Como manifestado em anteriores comentários venho mais uma vez reiterar esta convicção, relativa ao mercado americano. Que me perdoem a insistência, mas esta é a minha opinião. Pretendo alertar alguns investidores menos atentos “quanto às consequências de um excessivo optimismo e total exposição ao mercado”, sugerindo a moderação.

Voltando às omoletas, o cozinheiro de tal façanha é o nosso “Chefe Greenspan” que com sábias práticas de autêntico ilusionismo tem vindo a conseguir manter a ilusão de uma economia a caminhar para o sucesso, escondendo realidades e encurralando os intervenientes no mercado. Para isso, Greenspan foi mantido por Bush no cargo.

O Presidente do Fed vem pelo terceiro ano consecutivo a manter a promessa de que o próximo semestre é que vai ser, e baixou sucessiva e gradualmente a taxa de juro, para tentar recuperar a pujança económica, mantendo o investimento público e privado muito elevados e criando condições de crédito, para manter um consumo privado alto, verificando-se um grande endividamento destes dois sectores. Apesar de tudo, ainda não se verificou uma recuperação do mercado laboral, nem nos resultados das empresas. O desemprego apresenta neste primeiro semestre uma subida de cerca de 10%, para 6,4%, mas a confiança dos investidores está nos máximos, a bolha imobiliária ainda se mantém, permanecendo a ilusão de que o vai conseguir, à custa de uma expansiva política monetária, mas sempre no próximo semestre.

Para isso tem que manter um “aliado” de peso que é, nem mais nem menos, que os índices das bolsas em subida. Os indicadores de sentimento estão em valores recorde, o optimismo nunca foi tão elevado.
No “diz-se que diz-se” há a percepção de que tem influenciado os Bancos centrais e as instituições públicas a injectarem de qualquer modo dinheiro nas bolsas, para as manter a subir.

Isso sim, transmite a ideia de que tudo vai bem ou está no caminho de melhorar, até por que, o novo corte dos impostos irá provavelmente ajudar à melhoria da situação. É por isso que o mercado sobe. Não por razões fundamentais, mas sim por valores puramente psicológicos. Os fundamentais tendem a não funcionar quando há uma multidão a comprar tudo o que esteja a mexer em subida. Há uma euforia provocada por um “momentum” comprador. Quanto mais as acções subirem mais são aqueles que não querem perder o combóio, para não perderem a oportunidade, de posteriormente, venderem a outros, que ainda estarão dispostos a pagar mais.

Assim, é espantoso como o “Grande Chefe” tem conseguido continuar a fazer omoletas sem os ovos, que uma análise fundamental da economia conclui que não existem. Por isso mesmo lhe tiro o meu chapéu pela sua indubitável capacidade e competência.

... E quando os “clientes” chegarem à conclusão que “afinal a omoleta que pediram não tem ovos ? ”...

Citando Lincoln, “ é possível enganar alguns durante bastante tempo, é também possível enganar muitos durante algum tempo, mas não é possível enganar todos durante muito tempo “.Neste caso, o “tempo”, é a altura das eleições do próximo ano.

Com todos estes estímulos consegue criar ilusões e manter os mercados a descontar o futuro risonho da esperada recuperação económica, que poderá não chegar. O espaço de manobra por parte da política monetária é cada vez menor e o espectro da deflação, apesar deste último corte de taxas, parece difícil de evitar, cada vez com mais escassos meios de combate.

A par do investimento público e do consumo privado, o sector de construção habitacional representa para a economia, o pilar fundamental da sua sustentação. Este é quanto a mim, o seu verdadeiro e ainda real suporte.

Há pois que dar uma atenção muito especial a este sector, que, a enfraquecer, poderá acarretar grandes problemas para a economia e para a bolsa.

A Freddie Mac, juntamente com a Fannie Mae são as duas grandes empresas de crédito hipotecário e principais sustentáculos do sector imobiliário, para manter um mercado de construção vivo.

A Freddie Mac é uma empresa criada com o fim de manter um fluxo continuo de fundos destinados a empréstimos hipotecários . Quando o particular quer comprar uma casa recorre a um banco, que empresta o valor pretendido a um juro bastante aliciante, mediante uma hipoteca. A Freddie Mac compra a hipoteca a esse banco com obrigações negociáveis. Este sistema americano facilita a compra de casa para habitação, a juros bastante baixos, alimentando a “ bolha” da construção.

Ora o que preocupa é que algo de muito importante se passou na Freddie Mac, quanto a manipulação de resultados. Foram substituídos de uma só vez, o Director Geral, o Vice-presidente de Operações e ainda os restantes principais executivos, aparentemente por falta de cooperação com o comité de auditoria à empresa relativo aos anos de 2000 a 2002, informando esse comité, que havia indícios de problemas muito graves, perante os quais a substituição dos executivos poderia representar apenas a ponta do iceberg. Informação posterior esclareceu que o problema em causa, não era o de empolar os resultados como na Enron e na World Com, mas sim o de manipulação das contas relativamente a investimentos feitos no mercado de derivados, escondendo resultados. De um modo ou outro, a situação é preocupa por se continuarem a registar irregularidades nas contas de empresas cotadas.

A verificar-se uma crise no sector não é difícil avaliar as consequências a nível da economia em geral, no desemprego, no consumo, no poder de compra , na retracção dos resultados das empresas, na dificuldade de escoamento dos produtos, na redução dos investimentos, no abaixamento dos preços e finalmente a caminhada rápida para a deflação. Note-se que uma deflação corrosiva, aquela que resulta da queda dos activos reais, tais como o imobiliário, é bastante mais perniciosa do que a resultante nos bens de consumo.

