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Sector Healthcare - Perspectivas para 2010 - Artigo de Opinião
Por: Paff (0) em 2010-01-24
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Artigo visto 1818 vezes | Acesso Livre

Healthcare -  Perspectivas para 2010

Analisar este sector não é uma tarefa particularmente fácil. Trata-se de uma área muito técnica, depende em boa parte de uma entidade chamada FDA, das suas decisões e não-decisões e de um conjunto de dados muitas vezes imperceptíveis de perceber para o comum dos mortais (sem formação médica). Todos queremos descobrir e investir na empresa que descubra a cura do cancro ou a inversão da calvície, mas, nem sempre é preciso esta “taluda” para se conseguirem rendibilidades interessantes.
Após um conturbado e expectante 2009, em que boa parte do sector ficou a aguardar pela versão final da reforma da administração Obama (também conhecida por Obamacare) com o início do novo ano, espera-se que o período de indefinição termine. Com este artigo vou procurar perspectivar a evolução do sector em 2010, salientando um conjunto de sub-sectores que me parecem importantes e dos quais o comum investidor poderá tirar melhor partido.
Convém no entanto começar por explicar qual a motivação de tão grande (ou não) alteração da política de saúde nos EUA. O próximo gráfico, a meu ver, elucida esta necessidade de forma bem clara.



O sistema de saúde ultra liberal que existe actualmente nos EUA, com uma muito forte componente privada, alicerçado nas regras do mercado concorrencial parece ter levado o país a uma situação virtualmente insustentável. Mais de 30 milhões de norte-americanos estão pura e simplesmente fora do sistema de saúde, as despesas per capita são brutalmente altas, face à média do mundo civilizado e os resultados são absolutamente medianos. Não admira portanto que a nova administração tenha transformado o tema numa bandeira de campanha e que este seja, efectivamente, a grande reforma da nova administração. Pessoalmente acho que a reforma financeira é muito mais circunstancial e derivada da actual conjuntura, do que algo pensado para efectivamente mudar a face de um dos mais conturbados sectores da sociedade americana.

A questão começou-se a colocar ainda na fase de campanha presidencial e, após a nomeação de Obama, foi ao longo do ano de 2009 um dos principais palcos de debate na sociedade e, principalmente no senado e congressos dos EUA. Mas, de que forma a projectada reforma irá influenciar Wall Street? Quais as empresas e sub-sectores mais beneficiados e quais poderão estar à beira da quase extinção, tal qual as conhecemos?

A proposta de reforma é um documento exaustivamente longo e muitas vezes quase indecifrável de tão técnico que consegue ser, contudo, existem alguns pontos muito interessantes que quero realçar.
Uma das propostas prende-se com o período de vigência das patentes dos fármacos. Prevê-se que dos actuais 20 (+5 anos de aprovação) passem a 12 anos (+5). Desta forma abrir-se-á caminho a uma maior concorrência entre as diversas empresas, com evidente influência no preço/custo final dos medicamentos. Uma importante alteração neste campo passa pelo estabelecimento de limites temporais de patentes nos medicamentos provenientes da investigação biotecnológica, conhecidos por biologics. Actualmente estes não estão regulados do ponto de vista de limite de patentes, pelo que têm teoricamente um prazo de exploração eterno. O limite de 12 anos será muito possivelmente também a eles aplicado. 
Os medicamentos genéricos terão com esta reforma um enorme boost, sendo que muitas das principais empresas estão a pressionar os legisladores a encurtarem ainda mais os prazos de vigência das patentes, chamando a atenção ás poupanças que tal medida iria ter como consequência. Para se ter uma ideia, em termos médios, os biologics custam 20 vezes mais do que os medicamentos tradicionais. Os genéricos poderão trazer estes custos para valores suportáveis e aumentar a poupança dos actuais 734 mil milhões de dólares na última década, para valores ainda mais espectaculares.

Outra das prováveis alterações passa pelo pagamento de uma taxa anual por parte de seguradoras, farmacêuticas, empresas de componentes médicos e laboratórios clínicos, como forma de financiar o orçamento global de saúde.

Ao nível das seguradoras, existe uma proposta que poderá mudar radicalmente este sub-sector. Caso se venha a confirmar a regulação das tarifas a serem aplicadas aos consumidores, transformando estas empresas em autênticas utilities do sector dos cuidados de saúde, podemos muito bem estar próximos de uma forte correcção neste sub-sector, acompanhada pela falência de muitas das pequenas e médias empresas que aqui actuam. Segundo os especialistas, no curto-prazo os maiores players poderão escapar, mas a prazo, o cenário não se afigura nada fácil. A transformação de muitas destas empresas em value stocks será, a meu ver, uma das consequências.

