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Morreu o primeiro presidente da bolsa portuguesa

Iniciado por notiCIas, Fevereiro 07, 2005, 09:41

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Morreu o primeiro presidente da bolsa portuguesa

Carlos Alberto Rosa, presidente do conselho fiscal do Banif, faleceu ontem aos 75 anos, anunciou o banco num comunicado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. Veja aqui a última entrevista do primeiro presidente da bolsa nacional, concedida ao Jornal de Negócios.

Susana Domingos
[email protected]


Carlos Alberto Rosa, presidente do conselho fiscal do Banif, faleceu ontem aos 75 anos, anunciou o banco num comunicado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. Veja aqui a última entrevista do primeiro presidente da bolsa nacional, concedida ao Jornal de Negócios.

Carlos Alberto Rosa, jurista, foi o primeiro presidente da Bolsa de Lisboa e esteve à frente dos destinos da praça financeira nacional entre 1974 e 1987, passando por períodos marcantes da vida nacional como a Revolução dos Cravos e a entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia.

Republicamos aqui a sua última entrevista, concedida ao Jornal de Negócios no passado dia 25 de Abril, data da comemoração dos 30 anos sobre a Revolução de Abril.
«Soubemos que a bolsa fechou pelos jornais»

Carlos Alberto Rosa, jurista, foi o primeiro presidente da Bolsa de Lisboa e esteve à frente dos destinos da praça financeira nacional entre 1974 e 1987. Aos 74 anos, conta ao Jornal de Negócios como passou pela Revolução dos Cravos e pela entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia.

Como é que um jurista vai parar à Bolsa de Lisboa?

Fui para a bolsa no princípio de 1973 como representante do ministro das Finanças. Entendeu-se que era necessário pôr ordem e disciplina na bolsa. O mercado estava caótico. Faziam-se transacções na arcada do Terreiro do Paço, na rua, onde havia uma espécie de mercado de leilão. Lá dentro, a bolsa funcionava no Torreão doTerreiro do Paço, com cinco corretores, e o público podia intervir directamente junto dos corretores, o que não era legal.

O objectivo era deixar de se negociar na rua?

Já nem falo na rua. O objectivo era deixar de haver ordens entre os corretores e o público.

O público estava lá dentro e as ordens eram dadas no momento. Não havia um registo capaz das transacções. Desconhecia-se quais eram, com rigor, os montantes – em termos das quantidades –, das operações. Foi uma medida bastante policial, mas tinha que ser tomada para dar um pouco de credibilidade ao mercado. Nessa altura, as cotações oscilavam com uma grande facilidade. Fiquei também encarregue de regularizar os atrasados.

O que é que eram "os atrasados"?

Eram operações de bolsa em que não tinham sido entregues os títulos a quem os comprou. Existiam cerca de 16 mil operações de bolsa cujas liquidações não tinham sido cumpridas.

Estava, nessa altura, a ser preparada nova legislação na bolsa?

Em Janeiro de 1974 saiu o Decreto-Lei 8/74, que estabelecia as novas regras para a bolsa e definiu a criação de uma comissão directiva, nomeada pelo ministro. Era composta pelo presidente, um representante dos corretores, um da banca e um das cotadas. A comissão tomou posse já em Abril de 74 e praticamente não funcionou.

Recorda-se dos títulos mais negociados na época?

É difícil dizer. Alguns tinham cotações absurdas, como era o caso dos cimentos. Havia duas empresas de cimentos, a Cimentos Tejo e a Cimentos Leiria que eram, no fundo, "holdings" do grupo Champalimaud. A 24 de Abril de 74, as acções da Cimentos Tejo valiam 73 contos.

O valor dessas acções mais caras equivalia a comprar o quê?

Não sei, mas por exemplo, uma acção da Império custava 54 contos e, nessa altura, eu ganhava 6 ou 7 contos. Já os títulos das ultramarinas eram baratos. Variavam entre 300, 400 escudos cada.

O que é que se passou na bolsa no dia da revolução?

A bolsa não funcionava nesse dia e não voltou a abrir. Fechou de uma forma "sui generis". Foi uma determinação da Junta de Salvação Nacional, que só foi publicada no "Diário de Notícias".

Quer dizer que não lhes foi comunicado directamente?

Só soubemos através dos jornais.

E o que é que se passou no período que se seguiu?

Entretanto, houve todo o problema das nacionalizações, que ocorreu em 75, na sequência do 11 de Março, e que abrangeu quase todas as empresas cotadas. A bolsa reabriu em 76, mas só para as obrigações. O Governo entendeu que precisava de emitir dívida do Estado e, para isso, tinha que ter um mercado aberto onde fossem transaccionadas.

Mantiveram-se algumas obrigações que já existiam antes do 25 de Abril e introduziram-se outras. O mercado era muitíssimo reduzido. No final de Fevereiro de 77, entendeu-se que a bolsa deveria abrir para as acções.

Foi ver-se o que é que sobrava de cotadas e era muito pouco. A mais notável era a Rádio Marconi, a única que não tinha sido nacionalizada. Quanto ao resto, a banca, seguros, tudo isso desapareceu.

E o que é que sucedeu com a reabertura do mercado accionista em 77?

As cotadas que ficaram eram o saldo do que restou depois das nacionalizações. Restou a rádio Marconi, que rondava os 250 escudos. Mas a maior parte não negociava praticamente nada.

O que é que aconteceu às cotadas ultramarinas?

Essas acções pertenciam a empresas com sede nas excolónias e, a dada altura, quer em Moçambique, como em Angola, surgiu legislação a determinar que esses títulos tinham que ir para lá.

Foram depositados numa instituição de crédito nacional e depois remetidos para o respectivo país, de barco e avião. Estas acções tinham muito movimento porque eram muito baratas.

E quem as comprou ficou sem nada?

Sim. E nem sequer foi paga uma indemnização, por parte de Angola e Moçambique, a quem detinha os títulos.

Estão em carteiras, mas não valem nada. Como presidente da bolsa nesse período, o que fez?

Estabelecemos várias regras, nomeadamente, saber quais eram os valores e montantes efectuados, que era uma coisa que não era feita com grande rigor. É diferente saber que houve um aumento de 10% nas cotações, fruto da negociação de 50 acções ou de 1.000 acções. Era fundamental que esse dado fosse apresentado ao mercado.

Entre 74 e 87 aconteceu muita coisa, nomeadamente a entrada na CEE. Na altura, não existiam estruturas ligadas ao mercado de valores. Entre 85 e 87 acompanhei, em representação do Ministério das Finanças, grande parte da elaboração das directivas comunitárias relativas ao mercado de valores. Lançámos também as bases para a admissão da Bolsa de Lisboa à entidade internacional que regula os mercados. A bolsa foi a primeira representante de Portugal nesse organismo. A CMVM só foi criada mais tarde.

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