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Como estrangular uma economia (versão Paulson)

Iniciado por berrio, Outubro 02, 2008, 17:00

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berrio

As implicações do Plano Paulson são ainda mais graves do que simples "risco moral"/"roubo aos contribuintes".

Tecnicamente os bancos (em especial os americanos) fundam-se via depósitos ou via mercado de papel comercial (crédito curto prazo, maturidade inferior a um ano). Neste último, os Fundos de Mercado Monetário (fundos MM) são os GRANDES players. Um americano médio (ou gestor financeiro médio) coloca o dinheiro num fundo monetário e este vai comprar papel comercial no mercado monetário. O banco, que vende o papel comercial, pega no dinheiro (que encara como um depósito) e converte-o numa hipoteca. Ok, o problema neste momento é que o mercado de papel comercial está virtualmente parado. Ninguém sabe quem tem o quê, ninguém empresta, a USD Libor explode (taxa de juro de curto prazo). Ok, so far so good, isto já tem sido explicado quase até à exaustão.

O problema grave é:

Para onde foram os Fundos MM? Fugiram para as obrigações do Tesouro norte-americano, um instrumento 100 vezes mais seguro. Logo, o que se tem de fazer é mandá-los de volta para o o Mercado Monetário: eles são a peça que falta naquela engrenagem.... mas heis que hoje reparei no seguinte (contas cortesia do Bank of America):

Para financiar o TARP (partindo do pressuposto que nos ficamos pelos 700 mil milhões) vão ser precisos cerca de 925 a 975 mil milhões de dólares, entre o início e 2010. E aqui estão muitos pressupostos - recovery ratio não desce mais, defaults não aumentam, correcção não dura muito mais tempo (pressupostos que não serão muito realistas, mas chega para o ponto que quero fazer). Portanto, quase 1 bilião de novas obrigações vão ser emitidas (presumo que isto é uma maneira de evitar expandir o balanço da Fed, como o Japão teve de fazer nos anos 90). Problema técnico é que, em média, o público tende a deter (em mãos privadas entenda-se), cerca de 700 mil milhões de notas de tesouro (valor médio desde 2003). O resto é detido por Bancos Centrais e outros meninos. Mas este valor explodiu desde Agosto de 2007: +135%, para os 1.65 biliões, ao mesmo tempo que houve uma fuga generalizado por parte de bastantes investidores, para a Europa.

Ou seja, temos aqui oferta a mais. Segundo as continhas do Bank of America, estando os fundos de MM no mercado do tesouro, eles absorvem parte das necessidades de financiamento (400 mil milhões), mas desta forma mantêm-se o impasse no MM - crowding out - e a tensão na USD Libor mantêm-se. Ao mesmo tempo, sobram 500 mil milhões em cima de um aumento de 135% face à média. Além do efeito óbvio de excesso de oferta - yields sobem ainda mais e propagam-se ao resto da curva - temos ainda que, na prática, isto vai tornar cada detentor privado num "comprador de papel comercial", ou seja, no limite, em vez de ser a USD Libor a descer, é a taxa de juro média (presumo que sejam emitidas OTs a 10 anos, que estão a 4%) a convergir com a Libor (que está a 6%).

Ou seja, não só, não acalmam o Mercado Monetário como coloca um garrote à economia com uma curva de juros mais plana e mais alta ao mesmo tempo que se mantém a dúvida "quem é solvente e quem não é". Em suma, corre o risco de transformar uma crise de liquidez numa crise grave de crédito ao longo de todas as maturidades...
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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tiagodandre

#1
Já agora...

Deixar a proposta tão falada....cada vez mais volumosa.... ::) ("The additional 341 pages in the Senate version have nothing to do with the bailout per se, but instead are an energy bill and a tax bill")

Emergency Economic Stabilization Act of 2008 Senate version
IN THE SENATE OF THE UNITED STATES—110th Cong., 2d Sess. (451p.)

Emergency Economic Stabilization Act of 2008 Senate version
IN THE HOUSE OF REPRESENTATIVES (110p.)

