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"Manual" Mercados financeiros

Iniciado por Jesse, Dezembro 15, 2007, 00:19

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Jesse

A ideia era fazer um pequeno "manual" , útil para os que se iniciaram nos mercados financeiros à pouco tempo mas também para os mais experientes.
Irei começar por colocar informações que julgo serem úteis.
Dicas, citações, de quem acompanha os mercados financeiros à mais tempo do que eu.


Como começar nos mercados financeiros?

1. Acumulamos informações, lendo livros, fazendo pesquisas, lendo os artigos interessantes no clubeinvest  :)

2. Começamos a especular com os nossos conhecimentos.

3. Descobrimos que os nossos conhecimentos não são suficientes e voltamos ao primeiro ponto e assim sucessivamente, pois não é fácil, não vamos encontrar receitas milagrosas porque não existem, (e muito menos as vamos encontrar sozinhos) vamos encontrar é informações que nos podem permitir ganhar no mercado mais do que perder.

Coloco agora textos para nos fazer colocar os pés na terra (retirei os dois do blog da ana, o primeiro é do Cem), a frase é do Pedro Miranda e o post também, foram escritos no clubeinvest.
É importante ter os pés na terra porque às vezes com pequenos ganhos podemos julgar que somos melhores do que na realidade somos e no futuro isso pode ser bastante mau.

"historicamente ao longo de todo o século XX e até aos dias de hoje apenas se conhecem as rentabilidades dos conhecidíssimos Warren Buffett e George Soros que ao longo de um período entre 30 a 40 anos obtiveram retornos médios anualizados de cerca de 34%!
Bater este objectivo a longo prazo poderia ser um excelente objectivo para qualquer trader, mas que se saiba ainda ninguém o conseguiu. Mas parece tão fácil, pois é, mas do virtual e desejo à prática real vai uma distância incrível..."

---Cem

Não importa quem és, onde estás, as tuas motivações, religião credos ou raça, os mercados financeiros têm sempre as portas abertas, todos são bem vindos.
Só é necessário possuir algum capital. Preservar o capital é o grande objectivo mínimo, enquanto o tivermos podemos sempre tentar novas estratégias e formas de actuar, quando não estamos a obter resultados, mas se o perdermos..., somos excluidos.



Haverá sempre os que não gostam de pensar muito e que vão continuar a acreditar que é possível fazer dinheiro sem esforço (mental)...
----Pedro Miranda


Atenção, o objectivo deste post não é o de te desencorajar mas apenas divagar um pouco sobre o que é possível, o que é razoável e o que é sustentável em termos de rentabilidades esperadas independentemente da metodologia utilizada.

Vou começar por uma tabela que descreve um objectivo comum de muitos investidores, que têm como objectivo começar de uma base razoável e conseguirem enriquecer verdadeiramente ao longo da sua vida nos mercados.

E o que é «conseguir enriquecer»?
Há muitas interpretações e é tudo contextual... mas para mim, alguém que consiga acumular mais de 5 milhões de euros durante a sua vida, é alguém que enriqueceu consideravelmente... Por isso vamos elevar a fasquia um pouco e ter como objectivo por exemplo 9 / 10 Milhões de euros no longo prazo (20 / 25  anos).

Eu enquadro-me neste perfil em termos de objectivos nos mercados a longo prazo, confesso que o meu sonho é conseguir ser consistente o suficiente para o cumprir, mas sem qualquer expectativa obviamente, sendo que o mais natural será nunca o conseguir.

Plano A:
Capital inicial: 50,000€
Objectivo: 30% de rendibilidade anual a longo prazo.
Maturidade: 20 anos de investimento capitalizado.



Ok, este exemplo do Plano A implicou começar com 50,000€, sei que para muitos é impossível começar desse valor, independentemente disso, no final dos 20 anos conseguiu-se «enriquecer» verdadeiramente nos mercados com os 30% anuais.

