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Somos todos clientes do BPP

Iniciado por JoseABMachado, Maio 10, 2009, 13:36

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JoseABMachado

Somos todos clientes do BPP

Eu não sou cliente do BPP, nunca tive conta no BPP e a minha simpatia pelo Banco sempre foi reduzida. Na verdade desde que à uns anos o BPP teve três Fundos de Investimento próprios com grau de risco diferenciado e desempenhos absolutamente irrisórios que me apercebi de que algo não batia bem entre as efusivas campanhas publicitárias no jornal "O Expresso" e a realidade subjacente da gestão de capitais que o mesmo se propunha fazer. Na altura cheguei mesmo a escrever um extenso artigo, publicado no jornal " Vida económica"  que abordava esta questão.

Não quer isto dizer no entanto que não esteja solidário com todos os clientes, depositantes e não depositantes, do BPP e passo a explicar porquê.

Alguns " Opinion Makers " da nossa praça têm escrito " construtivos " e "fantásticos" artigos em que argumentam que o BPP deve falir, deixando implícito que com essa falência deverão ir por arrasto as poupanças dos clientes do Banco. Argumenta-se de que se tratam de aplicações financeiras e de que como tal, devem ser sujeitos às leis do mercado, curiosamente as mesmas leis que hoje em dia tantos criticam e que nos conduziu à presente crise financeira, os ditos " produtos estruturados " que como tal não se enquadram na definição de depósitos tradicionais e por isso não salvaguardados pelo fundo de garantia existente para o efeito.

Este raciocínio enferma contudo do meu ponto de vista de alguma leviandade intelectual objectiva e vejamos porquê.
Em primeiro lugar. existem duas formas de aplicar dinheiro no mercado financeiro. Directa ou indirectamente.

Se for directamente, tomamos posição em activos que consideramos mais oportunos e vantajosos e assumimos o risco inerente às operações que efectuamos. Se alguém compra por exemplo um contrato de ouro, prata, petróleo, uma acção um índice ou seja o que for, não pode esperar mais nada que não seja que a sua decisão esteja correcta ou assumir o seu erro no caso de não estar.

Se for indirectamente como foi no caso do BPP, as coisas não são lineares e este raciocínio já não funciona.

Indirectamente, aplicamos dinheiro através de intermediários financeiros, Bancos, Gestoras de fortunas, Fundos de Investimento etc. Estes intermediários financeiros têm reguladores. Entidades criadas pelo Estado com o dinheiro dos nossos impostos que têm como função " regular ", " supervisionar " e " fiscalizar" o bom funcionamento de todas as instituições que movimentam capitais de terceiros.

Por outro lado estes intermediários têm como dever principal, "esclarecer", "elucidar", "informar"o investidor, sobre os produtos propostos que supostamente deveriam passar pelo crivo e aprovação dos reguladores.

Se este circuito falha quem é o responsável? O cliente do BPP? Porquê? Será que quando vamos a um restaurante temos de ir à cozinha ver se a comida foi convenientemente confeccionada e temos de perceber de culinária. Será que quando vamos à oficina temos de perceber de mecânica?

Evidentemente que não. Existem entidades que fiscalizam, regulam e tratam desses aspectos para que nós enquanto consumidores de produtos financeiros ou não, possamos estar tranquilos.

Não passa pela cabeça de ninguém que cada vez que decidimos ir ao Banco, seja ao BPP ou a outro qualquer, tenhamos de saber o seu balanço, se é credível, se é liquido e se os produtos que comercializa são adequados e coerentes com a informação que disponibiliza.

Existe ainda um outro aspecto triste desta história.Tem o Banco sido apresentado por politiqueiros da nossa praça como um Banco de ricos investidores e logicamente merecedores de todos os males do mundo.

Isto são resquícios talvez na minha opinião de alguma patética "irritação canhota".

Ora eu não sei se existem mais ou menos ricos no BPP, no BCP, no BES, no BPI ou na CGD. O que eu sei de certeza é de que neste momento existe muito " bem-falante " por aí a querer-se eximir de responsabilidades que deveria ter assumido por coisas que deveria ter feito e não fez.

Critica-se também as entidades responsáveis que se sirvam dos ditos " produtos estruturados " para tirar a" água do capote " e pergunta-se quem neste momento está por exemplo a perder dinheiro em Fundos de Tesouraria, supostamente o " Must " da segurança, se também subscreveu produtos estruturados? E se quem foi assediado pelas máquinas comerciais dos Bancos para comprar acções a crédito, também subscreveu produtos estruturados?

Sejamos claros. Existe no mercado financeiro um pântano de sombras onde todos coabitamos muitas vezes sem sabermos ou darmos por isso. Se deixarem entregues a si próprios os clientes do BPP, já sabemos onde nos movemos todos e nesse sentido todos somos clientes do BPP.

José AB Machado   
********
Cumprimentos
José AB Machado

aleixon

#1
Caro JoseABMachado,

Para dinamizar um pouco o CI, que ultimamente anda como uma participação muito reduzida, permita apresentar o meu contributo de forma sucinta:

1) O nome do tópico talvez fosse adequado: Somos todos accionistas do BPP. O argumento é que, mais cedo ou mais tarde, todos nós vamos ter de pagar a factura, tal como os accionistas, com uma diferença que os contribuintes acabam por ser accionistas à força.

2) Quanto ao problema em concreto do BPP, e se existe um problema, então terá de existir uma solução, de forma simples é:
a) as aplicações nominativas (acções, obrigações, fundos), independentemente se o BPP for à falência ou não, não são propriedade do banco (o banco é mero intermediário), por isso deveria ser dada a possibilidade aos clientes de resgatar ou transferir a guarda de títulos (que é preferível dado o preço dos activos e aguardar mais um pouco, até porque, na maior parte delas, serão totalmente recuperados na data da maturidade);
b) quanto aos activos geridos pelo BPP, é o próprio banco que terá de responder pelos seus actos e a forma como geriu. Aqui não concordo com a sua opinião da necessidade de se analisar a estrutura do banco. Qualquer tipo de subscrição de produtos financeiros requer o devido estudo para que se determine se o retorno esperado é minimamente atractivo em função da rentabilidade esperada. Estão excluídos os depósitos a prazo e aqui deverá ser activada imediatamente a garantia prevista legalmente.

Agora se o banco usou os activos que eram dos clientes de forma indevida, trata-se de uma falha do regulador e será este que deverá assumir as suas responsabilidades. Diga-se de passagem que o regulador pela figura do seu presidente, pelo trabalho desenvolvido não justifica minimamente o salário que tem, com uma falha tremenda num dos pontos fundamentais que é manter as boas práticas do sistema financeiro.

Insisto ainda na questão do regulador, pois não se justifica minimamente que este assunto se arraste ao longo de um ano!! Isto só demonstra a fraca actuação e intervenção do regulador... Quanto mais depressa se resolver esta questão, mais depressa se restaura a estabilidade necessária.

Para finalizar, é óbvio que concordo plenamente com a sua ideia principal que se trata de uma situação muito grave e preocupante, o que não pode deixar ninguém tranquilizado, pois ninguém está livre que volte a ocorrer, agora no banco das nossas aplicações.

Por agora é tudo e espero continuar ler por durante muito tempo as suas ideias e opiniões aqui no CI, sempre oportunas, interessantes e pertinentes.

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