Disse um dia Allan Greenspan mais ou menos isto :

“Quando alguém, após ouvir um meu discurso, disser que compreendeu exactamente o que eu tinha dito, isso significa que está totalmente enganado, porque não era “aquilo” que eu pretendia dizer”.

Na realidade os seus discursos são de difícil interpretação, algo enigmáticos e pouco claros, ficando geralmente a ideia de que não acrescentam nada de novo.

Também agora George Bush, talvez nos esteja subtilmente a enganar quanto ao sentido das suas pretensões relativamente à evolução do dólar, reafirmando pela segunda vez numa semana as suas intenções de o manter forte.

Se por um lado a Casa Branca e com algumas dúvidas a Reserva Federal continuam a apregoar oficialmente uma política de dólar forte, parece estarem por outro lado a “esfregar as mãos de contentes” com a sua evolução actual.

Greenspan deu a entender há dias que um novo corte das taxas traria consequências de um maior deslizamento do dólar, mas um controle da inflação que afastaria para já o perigo da deflação.

Contraditoriamente à Casa Branca, o Secretário de Estado John Snow veio esta semana sugerir explicitamente a ideia de que os E.U. iriam abandonar a sua longa e tradicional política de dólar forte.
A partir daí, o dólar acelerou a queda.

Na realidade, se refletirmos bem, os E.U. poderão matar vários coelhos com uma mesma cajadada:

Um dólar fraco ajudaria as exportações, tornando-as mais baratas nos destinos, o que faria aumentar a produção industrial e criar condições para aumento do investimento; e daí, melhores condições de criação de emprego com consequente melhoria do consumo privado;

Criaria maiores dificuldades nas importações o que melhoraria a balança de transacções comerciais e consequentemente o déficit externo;

Provocaria ainda um maior investimento estrangeiro na bolsa americana, atraído por preços mais interessantes;

Aumentaria a afluência de turistas, o que provocaria uma entrada de capitais, que ajudariam a aumentar o consumo;

Levaria a uma menor saída de turistas, (que teriam que pagar na Europa mais cerca de 20% do que há um ano atrás), com a consequente poupança na saída de divisas;

Por último, é que sendo um dólar fraco um factor inflacionário, neste momento ajudaria a afastar os receios deflacionários.

Poderão pôr-se em causa os bens importados, que seriam mais caros, mas se tivermos em conta o tipo de economia americana, isso não constituiria um problema significativo. Note-se que os E.U. produzem internamente uma grande parte das marcas de carros europeias e asiáticas, praticamente todos os tipos de electrodomésticos, etc. etc..

Contrariamente aos benefícios para os E.U. contrapõem-se dificuldades acentuadas, especialmente para a Europa, onde mais se faz sentir a diferença cambial, a que se seguirá o Japão e só depois o resto do mundo.

Estão já a verificar-se na Europa enormes dificuldades de competitividade, que a levarão a ter que fazer cortes nos custos e aumentos de produtividade, saindo afectadas as exportações das empresas europeias para os E.U., se assim não se proceder, dificultando ou atrasando-se, de qualquer modo, a esperada recuperação económica. Para já, a única boa notícia para a Europa é o controle da inflação, que se tem mantido em valores muito satisfatórios.

Em suma, o que se aponta acima como factores favoráveis para a economia americana, pode transferir-se negativamente para a Europa. Aqui, o Bundesbank já alertou para o facto de que a situação de estagnação/recessão, que se mantém ou tem vindo a agravar nestes três últimos anos (curiosamente desde que o dólar tem vindo a enfraquecer), se tornaria muito complicada para os exportadores germânicos, devido ao fortalecimento do euro.

Verificando-se essa situação na Alemanha, ela rapidamente alastrará, ou já está a alastrar a toda a Europa.

O grande mistério, hoje, é saber por quanto mais tempo o dólar vai cair e qual o impacto disso a nível local e internacional. Segundo Ashraf Laidi, analista cambial da MG Financial Group de N.Y., o dólar vai continuar a cair, mas muito pior que isso, que “estamos no início de uma queda do dólar de longo prazo”.

É de notar todavia, que já caiu em relação ao euro cerca de 30 % desde o seu ponto mais alto, em Outubro de 2000 e que esta semana atingiu o ponto mais baixo desde a estreia da moeda única nos mercados.

Curiosamente ou talvez não, soube-se esta semana que George Soros esteve vendedor de dólares, tendo também ele contribuído para a sua queda, segundo palavras suas.

Creio que hoje, George Soros já não tem o poder que tinha há 10 anos, quando detinha um dos maiores hedge funds, o Quantum Endowment Fund e era conhecido como “The man who broke the Bank of England” e fez história neste tipo de procedimentos, quando em 1992 apostou fortemente na queda da libra, provocando-lhe um crash tremendo, que humilhou a Inglaterra perante o resto da Europa, ao ponto de ter que abandonar o Sistema Monetário Europeu.
Entretanto, nestes últimos 10 anos, Soros, através do seu dito Fundo, perdeu rios de dinheiro. Conhecendo-se o seu estilo especulativo e manipulador nos investimentos, não admiraria muito que falasse verdade ou mentira segundo as suas conveniências.

Também anteriormente se verificaram grandes variações cambiais Dólar/”Euro”, quando entre 1980 e 1984 o dólar se apreciou 40%, após a Reserva Federal subir fortemente as taxas de juro, com o objectivo de atrair capitais e reduzir o déficit externo, o que veio a criar problemas no exterior, principalmente relativamente ao sector energético, o que levou à criação do G-5 (EUA, Reino Unido, Alemanha, França e Japão) em 1985, para se procurar em conjunto, resolver a situação, o que foi conseguido em grande parte. Com a entrada da Itália e do Canadá em 1987 (G-7), finalmente, conseguiu-se corrigir a apreciação excessiva do dólar.

Actualmente, com o déficit americano num máximo histórico, era previsível por alguns analistas que a taxa de câmbio de equilíbrio dólar/euro se viria a situar num intervalo entre 1.10 e 1,20. Verifica-se que o primeiro valor já foi largamente ultrapassado e que o segundo se encontra prestes a sê-lo.

A actual desvalorização da moeda americana, provocada principalmente pela fuga de activos denominados em dólares, poderá gerar ainda uma volatilidade adicional, acentuando-se a depreciação e exigindo uma nova intervenção concertada, à escala mundial. Cabe aqui dizer que se torna imperativo, neste momento, uma descida das taxas na Europa, com o fim de atenuar a situação.

Há por outro lado quem pense que, uma vez atingido o valor de câmbio inicial, da estreia do euro no mercado, ou um valor próximo do máximo previsível de 1.20, seja chegada a altura da inversão. (O valor atingido no 1º dia foi de 1.1899).

Também Jack Welch, ex-lider da multinacional G.E., alerta para o câmbio de 1.25 como sendo um valor de referência, para as maiores dificuldades na zona do Euro.

Seja como for e para já, torna-se extremamente perigoso, qualquer investimento neste tipo de activos, em dólares, recomendando-se o maior cuidado na avaliação da tomada de qualquer posição.


Nota:
Chama-se a atenção dos leitores do Forum que este, não se trata de um artigo de opinião, mas sim, simplesmente de reflexão.
Assim, o título do artigo deve ser entendido como o levantar de dúvidas, mas não o de apontar caminhos para o dólar.


Holly– 26/5/2003