Mas é também possível começar por uma base muito mais baixa e atingir os mesmos resultados não em 20 mas em 25 anos, por exemplo com reforços do capital investido nos primeiros anos (poupando mensalmente e reforçando no final dos 10 primeiros anos por exemplo). Para isso deixo aqui um Plano B:

Plano B:
Capital inicial: 5,000€
Objectivo: 30% de rendibilidade anual a longo prazo.
Maturidade: 25 anos de investimento capitalizado com reforços nos 10 primeiros anos.
Método de reforço: Poupança mensal de cerca de 210 euros/mês com add-on dessa poupança no final de cada ano.



Ok... este investidor fez algumas poupanças, conseguiu juntar 5000 euros, começou e nos primeiros 10 anos comprometeu-se a poupar cerca de 200/250 euros por mês sempre para reforçar a sua carteira de investimentos no final do ano. Com isto não teve de esperar até ter 50.000 euros, começou mais cedo e demorou apenas mais 5 anos a ficar verdadeiramente «Rico» nos mercados.

Pessoalmente tenho 10 anos de mercados, só tomei consciência da relevância do valor mágico dos «30% ao ano» uns anos largos depois de ter começado... Mas mesmo que começasse agora... tenho 31 anos... poderia cumprir o meu objectivo com 51 ou 56 anos de idade... e penso que seria um homem concretizado nessa altura... falo por mim obviamente... a verdade é que há muito pouca gente que tenha concretizado alguma coisa semelhante nos mercados, o que pode ser desencorajador, mas não deixa de ser um objectivo.

Mas o meu objectivo em mostrar estes 2 planos é apenas o de enfatizar a relevância e a excelência de alguém no mercado conseguir uma rendibilidade média anual de 30% ao ano consistentemente ao longo de vários anos. Quem quer que tenha conseguido fazer tal proeza enriqueceu verdadeiramente no longo prazo, e há alguns (poucos) exemplos de pessoas que o fizeram.

Ok... agora vamos só dar uma espreitadela naqueles que são os senhores mais ricos do mundo, não como «benchmark» mas apenas para termos uma escala de valores:



Esta tabela está ligeiramente desactualizada, quer pela desvalorização do Dólar, quer pela flutuação de algumas acções como a MSFT. Penso que neste momento o Carlos Slim está já no topo da tabela ligeiramente acima dos 65$B (65,000,000,000 $USD).

Já agora e também só para uma questão de escala, quanto dinheiro há no mundo?
Segundo um estudo feito em 2005 com dados estimados, o dinheiro todo do mundo seria qualquer coisa como 45.5$T (45,500,000,000,000 $USD), este valor é apenas estimado e poderá está muito desactualizado por defeito, mas dá para ter mais ao menos uma escala.

Ok ;)

Agora vou deixar uma tabela com 100.000% de valorização anual e vou começar com um capital inicial de apenas 500€:

Plano em «Testes»:
Capital inicial: 500€
Objectivo: 100,000% de rendibilidade anual
Maturidade: ?



Só deixei 5 anos, porque os valores seguintes rebentam com a tabela ;)
- Começando com 500 euros apenas, ao final do primeiro ano tens já meio milhão de Euros...
- No segundo ano fazes parte do TOP 5 dos homens mais ricos de Portugal.
- No terceiro ano não só és o homem mais rico do planeta, como és 15X mais rico do que que o Carlos Slim... tens mais dinheiro do que todo aquele TOP10 na tabela acima todo junto.
- No quarto ano tens 15X mais dinheiro do que todo o dinheiro da planeta Terra junto...
- No quinto ano.... Não sei interpretar os valores....

A minha pergunta é apenas uma:
- É razoável equacionar uma qualquer metodologia que tenha como objectivo 100,000% de retorno em 1 ano ? 2 anos? 3 anos?

Bem... este post ficou um pouco maior do que eu queria ;)

Um grande abraço a todos !



Agora vou colocar citações do Jesse Livermore, é dificil fazer um best off das citações, no entanto, colocarei apenas as que julgo seremos mais importantes, claro que é a minha opinião pessoal.

Nenhum homem pode sempre ter razões adequadas para comprar ou vender no mercado diáriamente ou o conhecimento suficiente para o fazer.

Dizem que há dois lados em tudo. Mas há somente um lado no mercado: e não é o lado do bear ou o lado do bull, mas o lado certo.

Toda a minha vida cometi erros, mas com o dinheiro que perdi ganhei experiência. Perdi diversas vezes mas a minha perda nunca foi total.