Até agora as empresas têm podido baixar aos preços, mantendo-se o consumo, apesar do aumento do desemprego, face a ganhos de produtividade, o que não é mau .
Quando o abaixamento de preços for originado por necessidades de fazer face à pouca procura, por dificuldades de poder de compra, as coisas poderão ser mais complicadas, com cada vez mais despedimentos e mais baixos salários, se os preços caírem mais rapidamente que os ganhos de produtividade, originando uma espiral deflacionária com a qual somente o Japão está familiarizado.

Pode argumentar-se que a América não é o Japão e que aprendeu muito com a essa experiência, mas o que é certo é que se encontram já muitas semelhanças com a situação inicial da crise nipónica.

Também o Japão era uma economia fortíssima, a segunda do mundo, e os índices da bolsa caíram para cerca de um sexto do valor a que estiveram. Mas não se pense que esta caminhada foi sempre de queda. Também aqui, durante esse enorme Bear se verificaram várias situações Bull, como aconteceu entre:

Agosto de 92 - Setembro 92 - Subida de 32%
Novembro de 93 - Junho de 94 - Subida de 34%
Julho de 95 - junho de 96 - Subida de 56%
Janeiro de 99 - Abril 2000 - Subida de 54%

Também no Japão se verificaram diversos pacotes de medidas tendentes a inverter a situação, tais como, depreciação da moeda, reduções das taxas de juro, massivos estímulos fiscais, mas nada pôde evitar o descalabro.

Será o cenário americano tão diferente deste ? ... Não parece haver hoje algo de familiar ?...

Várias vezes ao longo destes 13 anos, foi apregoado que “o bear market was over”... mas quando a deflação se instala os meios de combate são extremamente ineficazes. A segunda maior economia do mundo ainda não conseguiu arranjar armas para a eliminar.

Voltando aos E.U., os preços das obrigações atingem valores muito altos, com yields insignificantes, no valor mais baixo dos últimos 50 anos, se bem que nos últimos dias temos assistido a uma subida das yields das obrigações, tornando as acções relativamente menos atractivas..
O valor das acções continua a subir , com “dividend yields” da ordem de metade, do valor histórico médio de cerca de 4% (S&P) .

O mercado está especulativo e parece ter havido de facto uma intervenção extremamente significativa de quem está interessado que o mercado não desça (Fed).

Mas não se julgue que o optimismo do investidor é geral. Enquanto que publicações financeiras e artigos vários vão aparecendo a declarar que “the bull is back” os “insiders” estão a escapulir-se pelas portas das traseiras. São os pequenos investidores que estão a voltar ao mercado accionista. O “day trading” regressou em força aos mercados. Utiliza-se a táctica do “bate e foge” e o mercado está entregue aos pequenos investidores.


Lançando agora um olhar focado na análise técnica, eu diria que, com base nas Elliott Waves, se podem considerar dois cenários “prováveis” (porque neste tipo de análise, só se pode falar de probabilidades) :

Poderemos estar dentro de uma 5 da C, desde o fim de Junho, caso se venham a passar os 1015 pontos (SXP). Se assim for, poderá terminar a subida à volta dos 1040 a 1060 pontos, depois de algumas subidas e descidas, a que se seguiria uma forte queda , depois de terminado o ABC que originou este bear rally.

Outro cenário (quanto a mim mais provável) é o de já ter terminado a C e de estarmos a iniciar a caminhada numa nova onda impulsiva (1 de uma “grande” 3 ) de muito forte queda.
A evolução das cotações (SXP) entre 17 e 30 de Junho, apresenta-nos uma descida que não parece enquadrar-se num cenário de onda 4 da C, que, a sê-lo, deveria apresentar características de correctiva, o que não parece ter sido o caso.

Só os próximos dias nos poderão dar resposta. De qualquer modo reafirmo que não acredito que as subidas sejam para ficar.



Perante tudo o que ficou dito è caso para perguntar : Deveremos continuamos a investir ?
A resposta é : Qual é a alternativa ?

Os mercados sobem e isso é muito interessante porque há muita gente que ganha dinheiro com as subidas, mas se o mercado desce, não é daí que vem mal ao mundo, porque também a descer se pode ganhar dinheiro. Não é tão importante como isso, se o mercado está bull ou bear. O importante é estar prevenido, consciente do que se está a passar e actuar de acordo. O que é verdadeiramente importante é que o investidor avalie bem o seu “horizonte temporal de investimento”, para poder fazer face a situações inesperadas.

A solução é, quanto a mim, mantermo-nos serenos, lúcidos, atentos, com a maleabilidade de espírito suficiente para alterar posições, se for o caso, mas com disponibilidade financeira para isso, investindo só o que não fará falta nos próximos meses. Evitar neste momento posições muito estáticas, e principalmente não se pretender ficar rico de um dia para o outro, apostando tudo num mesmo número, como na “roleta dos casinos”.

“Não se devem pôr todos os ovos dentro do mesmo cesto”. Se o cesto cai ao chão partem-se os ovos e então é que não há omoletas para ninguém. Só para o Greenspan, porque este não precisa dos ovos para as fazer. É um génio e merece a nossa admiração !


Holly, 10/7/03