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Mercados => Fórum de Bolsa => Tópico começado por: Jesse em Fevereiro 15, 2008, 17:42

Título: Retrato de um Bear Market
Mensagem de: Jesse em Fevereiro 15, 2008, 17:42
Ao longo do post reuno apontamentos, gráficos, artigos clube invest de César Borja, Turn e Berrio com o intuito de retratar um Bear Market (Ciclo de descida) e retratar os excessos que se cometem num Bull Market (Ciclo de subida).
Sendo o Bear Market a solução para esses excessos.


O objectivo é apenas esse, não de dizer se estamos em Bear Market, nem de dizer a duração do mesmo, pelo menos inicialmente não é esse o objectivo.


Bear Market: Um mercado em que os preços dos títulos caiem ou se espera que venham a cair. Embora os valores possam variar entre 15-20% ou mais em vários índices (Dow e S&P 500) é considerada uma entrada num Bear Market.


Quando vê um Bear (urso) o que faz?   Joga-se no chão e faz-se de morto!
Lutar contra o urso pode ser extremamente perigoso porque é muito difícil para um investidor conseguir fazer ganhos durante um bear market a menos que seja vendedor.



Contagem de Bear Markets desde 1957 no Indice  S&P500

De Julho,10,1957 Até Octubro, 22, 1957
Duração: 104 dias
Desceu: 21%

De Dezembro 12, 1961 a Junho 26 1962
Duração: 196 dias
Desceu 28%

De Fevereiro,9, 1966 a Octubro, 7, 1966
Duração: 240 dias
Descida de 22%

De Novembro, 29, 1968 a Maio, 26, 1970
Duração: 543 dias
Descida de 36 %

Janeiro, 11, 1973 a Outubro, 3, 1974
Duração: 630 dias
Descida de 48%

Novembro, 28, 1980 a Agosto, 12, 1982
Duração: 622 dias
Descida de 27%

Agosto, 25 , 1987 a Dezembro, 4, 1987
101 dias
34%

Julho, 16, 1990 a Outubro, 11, 1990
87 dias
20%

Março, 24, 2000 a Octubro, 9, 2002
929 dias
49%

Gráfico do índice S&P500 de 1960 a 2006.

(http://stockcharts.com/charts/historical/images/SPX1960p.png)

Artigo CI

Contagem de Bull e Bear Markets
11.04.2002 | 00:00:00 | César Borja

Apenas algumas curiosidades:

- Os Bear Markets duram em média 1184 dias, ou aproximadamente 3 anos e 4 meses. Os Bull Markets duram em média 2042 dias, ou aproximadamente 5 anos e 7 meses.

- A média de subida num Bull Market é de 310%. A média de queda num Bear Market é de 42%.

- O maior Bear Market da História em variação foi o de 1929 - 1932, em que o Dow caiu 89% e só em 1954, 25 anos depois, é que atingiu um novo máximo histórico face ao máximo de 1929.
- O maior Bear Market da História em duração foi o de 1976 a 1982, que durou 2115 dias ou aproximadamente 6 anos.
É engraçado que o Bear mais longo preceda o Bull mais longo da História.

- O maior Bull Market da História, mais lindo e certo na sua evolução como viram nos gráficos, foi o de 1982 - 2000. Subiu 1400% em 18 anos, o que dá uma taxa média de variação anual de aproximadamente 77% !!!!

- Outra curiosidade é que efectivamente nas duas Grandes Guerras Mundiais os mercados estiveram em Bull Market, com o Bull de 1914 - 1916 e o Bull de 1942 - 1946.

Continuarei a investigação acerca deste tema, se bem que considerar o Dow Jones como benchmark mundial possa ser um erro, uma vez que é composto por apenas 30 empresas, quase sempre as 30 maiores e melhores do Mundo. Por outro lado, essas 30 empresas não foram as mesmas ao longo do tempo, logo é errado pensar-se que um investimento nas empresas do Dow Jones teria dado os retornos que o Dow deu.