Torna-se assim fácil de entender a razão por detrás da fraca performance global do sector em 2009, face a todas estas possibilidades e a muito poucas certezas. Naturalmente que alguns dos sub-sectores portaram-se bastante bem, com valorizações dignas de growth stocks, mas no global, como o próximo gráfico mostra, o sector de healthcare encontra-se, mesmo após a subida que registou desde Março, subavaliado.



Face ao exposto, como poderá cada um de nós tentar alocar o seu capital dentro deste sector? Quais as melhores alternativas, e porquê?


Tendência nº1 – NECESSIDADE IMPERIOSA DE POUPANÇA


Seja qual for a forma final da reforma do sistema, uma coisa é certa… a ênfase estará no lado da poupança. Assim sendo neste âmbito surgem três tipos de empresas: produtoras de genéricosPharmacy Benefit Managers (PBM’s) e as empresas de Health Care Information Technology (HIT’s) 

No caso das primeiras, duas empresas merecem particular destaque: a Teva Pharmaceuticals (Nasdaq: TEVA) e a Mylan Labs (NYSE: MYL). A Teva, de origem isrealita, é actualmente a maior produtora do mundo de medicamentos genéricos. Julgo que tanto uma como outra, apesar de terem registado fortes ganhos de cotação em 2009, terão a meu ver um forte potencial de valorização a médio e longo-prazo, consubstanciadas no espírito da Obamacare.



O universo PBM compreende um conjunto de empresas que basicamente gere as prescrições que os médicos passam. Através da compra por atacado de medicamentos, boa parte genéricos, estas empresas têm como objectivo oferecer um serviço aos utentes que lhes proporcione o máximo de poupança. Prevê-se que, com o aumento de população em idade de reforma (osbaby boomers da década de 60 estão a entrar na fase de reforma), acompanhada pelo fim do período de patentes de muitos medicamentos (consequente introdução de genéricos) e do aumento da população abrangida por seguros de saúde (neste caso possivelmente uns extra 30 milhões incluídos num mecanismo parecido com o Medicare), que estas empresas possam assistir a continuados, senão incrementados, aumentos de receitas.
Express Scripts (Nasdaq: ESRX) e CVS Caremark (NYSE: CVS) serão por certo duas apostas bastante interessantes neste sub-sector.



As HIT’s são empresas de tecnologia de informação aplicada ao sector de health care. Proporcionam a clínicas, hospitais e sistemas de saúde um conjunto ferramentas que ajudam na diminuição de custos de fornecimento e no incremento da captura de receitas. Neste contexto empresas como a MedAssets (Nasdaq: MDAS) e a McKesson (NYSE: MCK) surgem como players a ter em atenção.




Tendência nº2 – MAIOR NUMERO DE PESSOAS NO SISTEMA


O aumento do número de abrangidos pelo sistema de saúde, o aumento do número de segurados, levará a que um conjunto de empresas passem a estar expostas a um maior mercado. Hospitais, laboratórios clínicos, grandes distribuidores e… seguradoras!? deverão reflectir esta tendência nas suas receitas.

Nos três primeiros casos a consequência do maior número de pessoas seguradas e com acesso a cuidados de saúde é relativamente fácil de perceber. Se bem que no caso dos hospitais, enquanto entidades não propriamente vocacionadas para o lucro, a influência ao nível das receitas seja a meu ver relativamente faseada e controlada; já no que concerne aos laboratórios clínicos, como a Quest Diagnostics (NYSE: DGX) e a LabCorp (NYSE: LH) e aos grandes distribuidores como a AmerisourceBergen (NYSE: ABC), os ganhos deverão ser mais notórios.



No domínio das seguradoras, há que analisar a questão com maior cautela.

Uma das possibilidades que está a gerar maior debate e controvérsia centra-se na possibilidade da criação da chamada Public Option. Tratar-se-ia(á) de um seguro de saúde gerido directamente pelo Estado que dará cobertura a um preço inferior ao das seguradoras devido aos menores custos administrativos em possivelmente, aos menores reembolsos a médicos e hospitais. Segundo o legislador, este plano segurador visa  “manter as seguradoras privadas honestas”através da maior concorrência. Naturalmente, as seguradoras estão contra esta medida, bem como os Republicanos no Congresso.

A existência, total ou parcial, desta medida, terá portanto um impacto muito grande nas perspectivas financeiras dos vários players do mercado segurador. Assim, a Goldman Sachs efectuou recentemente uma interessante análise a este sub-sector, e às 5 maiores empresas que dele fazem parte. Nesse estudo, estabeleceu 4 prováveis cenários e o procurou prever o impacto que cada um desses cenários poderá ter em cada uma das empresas visadas.

Os cenários são:
1)   Inexistência de reforma (apenas pequenas alterações ao nível de cortes de investimento);
2)   Um cenário base, fundado na actual proposta do Comité Financeiro do Senado;
3)   Um cenário bull, onde se perspectivam um conjunto de assunções mais optimistas de implementação da reforma, como uma redução das provisões ou um adiamento de medidas até 2013;
4)   O cenário bear, com a introdução da public option, com as consequências que tal medida acarreterá ao nível das receitas.