E um trabalho interessante e actual...
Systemic Banking Crises: A New Database
IMF Working Paper


Quanto às questões que colocas berrio...não lhe chamaria uma crise, mas um agravamento das taxas a médio e longo prazo (com ou sem plano vai acontecer)...obviamente com repercussões na economia...

2 questões se colocam:

1) O plano Paulson como está escrito vai servir para atenuar os efeitos na economia real (Main Street), ou seja, o plano dos 700 mil milhões é melhor que nada, ou não?

2) Com o dinheiro alocado para esta plano, não se podia fazer bem melhor? Propostas?

Cump.
"Aprenda com os erros alheios. Não viverá o bastante para cometer todos os erros." (Martin Vanbee)

"Investir em conhecimento rende sempre os melhores juros." (Benjamin Franklin)

berrio

1) Não! Tal como expliquei acima, e em outros posts, este plano não só não cura nada, como oferece incentivos para um KEY PLAYER (fundos monetários) no mercado monetário a não voltar lá, como ainda vai aumentar as taxas de juro de médio e longo prazo.
Pela 100000x, não se esqueçam que é aqui que a maior parte das famílias têm as hipotecas (ao contrário de Portugal) e também não se esqueçam que, se estas taxas subirem, empresas que dantes tinha um mero problema de liquidez (a afectar a sua dívida de curto prazo) passam a ter um problema de solvência e desalavancagem, porque a parte mais "longa" do seu passivo começa a subir, comprimindo ainda mais o balanço!

Nota isto Tiago: os americanos estão com Equity Negativa. Ou seja, não têm poupança nenhuma e estão a pagar créditos com créditos. Globalmente, aquela economia paga as suas dívidas (e juros dessas mesmas, ao que a coisa cresce em exponencial) como dívida de médio e longo prazo. Criares incentivos para uma convergencia entre estas taxas e as mais curtas (no sentido das primeiras se aproximarem às últimas, que estão a explodir) é a última coisa que queres fazer!

A única lógica do TARP, na minha humilde opinião é a seguinte:
A Reserva Federal está no limite do seu balanço (isto é já um facto, tiveram inclusivamente de ser recapitalizados). Ou seja, em português, não podem continuar a mandar as coisas para debaixo do tapete (leia-se, as operações de conversão destes derivados em tresuries) sem começar a imprimir notas (expandir o balanço para além do seu limite). Mas isso quer dizer "quantitative easing", ou seja, perdes o controlo à taxa de juro (Japão, anos 90). Este bailout, numa forma mais retorcida, mais parece uma bailout à Fed do que a Wall Street!

2) Sim, há! E já publiquei aqui e tudo. Repetindo (e resumindo para "português mais corrente"):
CitaçãoContinuar a atirar dinheiro ao problema não é a solução. Não contando com os 700 mil milhões de dólares do Bailout, já foram "atirados" 1,5 biliões de dólares pela Reserva Federal. São 10% do PIB dos EUA! O "ataque cardiaco" que todos falam, nos mercados de crédito, deu-se aquando da falencia da Lehman Brothers, quando se viu um buraco de 110 mil milhões dólares no seu balanço. Basicamente, eles estavam a preçar mal os seus activos. A questão surgiu: quem mais tem este problema?

A pergunta deixa de ser "quem é liquido?" e passa a ser "quem é solvente?",e o mercado pura e simplesmente deixou de funcionar! A única maneira de desbloquear o "impasse" é colocar as cartas na mesa, e admitir que uma parte do sector bancário norte-americano é de facto insolvente.

O Estado entra com injecções de capital. Em troca, pede acções preferênciais no mesmo valor. Isto torna a coisa mais "simples": não é o contribuinte a investir, é o contribuinte a servir de agente para uma troca - o dinheiro dos accionistas entra para dentro das contas (estes são, na prática eliminados). Depois, segura-se a dívida senior (a primeira na linha de recepção aquando duma falência, e exactamente aquela que ficou "branca" quando viu a Lehman Brothers) a um nível perto dos 75 centimos. Isto significa cerca de 25% de "hair cut" a serem reduzidos na divida, ou seja, por cada dólar emprestado podem receber de volta 75, o que é o normal que divida senior recebe em caso de falência. O problema foi que na Lehman, receberam 12 centimos por cada dolar emprestado.