Uma boa noite !
César Borja


Gráfico do índice Dow Jones Industrial Average (1900 - 2007 Monthly)

(http://stockcharts.com/charts/historical/images/djia1900p.png)


Uma perspectiva do mesmo índice mas mais actual

Dow Jones - Monthly Bar Chart - Semi-log Scale - 1974-2007. 

(http://www.the-privateer.com/chart/dow-long.gif)



Artigo CI


Commodities da energia e metais: as raízes de uma futura crise mundial?  
Abril 26, 2006, 10:38

Faço desde já um parêntesis para indicar que o que a seguir vou escrever se baseia exclusivamente no meu feeling e visão pessoal já que para além de não ser Economista nem sequer sou grande acompanhante das grandes notícias que fazem manchete no mundo dos negócios, limito-me a procurar estar razoavelmente informado acerca do que se vai passando um pouco por esse mundo fora.

Que cenários futuros para as commodities de energia e metais?
Esta subida em flecha destas mercadorias inevitavelmente poderá atingir um ponto que fará estalar os factores de crescimento dos actuais motores da economia mundial: países desenvolvidos e do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China).

Não sendo um especialista nesta matéria macro económica mas apenas um simples cidadão (e especulador!) interessado em acompanhar a evolução das consequências desta escalada de preços, o que tenho constatado até agora tem sido uma reacção aparentemente benevolente face ao aumento de preços:
- No petróleo não se tem visto as pessoas a andar menos de automóvel e os governos em geral fazem saber que estão preocupados mas não alarmados. As receitas dos impostos crescem ao mesmo ritmo do aumento de preços pelo que internamente até esfregam as mãos de contentes, embora não o possam dizer em público por ser politicamente "incorrecto". Lá chegará um dia a partir do qual a generalidade dos utentes de automóveis atingirá um ponto em que necessariamente se terão de arranjar alternativas de transporte: será aos 90 ou 100 dólares o barril que se irá notar uma diminuição sensível nas deslocações automóveis? Até agora não se notou grande diferença nos hábitos dos condutores, quer quando o barril estava a 30 dólares quer a 75 dólares! Na compra de veículos híbridos e movidos a fontes de energia alternativas poderia estar uma solução possível mas este tipo de investimento ainda não está ao alcance de todas as bolsas, até se pode dizer que o desenvolvimento destas fontes de energia só agora começou a dar uns passos ainda débeis que deixam o consumidor meio desconfiado, os preços alternativos também ainda não são de todo em todo convidativos e seguros para o futuro, vai levar muitos anos a concretizar este cenário e os preços do barril de petróleo estarão provavelmente perto do final do ano a rondar os 3 dígitos! Ainda por cima o petróleo é um produto perecível, perto do limite máximo da sua capacidade extractiva actual e com stocks de jazidas limitadas a cerca de 60 a 100 anos no nosso planeta, dependendo da evolução do consumo e do binómio de novas técnicas e preços de custo de extracção a grandes profundidades. O seu aumento dos preços futuros apresenta-se agora como quase exponencial se lhe acrescentarmos as crises políticas que determinados países produtores parecem ter descoberto em seu grande benefício, sem que da parte das potências consumidoras pareça haver uma resposta aceitável que possa travar ou até a arriscar uma espiral contínua de preços ainda mais elevados. Os consumidores não têm grande alternativa, estão de pés e mãos atados.
- O ouro é um caso à parte, tem a ver com refúgios alternativos de investimento, a desvalorização do dólar, a procura desenfreada que continua a existir na Ásia proporcionalmente ao aumento de riqueza que a Índia e China vão acumulando, tem a ver com a incerteza face às tensões de guerra no ar, com a própria indústria da joalharia e maior poder de compra da população mundial em geral, a algum alarme do Cartel dos Bancos centrais face aos prejuízos das posições curtas. Tem também a ver com a própria alteração de estratégia quase abrupta dos próprios comerciais (empresas mineiras de extracção) que passaram da sua posição primária de hedgers, com posições curtas iniciais para assegurarem preços de venda garantidos para o escoamento da sua produção a meses de distância, para especuladores quando se aperceberam de que a primeira postura era uma estratégia insensata presente face à tendência geral de subida dos preços...
- A prata e o cobre têm uma grande correlação no aspecto extractivo e dependem em grande medida da solidez da economia mundial em geral; enquanto esta prosperar irá continuar a incidir uma grande pressão na procura, em especial na China, que só pode empurrar os preços das respectivas matérias-primas cada vez mais no sentido inevitável da alta dos preços respectivos.

