Num post qualquer, já disse aqui que as elevadas cotações da Galp eram uma excepção na escadaria descendente do casino, uma excepção com razões fundamentais racionais.
Explico porquê.
1º Primeiro, porque a subida dos preços do crude e a consequente subida dos preços dos combustíveis aumenta a margem do negócio de refinação e venda de combustíveis. Há mais margem para preços especulativos.
2º Porque os preços do crude em contratos a prazo de grandes quantidades, não segue o mercado spot (chamemos-lhe mercado livre ou de ocasião), este último refere-se a pequenas quantidades de petróleo e é muito especulativo. Mas esses preços do mercado spot justificam perante a opinião pública certos aumentos exagerados dos preços finais dos combustíveis. Donde a margem de ganho das refinadoras e gasolineiras é maior.
3º Porque a Galp, pagando em dólares o crude (como as outras petrolíferas), e como o euro se tem valorizado face ao dólar, afinal a subida de preços do crude(em dólares) não é a mesma da subida dos preços em euros, sendo menores nesta última moeda. O que favorece as refinadoras e gasolineiras da zona euro, entre elas a Galp.
4º Os USA têm nos últimos anos défice de produção de gasolina. Logo têm de importar esse combustível. No cômputo das refinarias da Europa e na zona euro, as refianarias da Galp são das mais próximas geograficamente relativamente à costa Leste dos USA. Logo, a Galp tem boas possibilidades de exportar de forma comeptitiva para os USA, já que temos em Sines um porto de águas profundas que pode receber os maiores tankers do mundo e onde a Galp tem a sua maior refinaria do país.
5º Mas isto não basta para justificar o suporte das cotações da Galp. Por último, but not the least, a Galp tem tido a sorte ultimamente de alguns dos contratos em blocos onde faz prospecção de petróleo (em Angola e Brasil) terem feito descobertas de jazigos de petróleo prometedores, em associação com outras companhias. Ontem mesmo foi anunciada mais uma descoberta na bacia de Santos (confirmada no site da Petrobras), em mares profundos, onde a Galp aparece associada à Petrobras brasileira.
Estes são activos muito importantes que podem aumentar as reservas da Galp, já que o petróleo que daí pode vir no futuro será a preços muito inferiores aos do mercado fob (no destino, em Roterdam ou Sines por exemplo).
Aqui está a razão mais importante do suporte das cotações da Galp, porque as grandes companhias, se virem que a sua cotação está baixa, podem vir sobre ela com uma OPA ou simplesmente entrarem como grandes accionistas. Porque há razões fundamentais para o fazerem, é como descobrirem uma grande mina de ouro....
Os custos de produção (pesquisa e extracção nos jazigos) não têm nada a ver com os preços livres do crude, já que a maior fatia desse preço (fob) vai para os países produtores, companhias exploradoras e fretes marítimos.
Os preços de produção variam bastante conforme as condições dos jazigos, mas nunca são da ordem dos preços spot ou fob de longo prazo, são muito inferiores aos actuais do mercado livre(spot).
Só para dar uma ideia, por exemplo o custo de produção em jazigos terrestres ricos do médio oriente pode ser algo como 5$USA/barril, enquanto que no Alaska, Sibéria ou em mares profundos (caso do Brasil) pode ser da ordem dos 10, 15 ou 25$USA/barril, mas não mais do que isso. O diferencial entre estes preços e os preços spot ou fob de longo prazo são taxas, impostos, transportes, intermedeações, especulação, etc., que em geral revertem para os países produtores e também um pouco para as companhias petrolíferas que exploram os jazigos (na Arábia Saudita, na Líbia, em Angola, na Rússia, na Nigèria, na Venezuela, etc., etc.).
Agora, para os detentores de acções da Galp, e também para quem olha para elas com olhos em bico... :o, importa dizer o seguinte.
a) Esta subida de preços do crude não pode continuar assim galopante, estes preços também não sobem até ao céu. ::) Com a futura descida dos preços do crude, as cotações bolsistas das petrolíferas também descerão.
b) Depois das descobertas dos jazigos onde a Galp tem participação, primeiro há que confirmar com novos furos se estas descobertas são ou não jazigos comerciais a explorar, depois, se for o caso, há que fazer grandes investimentos para pôr em produção esses jazigos.
Como se situam em mares de águas profundas, esse investimento será enorme, o que obrigará a Galp, nos próximos anos, a contrair empréstimos bancários colossais (para a sua dimensão). O que irá aumentar o passivo de longo prazo de forma substancial. Ora, isso pode vir a influenciar as cotações no médio prazo (digamos ao longo dos próximos cinco anos), já que entre uma descoberta (em mar profundo) e a entrada em exploração medeiam em média uns cinco anos ou mais. Isto vem nos livros e basta andar aí pela Internet para aprendermos estas coisas.
Concluindo:
1º As cotações da Galp têm razão lógica de ser, sobretudo aos olhos das grandes companhias petrolíferas.
2º Mas é preciso ter cuidado, porque os preços do crude um dia baixarão e porque a Galp pode vir a ter de fazer grandes investimentos e com isso aumentar substancialemnte o seu passivo de longo prazo.
3º Com estas recentes descobertas, a confirmarem-se, vão levar tempos a darem frutos (algo da ordem dos 5-10 anos), esta fruta deve estar bem madura para jogar nela daqui a uns cinco-oito anos, para apanhar o combóio do semiciclo altista do casino da próxima década.
Penso eu de que... ;D