Assustado com a crise? Prepare o portfólio para 'era da inflação' que está por vir
"Investindo na era da -flação". O título encabeça relatório formulado por John Cavalieri e Bob Greer e divulgado pela administradora internacional de recursos Pimco. E não, ele não contém um erro ortográfico: a idéia dos analistas é de que o mundo caminha para tempos de aceleração dos preços, seja qual for o contexto em que tal tendência esteja imersa. Daí o neologismo.
Aparentemente complexa, a leitura é na verdade bem simples. "As respostas governamentais à atual crise financeira corroboram para o crescimento das forças -flacionárias no longo prazo. Estas podem vir sob a forma de uma reflação, inflação ou estagflação - ou ainda a combinação das três ao longo do tempo", afirmam.
1- Esclarecendo conceitos
Antes de adentrar as considerações propriamente ditas de Cavalieri e Greer, vale relembrar brevemente tais conceitos. A reflação consiste em períodos caracterizados essencialmente por preços crescentes, o que não é necessariamente ruim - pelo contrário, uma reflação imersa em um período de deflação é até desejada e estimulada pelas autoridades monetárias.
Tudo depende, portanto, do ponto de partida de tal trajetória ascendente nos preços. Se estes já se encontram elevados, a reflação é desfavorável, levando ao conceito de inflação desenvolvido por Cavalieri e Greer. No estudo da macroeconomia, inflação pode ser definida como a queda no poder de compra do dinheiro. Mas os analistas distorcem um pouco o conceito para desenvolver suas idéias.
"Para os propósitos deste relatório, inflação é uma taxa indesejável de aumento nos preços". Este aumento geralmente vem acompanhado por um crescimento econômico forte, sendo neste caso um sintoma da forte demanda agregada que supera a capacidade de oferta da economia. O resultado é o encarecimento dos bens e serviços oferecidos.
O problema é quando a inflação ocorre em um contexto mais complexo - e até pouco tempo atrás, desacreditado pelos economistas: o de fraco ou até mesmo negativo crescimento econômico. Neste cenário, o aumento dos preços se dá primariamente não pelo aumento da demanda, mas sim pela crônica retração da capacidade de oferta. Uma situação de difícil solução para as autoridades monetárias e que assolou a economia internacional na década de 1970.
2- Listando fatores
Mas se, em diversas regiões do mundo, indicadores vêm registrando mínimas no que diz respeito às taxas de inflação - a do Reino Unido registrou sua maior desaceleração nos últimos 11 anos em outubro, mês em que o índice de preços ao consumidor norte-americano reportou o maior recuo desde 1947 - em que se baseia a projeção pessimista de Cavalieri e Greer para o cenário inflacionário global nos próximos anos?
Ao contrário do que possa parecer, elementos não faltam. O principal deles é o rombo na situação fiscal norte-americana. Não é de hoje que o país vem amargando déficits fiscais. Mas a projeção dos analistas é de que a situação deva se agravar sensivelmente daqui para frente, tendo em vista os crescentes dispêndios para estimular o setor financeiro em crise.
Isso para não falar na onda de flexibilização monetária que tomou o mundo nos últimos meses. EUA, Europa, Japão China - todos reduziram seus respectivos juros básicos recentemente para afastar os temores de recessão. O caso da China é ainda mais complicado. Dado seu câmbio atrelado ao dólar, o país quase não tem controle sobre sua política monetária, acompanhando, na prática, as decisões do Fed.
A lista de fatores não pára por aí e perpassa mais uma vez pela China. Cavalieri e Greer acreditam que os tempos de mão-de-obra extremamente barata no país estejam com os dias contados, encarecendo os produtos chineses, o que deve ser um forte baque à economia global. Paralelamente, apesar do recente recuo, as commodities têm tudo para se tornarem cada vez mais caras no longo prazo, principalmente em função do binômio demanda crescente e oferta restrita, dada a falta de infra-estrutura e investimentos.
3- Montando os portfólios
Mas apesar do pessimismo que permeia as projeções dos analistas para o panorama inflacionário, as considerações de Cavalieri e Greer quanto à alocação ideal de recursos em tal cenário são mais amenas. De fato, eles expõem suas dicas para que o investidor possa tirar proveito da inflação mais alta no mundo, em vez de amargar prejuízos com ela.
"Alcançar resultados bem sucedidos requer dois passos: reconhecer o ambiente macroeconômico em que o horizonte de investimentos está traçado e alinhar a estratégia de acordo com ele. Especificamente, os investidores devem considerar duas variáveis macroeconômicas: o crescimento econômico real e as taxas de inflação", afirmam.
Para isso, Cavalieri e Greer lançam mão de uma matriz 2 X 2, contendo as quatro possibilidades derivadas das duas variáveis. Cada cenário contém os melhores e os piores investimentos a se realizar, bem como aplicações que fornecem efeitos variados ou neutros. Veja:
Inflação
Crescimento Baixa/Decrescente Alta/Crescente
Baixo/Decrescente Melhor: Títulos
Neutro: Ações e ILBs
Pior: Commodities Melhor: ILBs
Neutro: Commodities e Títulos
Pior: Ações
Alto/Crescente Melhor: Ações
Neutro: Commodities e Títulos
Pior: ILBs Melhor:Commodities
Neutro: ILBs e Ações
Pior: Títulos
A grande aposta de Cavalieri e Greer é que os ILBs (inflation-linked bonds, em português, títulos atrelados à inflação) devam suplantar os títulos do Tesouro norte-americano como os grandes "safe havens" do mercado internacional. O termo é comumente usado para ativos considerados praticamente imunes às turbulências do mercado, sendo os Treasuries seus maiores expoentes.
No Brasil, as notas equivalem às NTN (Notas do Tesouro Nacional), tanto as NTN-B, que que respondem às variações no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), como as NTN-C, atreladas ao IGP-M (Índice Geral de Preços - Mercado). "Os ILBs são os únicos ativos que fornecem proteção completa ao investidor frente à alta da inflação", afirmam.
Desta forma, os papéis lideram a recomendação de Cavalieri e Greer em um cenário formado pela combinação de crescimento econômico deteriorado e inflação crescente. Já no caso de expansões econômicas robustas, a preferência recai sobre investimentos em commodities, "cuja alocação diversifica o risco de uma carteira montada também no mercado de ações".
Por fim, fica a dica: nada de aplicar os recursos e esquecer de acompanhar possíveis mudanças no cenário. "O regime de -flação esperado não será estático", alertam os analistas. "Os investidores devem sempre esperar por alterações e avaliar os respectivos impactos sobre seus portfólios".
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Por: Nathália A. Terra Pereira 20/11/08 - 11h00
InfoMoney SÃO PAULO - Brasil- "Investindo na era da -flação".