Inevitavelmente toda a espiral de subida de preços destas mercadorias acabará por estalar na altura em que o ponto de equilíbrio da procura real dos mercados nos países motores da economia mundial for atingido.
O início de uma nova recessão será inevitável e a queda brusca destas matérias-primas é apenas uma questão de tempo.
O problema é que ninguém sabe quando tal cenário acontecerá, pode ser daqui a vários anos, mas quando?! Certamente dependerá em grande medida da velocidade da escalada de preços e da capacidade do actual tecido industrial macro-económico poder continuar a absorver este impacte desde que os mercados continuem a revelar uma relação estável na relação da oferta e procura.
O patamar de preços das matérias-primas que poderá provocar essa eventual rotura no lado da procura parece ser assim uma questão de testes de níveis sucessivos até se atingir o ponto de não absorção do respectivo impacte nas grandes economias em geral. Aí começa a crise, ajudada entretanto pelas pressões inflacionistas que continuarão a provocar o inevitável arrefecimento da economia através da continuada política de aumento das taxas de juro por parte dos Bancos centrais que aí terão necessariamente de inverter a estratégia seguida e baixar as taxas de forma muito agressiva, receita "a la Greenspan".

A grande questão é saber em que nível de preços das commodities se poderá atingir esta rotura nos mercados.
Pelo andar da carruagem e face à relativa complacência que tenho vindo a assistir por parte da procura mundial atrever-me-ia a dizer que poderemos ainda vir a assistir por uns bons tempos a um cenário em que os preços das citadas matérias-primas poderão cotar de uma forma confortável acima dos 100 dólares o barril no caso do petróleo, acima dos 1000 dólares por contrato no ouro, acima dos 20 dólares na prata por contrato e dos 500 dólares similares no cobre!!! É de loucos, mas será também o toque de finados deste incrível bull market destas mercadorias...

Será mesmo, onde iremos parar antes disto tudo rebentar?
E se nada deste cenário plausível se vier a verificar? O que podemos esperar em alternativa? Haverá porventura algum factor marcante que possa impedir a continuada escalada de preços destas commodities sem que as grandes economias motoras sejam entretanto afectadas? Sinceramente não consigo vislumbrar nenhum nesta altura do campeonato, pelo contrário, a febre da especulação atinge não só os produtores como também os próprios consumidores.
Afinal não é nos Estados Unidos da América que se concentram os grandes mercados especulativos das matérias-primas e estão concentradas as sedes das maiores empresas extractivas mundiais de petróleo e metais? O interesse imediato do lucro rápido e a qualquer preço não se sobrepõe de forma clara à capacidade interventiva dos governos centrais para criar incentivos urgentes na pesquisa de novas fontes de energia baratas e produtos industriais alternativos do tipo reciclável ou outros? Parece não haver mesmo saída para a inevitabilidade do cenário recessivo inevitável que um dia nos irá bater à porta.