Os gráficos seguintes mostram, por um lado, a exposição ao risco de mercado de cada uma das empresas…



…e depois, a previsão de crescimento nos diferentes cenários. Note-se a menor propensão do modelo de negócio da Cigna às consequências inerentes á reforma do sistema de saúde, e por outro, o maior impacto que tal reforma terá na Humana e na WellPoint.



Na altura em que este estudo foi elaborado, a Goldman Sachs estimava em 75% a probabilidade de implementação da reforma. Desde a semana passada, com a perda de um lugar no senado por parte dos Democratas, esta probabilidade diminuiu consideravelmente. Agora, muitos dos analistas consideram que a reforma final nascerá necessariamente de um compromisso, pelo que por exemplo a public option, muito dificilmente avançará.

Assim sendo, julgo que neste contexto, empresas como a Wellpoint (NYSE: WLP) e a Cigna (NYSE: CI) deverão ser títulos a considerar, uma vez que jogam bem em face à actual conjuntura de reforma parcial/não reforma. 



Tendência nº3 – PIPELINES, PIPELINES E PIPELINES


Qualquer que seja o cenário, qualquer que seja a conjuntura, existe um conjunto de empresas que acabam por estar dependentes de uma coisa para prosperarem… a existência de uma boa pipeline. Uma pipeline diversificada, com novas patentes que substituam as que terminam e, se possível, com novos fármacos a chegarem ao mercado com a anuência da FDA, é a melhor estratégia para navegar as sempre revoltas, mas promissoras águas, deste sector.

Nesse contexto, 2010 afigura-se como um ano cheio de novidades. Contudo, um aparte impõe-se neste momento. É precisamente nesta matéria, de novos produtos, de potenciais blockbusters ou rotundas negas da FDA, que o assunto se torna muito técnico. Mesmo para os especialistas, torna-se muitas vezes uma tarefa demasiado aleatória e arriscada, tentar acertar na próxima aprovação. É neste campo de actuação que surgem as grandes growth stories do mercado, mas é também aqui que nos podemos ver amarrados a um título que fica em eterna espera, sem receitas e com contas de I&D sufocantes. Serve isto para dizer, que muitas vezes, é preferível apostar em big pharmas, do que estar a tentar acertar no próximo foguetão com destino à independência financeira.

Assim deixo um breve apanhado das novidades previstas para este ano no âmbito das big pharmas, bem como uma aposta, que inclusivamente já faz parte do meu portfólio pessoal, e que se enquadra na estratégia de alguma exposição a um maior risco (controlado) no universo de uma carteira.

Pfizer (NYSE: PFE) – No domínio da artrite reumatóide, aguardam-se novidades do inibidor JAK, corrente na fase III de teste, tem demonstrado resultados encorajadores.

Bristol-Myers Squibb (NYSE: BMY) – No campo das diabetes, aguardam-se resultados finais nos testes do componente Dapaglifozin. Os resultados até agora são esclarecedores, no que concerne à perda de peso e eficácia de tratamento, espera-se que até ao final do ano este fármaco obtenha aprovação

Johnson & Johnson (NYSE: JNJ) e Merck (NYSE: MRK) – Com os componentes Telaprevir e Boceprevir, respectivamente, espera-se que na área da Hepatite C ambos os candidatos sejam aprovados e considerados blockbusters no imediato. Vytorin no combate ao colesterol e o TRA na área das doenças cardiovascular, deverão dar também algumas alegrias à Merck.

Por fim, e no âmbito de um maior risco de carteira, vejo a Questcor (Nasdaq: QCOR), como uma interessante possibilidade. Trata-se de uma distressed stock neste sector, isto é, um título que tem tido uma performance sub-par e ainda assim apresenta resultados e um balanço sólidos. Penso que será uma aposta interessante para 2010.



Considerações finais

Pessoalmente gosto bastante deste sector. Costuma portar-se bem com uma economia em recuperação e, em alguns casos, se as nossas stock picking abilities estiverem em alta, mesmo em recessão, podemos colher rendibilidades notáveis.

Este é o campo das mais fantásticas growth stocks, mas também de grandes desilusões. Devido à componente técnica, nem sempre é fácil discernir quais as melhores opções no sector, quais as notícias que interessam e o que deve ser ignorado. Assim, e para quem quiser estar no sector, sem estar exposto aos riscos individuais das empresas, talvez seja uma boa opção considerar o ETF Healthcare SPDR (NYSE: XLV).


Obrigado pelo vosso tempo,

Paff



Nota: os comentários apresentados são meramente artigos de opinião do autor, não devendo em nenhuma circunstância ser entendidos como recomendações de compra, de venda, de sugestão estratégica ou de aconselhamento financeiro.

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