Divida junior permanece em risco. Há uma lição a ensinar aqui: divida junior (em especial de curto prazo, a grande causa da alavancagem excessiva dos bancos) é arriscada. Com esta medida, o "premio de risco" deste tipo de dívida sobe, para os actuais e futuros "gigantes". Pensem num "imposto" que o mercado impõe ao tamanho. Quanto maior, mais "imposto". Isto levantará capital suficiente para "desalavancar" estes balanços. Em vez de termos empresas que, por cada 40 ou 60 dólares que têm, 49 a 59 são emprestados, passamos a ter empresas em que por cada 10 dólares apenas 9 são emprestados.


O próximo passo é limpar a casa. Assumir as perdas e usar o que na gíria se chama o esquema "good bank/bad bank": todos os activos que estavam a corroer os balanços são retirados para uma nova holding (o "bad bank"), e o que sobra (o "good bank"), passa a ter um balanço possível de gerir sem um buraco negro no meio. Deste modo, o interesse privado volta a ressurgir: dado que toda a gente sabe onde anda o lixo (no "bad bank"), passa a haver ofertas pelo "good bank". Afinal quantos de nós não quereriam ser donos da Goldman Sachs ou da Morgan Stantley? Consigo pensar em 4 ou 5 bancos europeus e asiáticos que se matavam para ter a oportunidade. Assim o Estado sai de cena, vendendo as suas acções preferenciais (a probabilidade de as vender com lucro é muito muito alta).

Sobra o "bad bank". O problema daquele lixo nunca foi falta de compradores. Muitos especuladores estavam interessados. O problema era que não estavam dispostos a pagar "prémios" de 50 ou 70% aos bancos, e estes não podiam vender a preços "verdadeiros", porque senão faliam. Havendo o "bad bank", está lá tudo à mostra para nos próximos anos haver propostas de especuladores (e haverá quem estará disposto ao risco, é por isso que os especuladores recomendam-se para o bom funcionamento do mercado).

Este plano acima descrito não tem nada de "inovador". É o "modelo nórdico", considerado o exemplo de como lidar com uma crise bancária sistémica, originada por uma bolha de crédito e imobiliário [para o quem de história, ver a Suécia e a Finlândia de 1992 a 1996, o tempo que eles demoraram a recuperar para os níveis de preços que tinham ou a Coreia do Sul em 1998/2001 para um exemplo mais "market oriented" mas com a correspondente "violência" no ajustamento]. O modelo que os americanos se preparam para usar é conhecido como a "doutrina Japonesa" e foi usado em apenas 7 de 42 crises bancárias (México, Rep. Checa, Jamaica, Japão, Bolivia, Paraguai e Malasia), com resultados maus para a economia e para o contribuinte. Demoraram todos cerca de 10 a 15 anos a recuperar dos estragos.

Inclusivamente, já temos Premios Nobel (Phelps) a escrever isto mesmo no WSJ!...

Fica a imagem, o Balanço da Fed. Notem como ele sobe na vertical (new liquidity tools) quase no limite deste balanço (900 mil milhões) e isto sem contar com as novas facilities feitas na semana passada (swaps e extensões de crédito). A Fed não tem mais espaço, a não ser fazer o famigerado "easing quantitativo", ou seja, largar a Fed Funds para zero (a T-bill já lá tem estado a rondar durante as últimas 2 semanas, por isso é uma mera questão de constatar um facto, mas adiante)
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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tiagodandre

#3
lol...Gostaste da dica das perguntas.... ;)

Estava à espera que compilasses as tuas respostas aqui...pois eu sei que já falas nisto há muito tempo...