Até lá, como cidadão, não me parece que possa continuar a assistir a esta inevitabilidade toda de forma passiva, se não os consegues vencer junta-te a eles.
Pois é, a melhor solução é mesmo arrecadar umas boas massas para os tempos depressivos que um dia nos irão bater à porta, bem sei que a opção pode não parecer muito simpática para o cidadão médio que sofre e vai continuar a sofrer mais com a subida dos preços dos produtos derivados da energia e metais, mas é a única racional: comprar contratos de futuros nestas mercadorias, há que acumular numa perspectiva de longo prazo nestes grupos de commodities e fazer parte do grupo dos grandes especuladores mundiais onde se encontram certamente concentrados todos os grandes players, profissionais e representantes dos grandes capitais mundiais.
Os grandes agentes económicos vão dar um tiro no pé e ajudar a criar as condições de uma grande crise recessiva? Vão com toda a certeza, e de uma forma sub-consciente contribuir para a rotura e cenário de crise inevitável que há-de vir! Mais tarde dirão: era a única forma de um dia deitar abaixo aqueles preços mirabolantes...mas entretanto enriqueceram!
A estratégia do lucro de curto prazo do poderoso grupo do grande capital vai contribuir para a crise de longo prazo que o irá afectar em grande medida? Who cares? Os governos estão lá para tomar as medidas correctivas futuras, até lá deixa cá para já ver o meu dinherinho a entrar nos bolsos.
Só quem está divorciado do grande mundo real das empresas e grandes grupos económicos desconhece que estas preferem arrecadar já qualquer coisa segura agora do que uma promessa de bons lucros no futuro distante...

Turn



Artigo CI

Pensamento para o dia: playing chiken with an economy  
Outubro 15, 2007, 12:56


Continuando na serie de pensamentos sobre a economia norte-americana (e na minha teimosia em permanecer Bear quanto ao futuro a médio prazo deste mercado)
O efeito de um balanço alvancado nos múltiplos de mercado.

Muito se ouve nas análises que "O mercado está barato". "Isto não é o mesmo que me 2000, pois os múltiplos de mercado estão muito mais baixos, face à sua média histórica". E o meu racicionio é simples: o efeito "alavancagem".

Para quem não gosta muito de Corporate Finance, faça-se a seguinte analogia: alavancagem em bolsa. Todos nós, traders, sabemos o que significa estar alavancado. Alguém, normalmente a corretora, ou um market maker, ou um banco, nos empresta os activos em troca do depósito de uma margem. Eu coloco 10% do activo, o banco empresta-me os restantes 90% e lá vou eu alavancado num ratio 1:10. (Dai que, em Wall Street, uma boa forma de fazer um Short Squezze a uma acção com muitos shorts é que os grandes accionistas peçam um "receipt of ownership", ou seja, a corretora é obrigada a repor as acções que emprestou na conta deles, e dali não podem sair, ficando sem acções para emprestar à malta que estava a shortar, que tem assim que cubrir).
Ora, alavancado, e isto todos nós sabemos dai utilizar-mos em alguma medida, os meus lucros vão ser multiplicados pelo factor da alavanca. Até aqui nada de novo. A alavancagem é tão perigosa em trading porque eu nunca sei quando é que um evento vai ser tão contrário às minhas espectativas que me leva à ruina. Posso ter um sistema em que tou certo 6 ou 7 vezes em cada 10, mas basta que as 3 vezes em que eu falho sejam grandes o suficiente e fui à falencia. Com um negócio, ao contrário da bolsa, os lucros não são assim tão aleatórios. Logo é menos arriscado alavancar um balanço de um negócio do que alavancar um portfólio de acções/bonds/FX/etc...

No entanto, tal como num portfólio, um balanço alavancado, em alturas de crescimento, equivale a aumento de lucros por unidade de capital. O que nos leva à questão dos múltiplos. Um dos grandes múltiplos usados (e abusados) na análise do S&P500 é o PER - Preço da acção / Resultado por acção. Ora, mesmo assumindo que as margens de lucro estão altas e ficaram altas no futuro - um pressuposto no minimo bastante perigoso - o PER está artificialmente baixo pelo efeito "alavancagem de balanço", ou seja, o resultado por acção é maior do que o que seria sem recurso a dívida para entrar em novos negócios e o efeito financeiro na dívida não se faz sentir devido à contracção dos prémios de risco, com spreads acima da Libor muito baixos.

No entanto a recente crise fez subir todos os prémios de risco do sector empresarial, e contrair o valor das transacções no Mercado Monetário e de crédito. Este efeito só deverá ser sentido daqui a 6 meses, dado que esse é a maturidade da divida na maior parte dos casos, sob a qual se alavancaram activos para obter melhor rendibilidade, i.e. maiores resultados por acção. No entanto, quando os novos premios de risco entrarem nos balanços das empresas, via maiores spreads nos juros, poderemos assistir a um "Unwind" feio de divida empresarial?