Não há nada como perder tudo o que você tem no mundo para ensinar você do que não deve fazer. E quando você souber o que não deve fazer para não perder dinheiro, você começa a aprender o que fazer afim de ganhar dinheiro.

É uma coisa muito velha, esta de estudar os desempenhos passados. Por meio das suas curvas poderia prever movimentos do mercado.

Quando perdi foi apenas porque estava errado.


Sem fé em seu próprio julgamento nenhum homem pode ir muito longe neste jogo.
(Podemos acrescentar, sem fé no nosso método/sistema nenhuma homem pode ir muito longe neste jogo.)

Eu não entro longo quando o mercado está em baixo, entro longo quando o mercado está em cima.   
(Esta é já uma estratégia. Comprar alto e vender mais alto.)

Observação, experiência, memória e matemática. Estes são os conhecimentos que se devem ter.

Não deve somente observar mas recordar tudo o que tem observado.

Deve apostar sempre sobre as probabilidades, isto é, tentar antecipar.

Um homem pode ter uma habilidade matemática incomum, poder de observação exacta, no entanto falha se não possui também a experiência e a memória.


Por fim,
Após anos no jogo, transforma-se num hábito. Age quase automaticamente. Adquire a atitude profissional e isso permite bater várias vezes o jogo.

Mais um pouco de estratégia, continuando com o Jesse Livermore

Nunca aumente uma posição perdedora. Uma posição perdedora siginifica que você está errado;

Ações nunca estão muito altas para começar a comprar nem muito baixas para começar a vender.
Mas depois da primeira transação, não faça uma segunda a não ser que a primeira mostre lucro;

Sempre venda o que mostra um prejuízo e mantenha o que está dando lucro;

Sempre use gerenciamento de capital;

Não liquide uma posição vencedora para manter uma perdedora;

Não culpe o mercado pelas suas perdas;

Não fique curioso demais sobre a lógica por trás de um movimento. A chave para a fortuna no mercado é a simplicidade.


Para finalizar esta parte de citações, colocarei uma de Michael Jordan.

"Falhei mais de 9000 lançamentos na minha carreira. Perdi quase 300 jogos. Vinte e seis vezes, fui escolhido para fazer o lançamento decisivo e falhei. Falhei vezes atrás de vezes durante a minha vida. E foi por causa disso que eu tive sucesso."

(vou ficar por aqui.)
(*) Utilizador banido do Clubeinvest

Jesse

#1
Existe algo que devemos ter presente, existem dois movimentos de tendência acentuada, Bull Market (Ciclo de subida), e Bear Market (Ciclo de descida).
Estes movimentos são bastante importantes por isso convém falar um pouco deles.


Não é tão linear saber quando um Ciclo de subida termina e começa um ciclo de descida. O melhor método para o fazer talvez seja atráves da Análise técnica.


Mas colocarei algumas caracteristicas do Bull e Bear Market, volto a dizer que poderá não ser tão linear assim... pois algumas vezes não será assim.


Caracteristicas de um Bull market  (quando devemos comprar)

.Quando o momento actual é de crise (a bolsa antecipa cerca de 6 meses o ciclo de retoma)
.Taxas de juro em descida
.A bolsa registou uma queda acentuda e as perspectivas são sombrias (pessimisto domina e todos os que tinham que vender  já venderam.)
.Não existem OPVs mas existem OPAs
.PER médio do mercado baixo (<12), dividend yiel alto (>3%) e PBV baixo (próximo de 1)

Caracteristicas de um Bear market (quando devemos vender) são exactamente as opostas.



Curiosidades dos ciclos de subida e descida no caso do indice Dow Jones.
11.04.2002 | 00:00:00 | César Borja

- Os Bear Markets duram em média 1184 dias, ou aproximadamente 3 anos e 4 meses. Os Bull Markets duram em média 2042 dias, ou aproximadamente 5 anos e 7 meses.

- A média de subida num Bull Market é de 310%. A média de queda num Bear Market é de 42%.

