz para analisar o mercado. Desde aí esta «técnica» evoluiu e espalhou-se pelo mundo ocidental, mas as suas bases mantém-se as mesmas. Trata-se de organizar os gráficos em «velas», que traduzem a relação entre os preços de abertura, máximo, mínimo e fecho.

Nos livros sobre candlesticks (recomendo vivamente o Candlestick Charting Explained, de Gregory L. Morris) existem dezenas de padrões de candlesticks, agrupados em padrões de inversão e padrões de continuação de tendência. Objectivamente, no livro do Morris estão definidos 32 padrões de inversão de tendência de curto prazo (os candlesticks só servem, pela minha experiência, para analisar o mercado de 0 a 5 dias, é esse o seu time frame) e 13 padrões de continuação de tendência. Porém, estes são padrões perfeitos, e os mercados muitas vezes têm a mania de ser imperfeitos, o que faz com que este número de 45 padrões se alargue bastante no trading real, por causa das múltiplas derivações imperfeitas dos padrões perfeitos.

Mas, para efeitos de day trading puro (sempre flat no início de cada sessão), simplifiquei a teoria dos candlesticks em apenas 8 cenários possíveis. Trata-se de aproveitar a informação daquilo que os day traders mais experientes reconhecem como o preço mais importante do dia: a abertura !

Peguemos nestes dois exemplos de velas:



Temos uma vela branca (a da esquerda), em que o close foi acima do open. E uma vela negra, aquela em que o close foi abaixo do open, ou seja, os preços foram descaindo ao longo do dia. Em termos muito generalistas, uma vela branca é bullish porque os compradores demonstraram mais vigor ao longo da sessão. Uma vela negra é bearish porque os vendedores exerceram mais pressão sobre os preços que os compradores, e estas tendências têm tendência para continuar, embora obviamente isso não aconteça sempre.

Tendo uma vela no dia anterior, e o preço de abertura da sessão de hoje, desenvolvo 8 cenários que me darão uma grande probabilidade de que o movimento inicial a seguir à abertura seja em determinada direcção. Vamos enumerar essas 8 situações:

1) Open na sombra superior = bull

Ou seja, se a open de hoje for entre o close e o high do dia anterior, o move inicial a seguir à abertura deverá ser para cima. Isto funciona particularmente no caso de um doji (quando o open e o close da sessão anterior são próximos ou iguais)

2) Open na sombra inferior = bear

Se a abertura for entre o close e o low da sessão anterior, o move inicial deverá ser para baixo.

3) Open em gap up = bear. Depois de fechar o gap = bull

Quando o open é acima do high da sessão anterior, temos um gap up. Normalmente, os traders actuam para que esse gap seja fechado, logo uma abertura em gap up é bearish. O fecho do gap, ou seja, o high da sessão anterior, constitui um suporte para a sessão actual, logo depois de fechado o gap o mercado em princípio estará bullish. Mas por vezes acontece que a uma abertura em gap up o mercado continue a subir, é preciso conjugar factores como o volume que falaremos noutro texto.

4) Open em gap down = bull. Depois de fechar o gap = bear

É o contrário da abertura em gap up. Se a open de hoje for abaixo do mínimo de ontem, abre-se um gap down. Provavelmente existirá profit taking dos shorts da sessão anterior, ou bargain hunting dos bulls, que actuarão para que o gap seja fechado, logo o mercado deverá subir até esse ponto. Porém, o mínimo da sessão anterior, o fecho do gap, constitui uma resistência, logo, depois de atingido esse ponto, o mercado fica novamente vulnerável às descidas.

5) Se a vela é branca, e abrir acima do midpoint do body = bull

Numa vela branca, o preço fechou acima da abertura, o que como vimos no caso geral, é bullish. Se a abertura for em baixa ligeira, poderá estar a existir profit taking (mais-valias de curto prazo), mas o sentimento bullish dado pela branca anterior continua presente, e à abertura em baixa ligeira deverá dar-se um rally para valores acima do máximo da sessão anterior. A fronteira entre baixa ligeira e baixa acentuada é dada pelo midpoint do body (o ponto médio entre a open e o close do dia anterior).

6) Se a vela é negra, e abrir abaixo do midpoint = bear

Se a vela é negra o close foi abaixo da abertura. Se a abertura de hoje for em ligeira alta (abaixo do midpoint do body da negra), os preços deverão descair até território negativo a seguir à abertura. A negra não induziu medo nos participantes, e muitas vezes isso faz com que o mercado continue a descer, ou pelo menos que vá assustar indo momentaneamente a território negativo.

7) Se a vela é branca e abrir no body, mas abaixo do midpoint = neutro

Neste caso as informações são contraditórias. Repare-se que a seguir a uma branca (que tem mais significado se for comprida), temos uma abertura em forte baixa, ou seja, um domínio dos bulls não se traduziu em preços mais altos na sessão seguinte, pelo contrário. Temos uma força bull vinda da sessão anterior, mas estranhamente os bears acordaram com um vigor inesperado. Neste caso de indefinição a minha teoria abstém-se, procuro noutras teorias razões para os meus day trades.

8) Se a vela é negra e abrir acima do midpoint = neutro

É o mesmo caso, mas ao contrário. A seguir a uma negra em que os bears controlaram o mercado, temos uma abertura em alta demasiado forte, acima do midpoint. Pode ter havido durante a noite alguma alteração de sentimento, a teoria dos candlesticks abstém-se neste caso.

E com esta simplificação estão cobertos todos os casos de abertura, reparem que a abertura só pode ser, na sombra superior ou inferior, em gap up ou gap down, acima ou abaixo do midpoint de uma branca, ou acima ou abaixo do midpoint de uma negra.

Não advogo que isto funcione sempre, mas, sem ter feito testes estatísticos pois para isso precisaria das cotações intraday de vários anos, que isto funciona em 70 a 80% das vezes para fazer 20 pontos nos futuros do DAX. Se tivermos regras de money management para os casos em que a teoria falha, penso que um sistema baseado exclusivamente nisto produzirá bons retornos. Eu utilizo esta técnica para prever os movimentos a seguir à abertura, que normalmente dão 25 a 50 pontos, mas depois disso tudo pode acontecer, ou seja, a técnica não prevê o desenrolar do dia todo, apenas o movimento da primeira hora ou horas. Por exemplo, na sessão de hoje, um short na abertura (estávamos na situação 6, bear portanto) deu 30 pontos (eu só tiro 20, porque esta técnica normalmente dá pelo menos 20, agora se dá mais do que isso, já é uma adivinha que não quero fazer), mas neste momento esse trade do short na abertura já teria um prejuízo de 31 pontos.

Fica ao critério de cada um investigar. Para terminar faço a ressalva que a utilização e testes sobre isto apenas poderão ser feitos nos gráficos dos futuros, não do cash (pois no caso do DAX, do S&P500 e do Dow Jones as aberturas são distorcidas, o cálculo do índice começa antes que todas as acções estejam abertas, logo não funcionam para o estudo de candlesticks, as velas não traduzem o que realmente aconteceu no mercado - apenas o gráfico dos futuros permite uma análise correcta de candlesticks).

César Borja
www.cesarborja.com