Abraços,
GDB



Outubro 15, 2007, 13:26


Não creio que a descida das taxas de juro por parte do FED tenha ajudado neste aspecto. Lembra-te do que Greenspan se queixava: Baixar a FED funds rate não chega para baixar as restantes taxas, que pelo contrário tendem a subir.

Quando a FED baixou as taxas, se reparares, as yields das 10 year/30 year notes subiram, e são a estas yields que o mercado hipotecário está indexado. O mercado obrigacionista fez o racicionio que a maioria no mercado accionista não fez: menores taxas hoje quer dizer que a FED já não se preocupa com a inflação e com o dólar, portanto no futuro vamos ter maiores taxas porque vai haver mais inflação.
E mesmo que tenha resolvido, os "spreads" também subiram, mais que a descida da FED. Os investidores já não aceitam da mesma maneira divida comercial, que é vista como mais arriscada.

Quanto ao efeito já estar reflectido nos balanços discordo. Os "write offs" que tens visto são ao nivel de estruturados complexos que foram usados, e não dos prémios de risco. Estes ainda não se fazem sentir porque as empresas ainda não fizeram o "roll over" da dívida. E não te esqueças que nos EUA seguem-se os "principios geralmente aceites da contabiilidade": os custos são registados na altura da ocorrência dos mesmos, não antes.

Abraços,
GDB


Novembro 05, 2007, 11:55


Uau! 3,9% de crescimento. 116 mil novos postos de trabalho. Impressionante. Isto é que é fugir a uma recessão. Ou será?

Vamos ser um pouco cínicos e advogados do diabo por uns minutos. Comecemos pelos números do "emprego". 116 mil novos postos de trabalho criados na economia norte-americana, acima das expectativas. Mas vamos colocar os números em contexto: Dos 116 retirem 36 mil postos de trabalho adicionados via Estado Federal norte-americano, ou seja, mais funcionários públicos. Sobram 80 mil, dos quais 50 mil são contabilizados como "Lazer e hotelaria". Para os mais incautos: é aqui que se insere trabalhos como servir às mesas em restaurantes. Dos restantes 30 mil, cerca de dois terços são professores - isto no mês em que as escolas começam as aulas. Curioso. O sector industrial perdeu empregos liquidos. O sector financeiro perdeu empregos liquidos. O sector tecnologico idem idem aspas aspas.
"Pera ai... então as pessoas estão a ser despedidas das grandes industrias e bancos e a arranjar emprego a servir à mesa?" - basicamente, sim! Alias, visivel pela média de remuneração horária recebida, que desceu.

"Mas olha lá: 3,9 por cento de crescimento! não há grande volta aqui a dar" dirão os mais "bulish". Bem, tecnicamente até à grande volta a dar. Mas antes disso, vamos a uma pequena distinção que os economistas fazem e se esquecem de explicar: Nominal vs Real. Eu posso medir o PIB em termos nominais, ou seja, crescimento de um periodo ao outro, simples. O problema é o nivel de preços. Se as coisas crescem e os preços crescem no mesmo valor, eu fiquei na mesma. Pelo que eu, enquanto economista, deflaciono quantidades nominais - usando um indice de preços chamado "deflator do PIB" - para chegar ao crescimento real. Um mera brincadeira matemática: dividindo o crescimento nominal pelo real dá-me o deflator implicito nas contas.

O crescimento nominal dos EUA no 3Q foi de 4,7 por cento, ABAIXO das expectativas - que eram de um crescimento nominal de 5,1 por cento. Ora 1,047/1,039 (os 3,9 por cento foram supostamente crescimento real) = 0.0078. Ou seja, o deflator do PIB implicito, que mede o indice de preços do periodo foi de 0,8 por cento. "Por isso é que a Fed baixou as taxas de juro. Não há pressões inflacionistas na economia e a malta que faz as contas nunca iria usar um deflator baixo de proposito se não fosse a inflação real, certo?". Bem, errado. Os EUA usam a "core inflation", que desconta "food" and "energies", ou sejam, mede tudo o que quizerem menos inflação. E se forem ver a inflação média dos últimos 7 trimestres - e a inflação exibe caracteristicas reversivas à média, tal como a volatilidade - é de 3,1%. Ora vamos la ver o que acontece ao PIB real com uma inflação média de 3,1%. Opps. 1,047/1,031 - ou seja estou a "deflacionar" preços - é igual a 1.55%!