- O maior Bear Market da História em variação foi o de 1929 - 1932, em que o Dow caiu 89% e só em 1954, 25 anos depois, é que atingiu um novo máximo histórico face ao máximo de 1929. O maior Bear Market da História em duração foi o de 1976 a 1982, que durou 2115 dias ou aproximadamente 6 anos. É engraçado que o Bear mais longo preceda o Bull mais longo da História.

- O maior Bull Market da História, foi o de 1982 - 2000. Subiu 1400% em 18 anos, o que dá uma taxa média de variação anual de aproximadamente 77% !!!!

- Outra curiosidade é que efectivamente nas duas Grandes Guerras Mundiais os mercados estiveram em Bull Market, com o Bull de 1914 - 1916 e o Bull de 1942 - 1946.
(*) Utilizador banido do Clubeinvest

Jesse

Os motivos de um Bear
19.04.2002 | 19:33:41 | César Borja

(ter em atenção a data do artigo.)


Na história económica e da Bolsa verficamos que a fases longas de expansão (entendida como crescimento acima da Tendência de longo prazo) se seguem fases longas de recessão (entendida como crescimento abaixo da Tendência de longo prazo) e vice-versa, ou seja, a curtas expansões seguem-se curtas recessões. Isto em termos gerais, e empiricamente é normal que assim seja.

Quanto maior e mais prolongada a fase de crescimento do ciclo maior a probabilidade desse crescimento abrandar ou até estagnar durante um período alargado de tempo. Isto porque quanto maior a expansão maiores deverão ter sido os excessos cometidos, em termos de consumo, endividamento, sobre-investimento, bolhas especulativas, etc.

A ideia geral deste ponto é a seguinte: nos EUA tivémos a maior expansão económica de sempre, desde 1991 a 2001. E tivémos também o mais duradouro Bull Market (de 1982 a 2000) e que maior valorização registou, em toda a História da Bolsa norte-americana (1400% medidos pelo índice Dow Jones).


Rácios Fundamentais (PER e Dividend Yield)

Preciso de começar a encurtar os motivos. Aqui vou ser muito sucinto, considerando os lucros das empresas do S&P 500 em 2001, o seu PER à cotação de final do ano era de 45 !!! Isto significa que, se se mantiverem os lucros actuais e se as empresas os distribuirem totalmente sob a forma de dividendos, os investidores demorariam em média, 45 anos a reaver o capital inicial investido. É um investimento racional, do ponto de vista económico?

O Dividend Yield do S&P 500, neste ponto, está nos 0,9%. Qualquer depósito a prazo, embora dando pouco de juro, dá sempre mais do que isto. O investimento em acções nesta altira é racional do ponto de vista económico?

Só para dar um exemplo, em 1982, no início do anterior Bull Market, o PER do S&P 500 era de 8 !

Expectativas dos investidores e analistas

Tenho uma pena enorme de não ter conseguido apontar tudo o que vi na CNBC, mas apontei o suficiente para ilustrar este ponto: os analistas esperam, para o 3º trimestre de 2002, um crescimento dos lucros de 140% para o sector tecnológico e de 48% para o sector financeiro, isto face ao 3º trimestre de 2001.

Em termos macro-económicos globais, os economistas (em média) esperam uma taxa de crescimento do PIB norte americano, em 2002, de 3,5%. Para o 1º trimestre esperam uma subida do PIB, em termos anualizados, de 5%.

Não considero estas expectativas minimamente realistas, e o o pior nem é isso, o pior é que mesmo que elas se concretizem, isso já está descontado, vejam só... :-)

Sobre-endividamento de empresas e particulares

Tenho imensa pena de não ter dados concretos sobre o assunto, mas penso que isto é aceite pela generalidade das pessoas: os consumidores e as empresas estão demasiado endividadas. A tx. de poupança nos EUA tem sido negativa nos últimos trimestres, e o seu endividamento ronda os 100%, ou seja, tudo o que ganham vai para prestações fixas, em média, neste momento. Em Portugal essa taxa de endividamento está nos 93%, o valor mais alto de sempre na sociedade portuguesa. A Deutsche Telekom deve tanto quanto a sua capitalização bolsista. A France Telekom deve uma vez e meia aquilo que vale em Bolsa, e olhem que não vale pouco, e está até sobre-avaliada na minha perspectiva.