1) Claro, é o problema de crescer apenas pelo consumo (2/3), nomeadamente quando esse consumo estagna pelo efeito da quebra do "porquinho mealheiro", já não dá para refinanciar a casa, e ir às compras, pois se forem ao banco correm o risco mas é de saber que provavelmente a casa já vale bem menos do que aquilo que devem da hipoteca.

A mentalidade, e os níveis de endividamente que eles assumem são mais que problemáticos para enfrentar esta crise de crédito, e obviamente que ninguem quer que os juros da dívida de médio e longo prazo subam, agravando e prolongando a crise por muitos anos.

Agora o que eu penso é que o plano Paulson não será concerteza o mais adequado, mas dificilmente não será aprovado...pois tudo caminha nesse sentido. Existem demasiados se's no plano, e valorizações muito complexas para se calcular.


2) Acções preferenciais sabe o Buffett ir buscá-las...no entanto apoia o plano. ::) ::)

Relativamente ao resto que mencionas, já tinha lido os teus posts e já conhecia, tal como tu dizes, isto não é new stuff...o "bad bank" (também se especulou que a Lehman iria fazer isso) e o modelo nórdico (nacionalizações)...

A Fed teve de pedir ajuda ao Tesouro, o que demonstra o nível crítico a que chegamos... :o

Tens razão no que dizes, e as alternativas que descreves fazem mais sentido e produziram melhores resultados, e nesse sentido eu partilho da tua opinião, apenas discordo daqueles que dizem que não é preciso intervenção do Estado, e que não deverá ser posto em prática nenhum plano...na minha opinião o Estado tem de intervir para por o mercado monetário interbancário a funcionar, porque caso contrário dificilmente as coisas irão melhorar tão cedo.

Cump.
"Aprenda com os erros alheios. Não viverá o bastante para cometer todos os erros." (Martin Vanbee)

"Investir em conhecimento rende sempre os melhores juros." (Benjamin Franklin)

tiagodandre

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Jesse

#5
Ola

A aprovação do plano paulsen trás vantagens para as empresas?
estou com esta duvida

e gostava de saber a que horas sai o resultado da aprovação ou não da decisão ?  :)
(*) Utilizador banido do Clubeinvest

Paff

Citação1) Não! Tal como expliquei acima, e em outros posts, este plano não só não cura nada, como oferece incentivos para um KEY PLAYER (fundos monetários) no mercado monetário a não voltar lá, como ainda vai aumentar as taxas de juro de médio e longo prazo.
Pela 100000x, não se esqueçam que é aqui que a maior parte das famílias têm as hipotecas (ao contrário de Portugal) e também não se esqueçam que, se estas taxas subirem, empresas que dantes tinha um mero problema de liquidez (a afectar a sua dívida de curto prazo) passam a ter um problema de solvência e desalavancagem, porque a parte mais "longa" do seu passivo começa a subir, comprimindo ainda mais o balanço!

Viva,

Dois pontos: primeiro, se assim é, porque não um bailout social? Uma ajuda mais directa a quem endividado está - familias e empresas.

Segundo, Berrio, deixa lá as taxas subirem um pouco, que eu tenho investimento nos EUA e preciso de um dólar um pouquito mais forte. Se o BCE descer também a taxa junta-se a fome com a vontade de comer e...

Agora mais a sério, a questão é a falta de regulação e a lição disto tudo é uma clara Socialização dos Mercados.

Paff

berrio

#7
Bem se é para gastar 700 mil milhões à toa, ao menos que seja assim... mas em vez de andares a atirar "dólares à parede" (e a aumentares a tua divida pública quando já estás hiper-esticado) que tal deixares os americanos serem forçados a cortar no seu consumo?! Embora mais "duro" é bem mais saudável. Repara que, devolver a casa ao banco, mesmo com equity negativa (ou seja ficas a dever ao banco uma pequena diferença) é uma poupança bem grande. Não têm casa própria, arrendam enquanto reconstroiem as poupanças!
Ninguém morre por ter de arrendar uma casa e consumir um pouco menos.