Vamos a um exemplo idiota: 10 "forenses" compram 1 pacote de açucar cada um. O pacote de açucar, por idiotice, custa 1 euro. Esta "mini-economia" tem a rubrica de consumo privado com 10 euros (10 "forenses" a comprar 10 pacotes de açucar ao todo, a um preço de 1 euro/pacote). O açucar aumenta 10%, e custa hoje 1,10 euros. Os mesmos 10 "forenses" gastam agora 11 euros em consumo privado, mas eu enquanto economista não deflaciou-no estes 10% porque a minha medida de inflação não tem o preço do açucar ("core inflation - sem "food" e "energies"), pelo que o PIB aumentou magicamente 10%!! Isto é pura inflação não contabilizada...

Voltando aos USA. O consumo privado aumentou, mas aumentou quando tudo quanto era energia e soft commodities está a ir em direcção à lua. Mas esses não entram na inflação pelo que qualquer estatistica de crescimento vem "enviesada", e os valores reais vêm "sobre-estimados".

"Mas olha lá! Por que raio é que vocês não contam com comida e combustivel na inflação lá nos states?" Bem a desculpa oficial é que os preços são demasiado volateis. O que nós economistas nos esquecemos de dizer é que é de todo o interesse de qualquer Estado que corra um deficit orçamental com divida publica ter inflação alta. Chama-se "senhoriagem" e age como um imposto. De forma simples: eu, Estado, peço emprestado 100 euros e pago 4%/ano e digo-vos "ah e tal, a inflação é 2%/ano" pelo que voçês são compensados. Mas se a inflação for mais alta, digamos 6%, então vocês estão a perder 6% e eu a pagar 4% ao ano. Ao fim de 10 anos (sim os Estados endividam-se a longo prazo) voçês precisam de 179 euros para comprar o que dantes custava 100. Mas eu paguei-vos de volta 148 euros. Vocês foram taxados em 31 euros pelo caminho e não deram por isso. Outra brincadeira fiscal é que activos financeiros, ou casas por exemplo, tendem a valorizar com a inflação. Compram uma casa por 100 mil euros. A inflação é de 6%. Ao fim de 10 anos vendem-na por 179 mil euros. Tecnicamente vocês não fizeram dinheiro, apenas mantiveram poder de compra. No entanto, o Estado vai-vos taxar esses 79 mil euros como "mais valia financeira". Dai a inflação servir de imposto e o Estado ter todo o incentivo de a ter o mais alto possivel sem a malta dar por isso...

Bem e como este post já vai longo - peço desculpa por isso - termino a dizer:
Cuidado com as estatisticas! Não há nada mais facil que manipular PIBs/inflação/emprego, e nem tudo vai tão bem como parece em terras de tio Sam. Mas isso fica para outro post 


Novembro 05, 2007, 17:15


E já que estou aqui a escrever, deixo aqui umas pequenas contas que envolvem dois dos maiores bancos do mundo: Citibank e Goldman Sachs.
Não, não vou falar hoje de SIV e ABCP e afins, isso fica para outro post. Vou falar de Level 3 Accounting. E o que (raio) é level 3 accounting? Basicamente é o equivalente americano a um "conto de fadas" contabilistico.

