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Pensamento para o dia: playing chiken with an economy

Iniciado por berrio, Outubro 11, 2007, 13:22

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berrio

Bem, depois de alguma ausência das "postagens" cá regresso para continuar a colocar-me em frente ao TGB (Train Grand Bull, para quem não acompanha as discussões várias do fórum :P).

Para hoje, deixo aqui o pensamento sobre a mania dos Bancos Centrais de tentar "martelar" câmbios. Reza a história que o resultado não costuma ser muito bom.

Vejamos um pouco de história. Comecemos por 1929. Na década de 20, para quem não se lembra, a Europa tinha saído da Primeira Guerra Mundial e a potência da altura, o Reino Unido, estava com alguns problemas financeiros. Numa tentativa de restablecer o poder da Libra o Governo britanico regressou ao padrão ouro - com as objecções de um conhecido economista chamado John Keynes. A Fed, criada à muito pouco tempo, e por isso inexperiente, acedeu ao pedido do BoE: suportar a política britânica de uma Libra forte. Problema técnico: na altura o UK corria um enorme deficit comercial perante o maior credor do mundo - com grandes taxas de poupança - os EUA, que tinham um enorme excedente da dita balança comercial. Ditam os canones da política monetária que, perante deficits de balança comercial os câmbios dos devedores devem descer, não ser sustentados como "moedas fortes". Escusado será relembrar como a economia, esse "bicho mau", decidiu tratar do desiquilibrio.

Fast forward - os 80's. Grande década - boa música, algumas boas invenções pelo caminho. Também foi uma década de estagnação. Os EUA estavam com a política do "dólar forte", a correr um enorme deficit comercial e o grande "papão" do momento, e credor do mundo, era o Japão. Tal como os EUA fizeram 50 anos antes, o BoJ apoiou a política do "dólar forte" - ou talvez a politica do "yene fraco" para aumentar aas exportações - contrário ao que devia acontecer pela força do mercado dadas as balanças comerciais dos dois países. Escusado será também lembrar o que aconteceu à bolsa, e à economia americana, com essa brincadeira. A única diferença foi que não foi um "crash global" como 29.

Agora o pensamento para o dia de hoje: Troquem o Japão pela China. Juntem-lhe uma bolha de liquidez criada por poupança excessiva na China, um banco central chinês inexperiente teimoso em não deixar a moeda avaliar - à semelhança do BoJ - e um Tresury americano teimoso no "dólar forte". Juntem um BoJ apoiante dum "dólar forte" de modo a criar um "yene fraco". Quanto mais tempo deixarmos que estes desajustes não sejam corrigidos pela via cambial, e portanto que os respectivos Bancos Centrais deixem de brincar no mercado câmbial, maior o impacto do ajuste. Isto não é "alta teoria monetária". Isto já aconteceu por duas vezes no século passado e as consequências foram sempre as mesmas para a bolsa...

Abraços,
GDB
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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berrio

Uau! 3,9% de crescimento. 116 mil novos postos de trabalho. Impressionante. Isto é que é fugir a uma recessão. Ou será?

Vamos ser um pouco cínicos e advogados do diabo por uns minutos. Comecemos pelos números do "emprego". 116 mil novos postos de trabalho criados na economia norte-americana, acima das expectativas. Mas vamos colocar os números em contexto: Dos 116 retirem 36 mil postos de trabalho adicionados via Estado Federal norte-americano, ou seja, mais funcionários públicos. Sobram 80 mil, dos quais 50 mil são contabilizados como "Lazer e hotelaria". Para os mais incautos: é aqui que se insere trabalhos como servir às mesas em restaurantes. Dos restantes 30 mil, cerca de dois terços são professores - isto no mês em que as escolas começam as aulas. Curioso. O sector industrial perdeu empregos liquidos. O sector financeiro perdeu empregos liquidos. O sector tecnologico idem idem aspas aspas.
"Pera ai... então as pessoas estão a ser despedidas das grandes industrias e bancos e a arranjar emprego a servir à mesa?" - basicamente, sim! Alias, visivel pela média de remuneração horária recebida, que desceu.

"Mas olha lá: 3,9 por cento de crescimento! não há grande volta aqui a dar" dirão os mais "bulish". Bem, tecnicamente até à grande volta a dar. Mas antes disso, vamos a uma pequena distinção que os economistas fazem e se esquecem de explicar: Nominal vs Real. Eu posso medir o PIB em termos nominais, ou seja, crescimento de um periodo ao outro, simples. O problema é o nivel de preços. Se as coisas crescem e os preços crescem no mesmo valor, eu fiquei na mesma. Pelo que eu, enquanto economista, deflaciono quantidades nominais - usando um indice de preços chamado "deflator do PIB" - para chegar ao crescimento real. Um mera brincadeira matemática: dividindo o crescimento nominal pelo real dá-me o deflator implicito nas contas.