Normalmente em períodos recessivos, quando esse sentimento se começa a instalar na sociedade, a poupança sobe e o endividamento desce, como é natural, em tempos de vacas magras não se gasta à toa, puro senso comum (também por grande influência das descidas de taxas de juro). Quando a Economia atinge o fundo os consumidores e as empresas têm poder para consumir e investir, pois estiveram algum tempo a digerir os erros e excessos eufóricos que cometeram no passado. Agora isso ainda não aconteceu, o apertar de cinto que houve, por enquanto, quase não se notou na sociedade.

Em anteriores recessões, existiam duas condições que favoreciam uma rápida expansão como aquela que se espera, quanto a mim erradamente, agora:

1) Os consumidores e empresas corrigiram os excessos cometidos, antes de se iniciar a nova expansão.
2) Por ter havido uma grande quebra do consumo, a aceleração seguinte foi bastante vigorosa. É uma questão de impulso, como se fosse um elástico, quanto mais descer maior o potencial de subida a seguir (o Greenspan ontem referiu este efeito no seu discurso).

É uma questão a analisar com maior rigor nos próximos dias.

Ausência de OPA´S

Quem são os que conhecem melhor as empresas e o seu valor? São os analistas? São os Traders? São os economistas? Não, são as próprias empresas, os seus directores gerais e presidentes. São esses os primeiros a identificar o valor, ou a sua ausência, no seu sector de actividade, quando o presenciam. Isto não quer dizer que sejam sempre verdadeiros quando comunicam com o público, obviamente têm de defender as suas cores e interesses próprios.

Mas, se pensarmos que esses identificam o valor, actual e futuro, de uma forma mais objectiva e verdadeira do que os outros, por conhecerem melhor os seus negócios, porquê que esses não compram acções? Porquê que não há OPA´s?

Seria natural uma enchorrada de OPA´S nesta fase do ciclo, caso as expectativas dos insiders fossem as mesmas da generalidade das pessoas e investidores. Se as acções estivéssem baratas face ao futuro previsível, seria natural que os maiores começassem a «comer» os mais pequenos, a preços de saldo, formando novamente nichos de monopólio ou oligopólio e gerando o perdido «pricing power».

Mas não, não se vêem OPA´s em lado nenhum. Só cá em Portugal é que o Belmiro anda a comprar as suas próprias empresas, num processo algo duvidoso e que eu considero extremamente arriscado no curto/médio prazo, para uma empresa com o endividamento da Sonae.

Nos EUA, pela Europa fora, não tem acontecido aquilo que acontece sempre no início um Bull Market de longo prazo: Operações Públicas de Aquisição !


Bolha no mercado imobiliário

Não é preciso pensar muito para chegar a esta conclusão, embora eu precisasse de bastantes mais dados para a provar inequivocamente. Para mim o mercado imobiliário, tanto na Europa como nos EUA, está em ponto de subida final, para uma queda mais ou menos forte nos próximos anos. Esta vem nos livros de História, até no Ganhar em Bolsa vem, quando a Bolsa deixa de dar, o imobiliário tem a sua maior subida, que ainda dura um bom tempo em pleno Bear Market accionista. Passados alguns anos, já com a Economia mesmo em recessão, talvez com crescimento negativo, aí, o mercado imobiliário finalmente cai, para grande espanto do grande público. Claro que depois se levanta outra vez, mas isso já é outro ciclo, por isso há especulação imoibiliária, que não é mais do que a mobiliária, consiste em comprar baixo para vender alto :-)

Ok, o que eu retiro daqui é o seguinte: o imobiliário, historicamente, cai antes do início do próximo Bull Market. É mais um motivo para não acreditar num Bull já, o imobiliário ainda não caiu...

Sobre-capacidade instalada

Na última expansão, a mais longa de todas, tínhamos um dogma: quanto mais se investe mais se vai ganhar no futuro. No decorrer dessa expansão, com o passar do tempo, perdeu-se a noção de risco, de que nem sempre os investimentos são lucrativos, de facto, podem fazer-nos perder tudo quanto poupámos.
Se quanto mais se investia, mais se ganhava, as empresas investiram o que podiam e não podiam, na expansão das suas fábricas, do seu nº de empregados, enfim, da sua capacidade de produção instalada. Porém, quando falta a procura, a mobilidade para diminuir a capacidade instalada, apesar de ser elevada face a períodos anteriores, não é perfeita, não é automática.