Em contabilidade eu tenho duas formas de preçar um activo. A primeira é, vou ao mercado buscar o preço do dito. Sou uma empresa que tenha uma participação em acções do Citibank e no meu balanço tenho que por o valor de mercado. Número de acções vezes preço por acção da NYSE. Simples. Isto chama-se Level 1 Accouting, aka, mark to market. Se o activo que estou a preçar é pouco liquido, ou não tem um mercado directo onde transacciona, mas é parecido em caracteristicas e cash-flows eu faço mark to model, aka Level 2 Accouting. Neste caso vou buscar um activo com as mesmas caracteristicas e uso-o como referencia. Por exemplo, eu sou um grupo com uma cimenteira, que não está cotada, mas uso a cotação dum Cimpor, por exemplo, como referencia. Depois temos o Mark to Make Bilieve (not my idea... foi um colunista da Bloomberg que deu este nome) aka Level 3 Accounting. Ou seja eu tenho um activo exótico, alavancado, que ninguem conhece - e provavelmente até eu não o compreendo quanto mais os outros - transaccionado num mercado OTC onde nínguém poe os pés actualmente, ou seja, uma CDO subprime ou qualquer coisa do género. Ora preço para aquilo? Não existe. Bem podia ser zero, porque não à Bids. Então eu, perante as regras, vou criar um modelo financeiro, decido os pressupostos, os valores, e "invento" um preço.

Back to Citi/Goldman Sachs. Lembram-se dos lucros record da Goldman Sachs? Bem, 70% dos lucros foram à base de Level 3 Assets, ou seja, activos que a GS tem na mão, que ninguém sabe o que são e, imagine-se, é a própria Goldman que diz quanto valem. Citi a mesma coisa, excepto pela parte dos lucros record. Merrill Lynch idem idem aspas aspas.

Ora a parte chata é esta: a Goldman divulgou que tem 76 mil milhões de dólares em Level 3 Assets. O Citi divulgou que tem 135 mil milhões de dólares nestes activos. Ora nada de mais para empresas com balanços de 1 e 2 Biliões de dólares respectivamente.

Agora vem a parte assustadora: vão ver a conta de capital destes bancos. 39 mil milhões de dólares de capital próprio na GS e 128 mil milhões de dólares para o Citi. Ou seja, neste momento poder-se-á dizer que a existencia destes meninos enquanto empresas solventes assenta nos pressupostos dos modelos de pricing de Level 3 Accouting.

Can anyone say "blood bath"?

PS: Que raio de sistema bancário civilizado deixa bancos centrais a uma economia alavancarem os seus balanços a ratios próximos dos 25. Ou seja, por cada 1$ que os bancos têm, 24 dólares são emprestados. Nem os hedge funds mais arriscados, como o Amaranth - que relembre-se foi à falencia com trades de gás natural - estavam tão alavancados 

Berrio  



Uffff... muito extenso, peço desculpa... espero que os gráficos apareçam, é a primeira vez que coloco os links deste modo.


Cump,
Jesse
Título: Re: Retrato de um Bear Market
Mensagem de: tiagodandre em Fevereiro 15, 2008, 18:54
Jesse...excelente trabalho de compilação, apesar de eu já ter lido a maioria dos posts anteriormente, penso que a comunidade só tem a ganhar com este "sumo" todo!...


Apenas umas questões, quanto ao timing...neste momento quais é que achas que são os sectores que ainda vivem numa bolha especulativa?...Relativamente ao PSI, quais são as empresas (ou sectores) que achas estarem caras relativamente ao seu valor fundamental...ou então, quais é que achas que estão baratas?!... Podes responder à questão que achares mais acessível dar uma resposta... ;)

Aliás, quanto a bolhas acho que já estão à vista de todos...pior era estar a comprar quando tudo ainda era um mar de rosas: As casas nos EUA representavam um investimento com retorno garantido (grandes inflações nos preços); Os exageros cometidos quando o Green pôs as taxas a 1% não iriam ter consequências no futuro (Já para não falar nas injecções de liquidez que adulterou a "Teoria de Darwin" adoptada aos mercados!); blá, blá,...