O crescimento nominal dos EUA no 3Q foi de 4,7 por cento, ABAIXO das expectativas - que eram de um crescimento nominal de 5,1 por cento. Ora 1,047/1,039 (os 3,9 por cento foram supostamente crescimento real) = 0.0078. Ou seja, o deflator do PIB implicito, que mede o indice de preços do periodo foi de 0,8 por cento. "Por isso é que a Fed baixou as taxas de juro. Não há pressões inflacionistas na economia e a malta que faz as contas nunca iria usar um deflator baixo de proposito se não fosse a inflação real, certo?". Bem, errado. Os EUA usam a "core inflation", que desconta "food" and "energies", ou sejam, mede tudo o que quizerem menos inflação. E se forem ver a inflação média dos últimos 7 trimestres - e a inflação exibe caracteristicas reversivas à média, tal como a volatilidade - é de 3,1%. Ora vamos la ver o que acontece ao PIB real com uma inflação média de 3,1%. Opps. 1,047/1,031 - ou seja estou a "deflacionar" preços - é igual a 1.55%!

Vamos a um exemplo idiota: 10 "forenses" compram 1 pacote de açucar cada um. O pacote de açucar, por idiotice, custa 1 euro. Esta "mini-economia" tem a rubrica de consumo privado com 10 euros (10 "forenses" a comprar 10 pacotes de açucar ao todo, a um preço de 1 euro/pacote). O açucar aumenta 10%, e custa hoje 1,10 euros. Os mesmos 10 "forenses" gastam agora 11 euros em consumo privado, mas eu enquanto economista não deflaciou-no estes 10% porque a minha medida de inflação não tem o preço do açucar ("core inflation - sem "food" e "energies"), pelo que o PIB aumentou magicamente 10%!! Isto é pura inflação não contabilizada...

Voltando aos USA. O consumo privado aumentou, mas aumentou quando tudo quanto era energia e soft commodities está a ir em direcção à lua. Mas esses não entram na inflação pelo que qualquer estatistica de crescimento vem "enviesada", e os valores reais vêm "sobre-estimados".

"Mas olha lá! Por que raio é que vocês não contam com comida e combustivel na inflação lá nos states?" Bem a desculpa oficial é que os preços são demasiado volateis. O que nós economistas nos esquecemos de dizer é que é de todo o interesse de qualquer Estado que corra um deficit orçamental com divida publica ter inflação alta. Chama-se "senhoriagem" e age como um imposto. De forma simples: eu, Estado, peço emprestado 100 euros e pago 4%/ano e digo-vos "ah e tal, a inflação é 2%/ano" pelo que voçês são compensados. Mas se a inflação for mais alta, digamos 6%, então vocês estão a perder 6% e eu a pagar 4% ao ano. Ao fim de 10 anos (sim os Estados endividam-se a longo prazo) voçês precisam de 179 euros para comprar o que dantes custava 100. Mas eu paguei-vos de volta 148 euros. Vocês foram taxados em 31 euros pelo caminho e não deram por isso. Outra brincadeira fiscal é que activos financeiros, ou casas por exemplo, tendem a valorizar com a inflação. Compram uma casa por 100 mil euros. A inflação é de 6%. Ao fim de 10 anos vendem-na por 179 mil euros. Tecnicamente vocês não fizeram dinheiro, apenas mantiveram poder de compra. No entanto, o Estado vai-vos taxar esses 79 mil euros como "mais valia financeira". Dai a inflação servir de imposto e o Estado ter todo o incentivo de a ter o mais alto possivel sem a malta dar por isso...

Bem e como este post já vai longo - peço desculpa por isso - termino a dizer:
Cuidado com as estatisticas! Não há nada mais facil que manipular PIBs/inflação/emprego, e nem tudo vai tão bem como parece em terras de tio Sam. Mas isso fica para outro post ;)

Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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jmdpcc

Resumindo,

Mais dia menos dia abre-se os olhos :o e de repente CRASHHH!  :o
Eu nasci para ser rico

kiffen

Mais uma aula grátis e principalmente um aviso que pode vir a valer ouro! Simplesmente espectacular o seu post, Berrio.
Muito obrigado.

Pelos vistos quando menos dermos por isso, aparece aí o Urso e cheio de fome!
TrUsT No OnE

Comentador


Muito bem, berrio!

As estatísticas nos EUA são mais importantes do que quaisquer outras no nosso mundo económico-financeiro. Daí que seja crucial ter presente os aspectos focados dos quais o mais gritante é o modo de cálculo da inflação.

One point, claro.