Para uma situação de procura inferior as empresas necessitam de ajustar a sua capacidade de produção para níveis mais baixos. Estão a fazê-lo, mas não de forma suficiente, ainda têm muita esperança de que não seja preciso. De facto, penso que toda esta conversa de expansão fulgurante só vai fazer uma coisa, no médio prazo: adiar a resolução dos problemas, sérios, que a Economia global atravessa. Digo global porque temos os EUA, a Europa e o Japão no mesmo saco, devido à globalização o ciclo económico das várias Economias tenderá a aproximar-se no tempo, o que faz com que quando uma está mal isso afecte todas e vice-versa. Quando todas estão mal, e com os mesmo sintomas (apesar do Japão estar nisso já há vários anos), temos um problema, cuja resolução não será fácil.

Problema da utopia do capitalismo: a concorrência perfeita

Os vários modelos de organização da Economia de uma sociedade, quer seja capitalista, keynesiana, marxista, etc, nos seus extremos, têm pontos utópicos que convém conhecer. No caso do capitalismo, que é aquele em que estamos inseridos e que por isso mais nos importa (como quase toda a Economia mundial), o seu ponto utópico é a concorrência perfeita.

Reparem que se existir concorrência perfeita em todos os sectores, os lucros das empresas são obrigatoriamente zero no longo prazo. Com concorrência perfeita não existem barreiras à entrada em sectores cujos participantes estejam a ter lucros anormais (lucros positivos na teoria económica), logo, com a entrada de mais empresas nesse sector, o «bolo» sendo dividido por cada vez mais, no limite acaba por dar zero a cada uma das empresas. De facto, o exemplo do bolo é um pouco infeliz neste caso, pois se a indústria ou sector já não der lucro, e continuarem a entrar empresas no sector (movidas por motivos economicamente irracionais), de facto a parte do bolo que cabe a cada uma acaba por ser negativa :-) Isto aconteceu recentemente no sector da internet, muitas empresas entraram num mercado não lucrativo e saíram sem apelo nem agravo, por falência.

Nos mercados lucrativos, se existir concorrência perfeita, o cenário é que as empresas vão entrando até que o lucro de cada uma delas seja nulo.

Desta forma, o capitalismo necessita de barreiras à entrada, necessita de monopólios, oligopolios, de carteis, etc. É isso que as empresas procuram sempre, «market share». Por isso a liberalização de muitos sectores, como o energético, o das telecomunicações, o dos media, etc, enfim, praticamente todos os sectores, embora beneficie o consumidor final devido aos preços mais baixos, alguém vai ter de pagar o almoço, uma vez que não existem almoços grátis :-)(César das Neves). Esse alguém são as empresas, que nas contas finais sofrem com a liberalização dos sectores.

Penso que isto está a acontecer um pouco nos EUA. Concorrência a mais retira o «pricing power» às empresas. Num mercado de concorrência perfeita, nenhuma empresa tem capacidade para fixar o preço de mercado, que vai baixando, baixando, à medida que a competição e luta pela sobrevivência aumenta. O consumidor é rei, adquirindo produtos cada vez melhores a preços mais baixos... mas não nos podemos esquecer que os consumidores trabalham nas empresas, e se as empresas sofrem, eles também irão pagar, através do desemprego e baixas de salários, gerando um ciclo vicioso deflacionista.

O que normalmente ocorre nestes casos é que os grandes vão tomando os pequenos, ou seja, as empresas de maiores dimensões vão adquirindo as empresas mais pequenas ou com menos capacidade financeira, adquirindo market share e pricing power. Mas para que esse processo possa ocorrer, o tal das OPA´s, é preciso que as cotações caiam e os preços fiquem atractivos para esses grandes negócios. Agora assim, a estes preços irracionais do ponto de vista económico, quem é que vai investir, comprar empresas? Quando os próprios potenciais compradores estão ainda endividados?

Não vão, ou pelo menos não o têm feito, estão à espera de melhores oportunidades...