Relativamente à economia americana...(breve comentário)...Uma recessão não lhes faria nada mal, tal como uma mudança no poder, pois está mais que visto que o Bush só lá esteve a governar este tempo todo, para poder consumir mais álcool em festas, e andar a passear pelo mundo sem saber em que parte do globo estava!...O que tem estado a inflacionar os preços das matérias-primas, como todos sabem, têm sido os países emergentes (nomeadamente a China e a Índia) com o seu crescimento brutal nos últimos anos...(logo maior procura > Produção limitada > Oferta Limitada > Aumento dos preços)...crescimento, que na minha óptima deveria ser contido, de forma a poderem resolver graves problemas que os mesmos países enfretam, e que daqui a uns anos poderá representar um grande obstáculo ao crescimento sustentado destas nações...(Re: KIT DO INVESTIDOR - A China e os seus problemas.... /forumbolsa/index.php?topic=25090.msg59135#msg59135 ).

No entanto, a desvalorização do dólar (um pau de dois bicos) é neste momento a melhor tábua de salvação que a economia dos EUA tem, pois permitiu-lhe melhorar as exportações e as continhas da balança (Lado negativo: facto das commodities serem negociadas em $$...maior inflação dos preços, uma vez que o dólar se desvalorizou relativamente a diversas moedas).


Resumindo: Eu não sou tão péssimista quanto tu (Bear assumido :D), nem como a maioria dos intervenientes...considero uma correcção normal a uma bolha que tem sido esvaziada desde Agosto do ano passado, que coincidiu com a altura crucial de vários índices estarem a tentar consolidar (ou estabelecer) novos máximos, facto que cria sempre maior nervosismo nos investidores, ainda para mais quando muitos apanharam uma grande tareia em 2000-2001, e a memória ainda permanece fresca (Nessas datas é que houve uma verdadeira bolha nos mercados)!...acho que nomeadamente em Portugal, as empresas que compõem o Psi-20, ainda irão apresentar bons resultados (excluíndo o BCP)...o que poderá trazer novamente a confiança aos investidores...pois muitas delas se encontram (a meu ver), a negociar a desconto! Tal como hoje a Impresa disparou, não deverá de espantar que outras o façam...até porque existem empresas em sectores muito estáveis em tempo de recessão que apanharam por tabela,...Mas melhor do que eu andar para aqui a especular, nada como esperar pelos resultados das empresas, e ver a reacção em bolsa!  ;)

Abraço, ao BEAR Jesse...  ;D


PS1: Esta é apenas a minha opinião, mas não deve ser levada em conta para motivos de investimento...a volatilidade é grande e deverá permanecer assim, por isso nada recomendável a pessoas fracas de estômago!... ;)

PS2: (Não, não é a consola)...Se os americanos não querem o pagar a gasolina tão cara é simples...tornem-se mais preocupados com a poluição que originam, e comecem a apostar devidamente nas renováveis!...ou então...andar de bicicleta ou transportes também não é crime, e ir ao MacDrive comprar dois Big Macs não nos torna mais saudáveis!...por isso, se querem comer os big macs, pelo menos não entrem com o carro no restaurante!  ;D
Título: Re: Retrato de um Bear Market
Mensagem de: tiagodandre em Fevereiro 15, 2008, 19:04
Aliás...nada melhor do que um post destes para festejar os 500!...  ;D
Título: Re: Retrato de um Bear Market
Mensagem de: galrito em Fevereiro 16, 2008, 13:04
Muito bom, este artigo!  8)

Cada vez mais me parece que o futuro dos próximos anos nos mercados accionistas será ditado por um destes 2 grandes cenários: Ou as quedas recentes (em particular no sector financeiro) constituíram uma rápida correcção dos excessos destes anos de baixas taxas de juro e crédito mega-abundante; Ou, o cenário menos ingénuo e talvez o mais provável, há ainda muito mais para limpar e as quedas de Janeiro foram o 1º sinal de venda de um bear market mais violento e prolongado do que o anterior que ocorreu de 2000 a 2002/2003.  :(

De qualquer forma, é possível continuar a fazer dinheiro nos mercados e faz-me confusão o medo quase irracional que muitos investidores inda têm de posições curtas - como se apenas por apostarem na descida, fossem uma autêntica roleta russa quando comparadas à "segurança" quase de certificado de aforro das posições longas (independentemente da fase do mercado)!  ::)

Abraço a todos