Analistas dizem que saída de Campos e Cunha afecta confiança de investidores estrangeiros
A bolsa de Lisboa, numa altura em que as principais praças financeiras na Europa rompiam novos máximos, voltava a negociar em queda. Os analistas defendem que este comportamento de «underperform» não é de hoje, mas que a saída de Campos e Cunha afecta a confiança dos investidores estrangeiros. Até Setembro, não prevêem uma recuperação.
O índice PSI-20 [Cot] negociava em queda de 0,09% para os 7.485,86 pontos, numa altura em que os principais índices na Europa transaccionavam em máximos de três a quatro anos.
De acordo com os analistas, esta situação de «underperform» do mercado português face ao resto da Europa não é de hoje, embora considerem que a demissão de Campos e Cunha poderá afectar a confiança dos investidores, sobretudo os institucionais estrangeiros.
Luís Campos e Cunha, ministro das Finanças, pediu ontem a demissão deste cargo, alegando motivos pessoais, familiares e cansaço. Fernando Teixeira dos Santos, até agora presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), será o próximo ministro das Finanças.
«No imediato, esta demissão não deverá afectar o mercado, já que esta situação que se verifica hoje - de "underperform" face ao resto da Europa – não é nova», segundo Nuno Matias, analistas do Banco de Investimento Global (BIG).
Este ano, a Euronext Lisbon está a sofrer uma queda de 1,52%, num período em que os 16 maiores índices da Europa Ocidental estão todos a acumular ganhos, alguns de mais de 10%.
«A economia do país está pouco atractiva para os investidores estrangeiros e as notícias como esta [demissão de Campos e Cunha] não são animadoras» e têm «um impacto na credibilidade internacional do país esta alteração no Governo no espaço de apenas quatro meses».
Nas próximas sessão, o analista do BIG afirma que tudo vai depender da postura de Teixeira dos Santos, ou seja, «se vai inverter ou reforçar a política de contenção que ia sendo levada a cabo por Campos e Cunha» e já aplaudida pelas agência de «rating» internacionais.
O analista recorda a reacção [de queda] da bolsa nacional na altura em que o Presidente da República dissolveu o Parlamento. Poucos dias volvidos, a confiança regressou ao mercado e o PSI-20 voltou a acompanhar o andamento das restantes praças financeiras na Europa.
«Esta não é uma situação positiva em termos de confiança, mas é uma situação temporária e o Governo deverá ganhar de novo a confiança dos investidores e do mercado financeiro depois de verem que Teixeira dos Santos está a levar a cabo a mesma política em relação ao défice», opinou Ana Claudino, economista-chefe do BBVA, em declarações à agência Bloomberg.
Mercado financeiro só volta a «levantar a cabeça» em Setembro
Pedro Santos do Millennium bcp investimento diz que a demissão de Campos e Cunha está «obviamente» a afectar a nossa bolsa e «vem tornar o nosso mercado menos seguro», numa altura em que já se percebeu que o estado da nossa economia «não é brilhante».
«O nosso mercado já é pouco líquido e os poucos investidores estrangeiros que ainda restam vão vender com estas notícias», um factor que poderá ter um impacto «enorme» sobretudo nas «small caps».
Nesta altura, as 20 empresas do PSI-20 movimentavam 34 milhões de euros, contra os 85,5 milhões de euros negociados ontem.
Para este especialista, uma das grandes questões que se coloca é que Campos e Cunha questionava a viabilidade de grandes projectos como o aeroporto da Ota e o TGV, «que agora com a saída deverão ir para a frente».
«Um aspecto curioso é que a Mota-Engil [uma das empresas que, segundo analistas, mais beneficiará com o PIIP], está a liderar os ganhos em bolsa, com uma valorização de 2,45% para os 2,93 euros», uma prova que o mercado acredita que estes investimentos vão mesmo avançar.
Pedro Santos diz ainda que as políticas de contenção de Campos e Cunha davam a entender que «iríamos entrar num período de estabilidade», mas acredita que os próximos meses serão muito difíceis para o mercado de capitais, já que à situação de instabilidade política vem-se juntar agora o período de apresentação dos resultados semestrais que se prolonga até Setembro.
Este analista prevê que os lucros das empresas neste período já vão dar provas da recessão na economia e até Setembro, «nós [bolsa nacional] não devemos levantar a cabeça».
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