Conclusão

Sinto que isto ficou um bocado atabalhoado, nem vou reler, mas estão aqui os meus pensamentos, os meus motivos para estar Bear de médio prazo. É claro que penso que o crescimento económico, a evolução do Homem, não tem nem nunca terá limites, mas há alturas na História em que é preciso dar um passo atrás, consolidar os ganhos recentes, para depois continuar em frente. É só isso que defendo que vai acontecer, um passo atrás, após muitos passos em frente que foram dados nos últimos anos. Tal ciclo recessivo nada trará de dramático para os agentes económicos, antes pelo contrário, muito menos para aqueles que estejam preparados para ele.

São esses momentos que geram a oportunidade, lúcida, consubstanciada em argumentos e análises válidas, para bons investimentos de longo prazo. O que um investidor quer é comprar baixo para vender alto. Por isso pretende que os preços caiam, como é evidente, para níveis em que existe uma real oportunidade de negócio, um saldo.

É disso que tenho estado à espera em termos de longo prazo, e assim irei continuar, até que a oportunidade divina finalmente surja !


Peço desculpa pelo «comprimento» do artigo mas não tive capacidade para me exprimir com menos palavras.

César Borja


(Por agora fico por aqui, quem desejar continuar, ou comentar,fica à vontade. ;))
(*) Utilizador banido do Clubeinvest

djyar

Boas!
Uma boa peça para reflexão.
Mas surge-me uma pequena dúvida de tudo o que li. Se o momento é de bear e se está à espera do momento certo, qual a melhor estratégia para neste ciclo nãoter o dinheiro parado?
Obrigado e bom fim de semana.
Djyar

Jesse

O artigo anterior foi escrito por César Borja, não foi escrito por Jesse e a data é de 2002.

O inicio do anterior bear market foi em 2000 e terminou em 2003.

É um texto interessante para reflectir e para fazer comparações.

Mas respondendo à pergunta, quando o momento for de bear podemos ganhar dinheiro com as descidas, através de "venda curta" (short selling) ou através de produtos derivados, (CFD´s, futuros, etf´s),etc.

(Fiz uma modificação no primeiro post para inserir a parte das rentabilidades escrita hoje por Pedro Miranda.)
(*) Utilizador banido do Clubeinvest

Raro-x

Jesse,

Fiquei com algumas ideias retidas na memória, obrigado!

Cá vai um ponto pelo bom trabalho!

Bom início (e continuação) de 2008!

Abraço e Bons Negócios!

zefontelo

As citações de Jesse Livermore, sao mesmo do best...

Jesse

Isto é um artigo do César Borja, escrito em Maio de 1999.

15.05.1999 | César Borja

Neste artigo apresentarei 18 indícios ou condições que têm uma boa probabilidade de acontecer quando estivermos perante o ínicio de um Bull Market (mercado com tendência ascendente de longo prazo). Serão abordados dados de natureza técnica, fundamental e até psicológica.

Aqui estão os 18 factores:

1. A economia nacional está em claro abrandamento, provavelmente em crise e possivelmente em depressão. Significa isto que certos indicadores, como consumo privado, mercado imobiliário, consumo de cimento, PIB, estão em diminuição, e em aumento o desemprego e as falências. As expectativas e conjecturas dos agentes económicos, tais como expressas em diversos painéis de opinião, são negativas ou pessimistas. Os orgãos de comunicação social, como porta vozes do clima geral e opinião pública, dão igualmente o mote do negativismo.
Repare ainda que o desemprego é um «lagging indicator», ou seja, reage já bastante depois da economia ter iniciado o seu rumo, e que o investimento, nomeadamente o investimento em construção, é um «leading indicator», isto é, inicia a sua direcção e arrasta consigo a economia como um todo. Isto será melhor discutido num artigo posterior, em que tentaremos identificar e medir a importância dos leading e lagging indicators na economia portuguesa.

2. As taxas de juro estão em descida.
Provavelmente já ocorreram consecutivas descidas das mesmas. Quanto a este factor posso dizer que com taxas de juro em subida o mercado de acções será bear e que nem sempre as descidas de taxas de juro fazem o mercado subir, pois a economia poderá estar mergulhada na armadilha da liquidez, como esteve o Japão nos últimos anos.