Abraço
Comentador

carruxa

Boas,
    Berrio, este post está fantástico  ;)... É o complemento perfeito para quem aqui anda... É o suporte fundamentado dos "porquês" que tantas vezes nos deparamos, sem razão aparente...  :o
    Por menos que se ande por dentro destes numeros e desses malabarismos, já todos temos umas introduções caseiras dos nossos governos aquando dos orçamentos de estado e da apresentação dos numeros e resultados, né????  8)
    Não percas o "fio á meada" e dá continuação a este post que bem merece. Parabáns e um pontinho dos grandes.  ;D
Abraço!

berrio

#21
Bem, antes demais obrigado pelo feedback - e pelos pontos :). Espero que continuem a gostar deste Post - isto porque eu sou muito chato e vou continuar a escrever nele ;)

E já que estou aqui a escrever, deixo aqui umas pequenas contas que envolvem dois dos maiores bancos do mundo: Citibank e Goldman Sachs.
Não, não vou falar hoje de SIV e ABCP e afins, isso fica para outro post. Vou falar de Level 3 Accounting. E o que (raio) é level 3 accounting? Basicamente é o equivalente americano a um "conto de fadas" contabilistico.

Em contabilidade eu tenho duas formas de preçar um activo. A primeira é, vou ao mercado buscar o preço do dito. Sou uma empresa que tenha uma participação em acções do Citibank e no meu balanço tenho que por o valor de mercado. Número de acções vezes preço por acção da NYSE. Simples. Isto chama-se Level 1 Accouting, aka, mark to market. Se o activo que estou a preçar é pouco liquido, ou não tem um mercado directo onde transacciona, mas é parecido em caracteristicas e cash-flows eu faço mark to model, aka Level 2 Accouting. Neste caso vou buscar um activo com as mesmas caracteristicas e uso-o como referencia. Por exemplo, eu sou um grupo com uma cimenteira, que não está cotada, mas uso a cotação dum Cimpor, por exemplo, como referencia. Depois temos o Mark to Make Bilieve (not my idea... foi um colunista da Bloomberg que deu este nome) aka Level 3 Accounting. Ou seja eu tenho um activo exótico, alavancado, que ninguem conhece - e provavelmente até eu não o compreendo quanto mais os outros - transaccionado num mercado OTC onde nínguém poe os pés actualmente, ou seja, uma CDO subprime ou qualquer coisa do género. Ora preço para aquilo? Não existe. Bem podia ser zero, porque não à Bids. Então eu, perante as regras, vou criar um modelo financeiro, decido os pressupostos, os valores, e "invento" um preço.

Back to Citi/Goldman Sachs. Lembram-se dos lucros record da Goldman Sachs? Bem, 70% dos lucros foram à base de Level 3 Assets, ou seja, activos que a GS tem na mão, que ninguém sabe o que são e, imagine-se, é a própria Goldman que diz quanto valem. Citi a mesma coisa, excepto pela parte dos lucros record. Merrill Lynch idem idem aspas aspas.

Ora a parte chata é esta: a Goldman divulgou que tem 76 mil milhões de dólares em Level 3 Assets. O Citi divulgou que tem 135 mil milhões de dólares nestes activos. Ora nada de mais para empresas com balanços de 1 e 2 Biliões de dólares respectivamente.

Agora vem a parte assustadora: vão ver a conta de capital destes bancos. 39 mil milhões de dólares de capital próprio na GS e 128 mil milhões de dólares para o Citi. Ou seja, neste momento poder-se-á dizer que a existencia destes meninos enquanto empresas solventes assenta nos pressupostos dos modelos de pricing de Level 3 Accouting.

Can anyone say "blood bath"?

PS: Que raio de sistema bancário civilizado deixa bancos centrais a uma economia alavancarem os seus balanços a ratios próximos dos 25. Ou seja, por cada 1$ que os bancos têm, 24 dólares são emprestados ??? ::) Nem os hedge funds mais arriscados, como o Amaranth - que relembre-se foi à falencia com trades de gás natural - estavam tão alavancados  :-\
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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Antunes

#22
Caro Berrio,

Antes de mais os meus parabéns pelas excelentes opiniões!

Que as estatísticas oficiais do emprego e da inflação eram muito passíveis de erros já eu sabia (tendo até falado aqui sobre as brutais revisões aos n.ºs da estatística payroll sobre o emprego). E que o PIB sai bem maquilhado ao subestimar-se a inflação era também já do meu conhecimento. Agora essa história do Level 3 Accounting desconhecia competamente!

Para ser ter uma ideia do impacto que a bolha imobiliária, o subprime e todas as outras palhaçadas (SIVs, CLOs, CDOs, MBSs...) relacionadas terão nos mercados financeiros nos próximos tempos basta ver estas 2 imagens que serão muito vistas nos próximos tempos...
Cumprimentos,

Antunes