3. A bolsa teve recentemente uma queda acentuada, vindo em declive há largos meses. Poderá, eventualmente ter estado sustentada, mas em baixos históricos, quanto aos tempos mais recentes.

4. O Per médio de mercado é baixo (doze ou menos); o Dividend Yield nunca é inferior a 3%; o Price to Book Value anda pela unidade ou talvez menos.

5. O mercado de obrigações tornou-se pouco atractivo, no sentido em que as taxas de juro de remuneração das Obrigações do Tesouro estão muito baixas (yields). O yield das OT a 10 anos não deverá ser maior do que o triplo do Dividend Yield do mercado de acções, na hipótese mais extrema (normalmente, no ínicio do bull o múltiplo é menor).

6. Não há ofertas públicas de venda de acções (OPV´S), mas aparecem várias ofertas públicas de compra de empresas (OPA´S), visto que, na transição do Bear para o Bull Market, as acções estão desvalorizadas em relação ao futuro próximo. É normal no final do Bull surgirem bastantes rumores de OPA"S que apenas se concretizam dois ou três anos mais tarde, quando o mercado já caiu e as empresas estão desvalorizadas.

7. Certas acçoes das empresas mais importantes ou com poder de liderança na Bolsa iniciam subidas, como por exemplo, em Portugal, a Portugal Telecom e a Jerónimo Martins.

8. Pode-se ter notado um aumento do volume de negócios na Bolsa, nos últimos tempos de baixa ou consolidação em baixa.

9. Notou-se a subida relevante de alguns títulos. Embora poucos, a sua ascenção parece anómala em relação ás subidas mais recentes, normalmente efémeras e de pequeno vulto.
Esses títulos costumam pertencer a um sector determinado, como por exemplo o sector da construção ou da banca, ou mais simplesmente, de empresas mais injustamente penalizadas pelas descidas anteriores, apesar de apresentarem bons ou interessantes relatórios e contas.

10. As médias móveis de curto, médio e longo prazo, tomam, em conjunto, rumo ascendente.

11. O declive ascencional do índice será tanto maior quanto maior a força do movimento de modo que a escolha da média móvel atravessada pode disso depender.
Assim, com uma ascensão violenta, o cruzamento da MM de 30 dias bastará; se estiver em ascensão lenta, a MM de longo prazo (exemplo 150 dias) será muito mais aceitável.

12. Se no momento da viragem, o índice subiu com grande aumento de volume, em chamado «buying climax», isto é, se os negócios quintuplicam no mínimo em relação à média do período imediatamente passado, vale a pena avaçar só com este sinal e a ascenção em uníssono das 3 MM (de curto, médio e longo prazo). Por exemplo, o maior Bull Market da História iniciou-se em 17 de Agosto de 1982 e ainda hoje dura, nos EUA, e rompeu com um aumento de volume 42 vezes superior ao período anterior.

13.As acções de baixa qualidade podem começar a subir de preço, o que se deve à valorização rápida das mais atractivas, as primeiras a avançarem. É um fenómeno de arrastamento.

14. A linha do número de acções em subida e descida está claramente em ascenção e quanto maior for o declive dessa subida, mais rápido deve ser o movimento do investimento. Porém é normal, no início do Bull, a linha de subidas e descidas só reagir depois do índice já ter tomado o rumo ascendente, pois habitualmente as «Blue Chips» arrancam primeiro.

15. Provavelmente formou-se no gráfico do índice uma figura importante de reversão, como «cabeça e ombros» invertida, «fundo duplo», etc.

16. Possivelmente uma linha de resistência foi ultrapassada com largo volume e boa percentagem de valorização do índice.

17. Os volumes em subida superiorizam claramente os volumes em descida.

18. O Bull Market fica consolidado quando a linha do índice ultrapassa na ascendente a Média Móvel de 150 dias.


NOTA: Este artigo foi largamente baseado no livro «Ganhar em Bolsa - O Mercado de Acções», de Fernando Braga de Matos, Editora Elcla.

César Borja
(*) Utilizador banido do Clubeinvest

cax

Mais um excelente post e um bom livro o "Ganhar em bolsa".

Um abraço.