O mercado de trabalho deles é dinâmico o suficiente para "amparar o golpe". Desde que ninguém vá parar para a fila da sopa (aqui o Estado tem uma palavra a dizer), o ajuste vai ser bom. Afinal, eles vivem muito acima das posses deles e entretem-se a "hipotecar" os filhos (não que nós por cá tb não façamos isso... :-\).

mas quanto à lição disto tudo, eu tiro outra lição que tu:
Não brincar com as taxas de juro para "oferecer" 20 anos de crescimento ininterrupto. Isso é fazer queimadas com Napalm. Depois temos isto: depois de 15 a 20 anos de taxas "historicamente" baixas tens uma bolha de consumo e de crédito. E uma economia que chegou ao limite do crédito possível. Socialização dos mercados? Não... o problema é que nos mercados a "lei das consequências não pretendidas" tem o seu efeito máximo. É como a electricidade, segue o caminho de menor resistência.

O problema aqui - esta crise toda - é um problema de informação assimétrica... text book! Banco A não revela o que tem, e se está ou não solvente (porque se alavancou numa bolha criada por política monetária demasiado permissiva) e os "contrapartes", avessas ao risco, deixam de negociar. Uma vez partido, só resta ao estado intervir, mas é preciso notar isto: foi o Estado que contribui mais activamente para a bolha (taxas de juro a 1% é loucura! não há teoria suficiente para justificar essa!!), e tem contribuido activamente para o problema - ao suspender as regras de mark to market, short selling e atirando rios de dinheiro à parede, em vez de admitir que errou e intervir para colocar o mercado no sítio. A economia não aguenta uma desalavancagem violenta (ai concordo contigo Tiago), mas o mal aqui não esteve no mercado, esteve em que não o deixaram funcionar.

As casas cairam, porque o rendimento norte-americano simplesmente não as suporta, chegaram ao "limite" de dívida - ao ponto de pagar juros com mais dívida - e criou "capacidade" a mais. Ao não deixares o mercado funcionar e correr o seu curso contribuiste para um problema de informação num mercado que já não tinha grande informação - estava muita coisa off-balance sheet, e aqui falhou-se a regular: regulou-se o que não se devia (as transacções do mercado) e não se regulou o que se devia (garantir que a informação é simétrica, neste caso, que todos sabem o que está no balanço dum banco sem ter de aprender a fazer mark to "model"!)

Em suma, a lição mais importante daqui para mim é esta: regular a informação é benéfica, e aqui o Estado tem de estar atento. Mas ao regulares as transacções e criares política monetária demasiado "permissiva", está na essência a "externalizar o risco". Este deixa de ser uma componente nas decisões. Para que é que eu tenho que ter cuidado, se o Estado me vai salvar quando correr mal? Agora tens de intervir, mas intervir com cuidado: deixar o mercado o mais livre possível, repor o fluxo de informação e, mais importante que tudo, reinternalizar o risco ,o que implica, por exemplo, fazer accionistas e detentores de junior debt, a engolir perdas e alguma dor neste processo! Estes - não o contribuinte! - terão de ser a "almofada" do processo de desalavancagem.
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
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Paff

Socialização sim, aliás o meu conceito de socialização implica precisamente uma actuação mais cuidada e atenta do Estado, não um regime financeiro totalitário. Calma, que a minha expressão não tem intuitos ou agendas políticas. ;)

Paff


berrio

LOOOOOOL

Ok Ok... admito que tenho uma veia política activa (militante inclusivé) e portanto, socialização é um termo que me leva para outras bandas lol

Mas sim, cuidada e atenta. Estamos então na mesma página.

E para os outros forenses: um exemplo do que o Estado não deve fazer e do que Estado deve fazer - Basileia II

Basileia II é a regulação do sector bancário. Por exemplo, a obrigação do Mark to Market vem daqui. Mas, à um ponto que parece quase feito com os pés: a contra-ciclicidade do capital próprio. Ou seja, aos bancos é exigido mais capital em recessões - quando eles mais dificuldade têm em arranja-lo, tornando o balanço demasiado sensivel ao ciclo - e menos em expansões - quando eles são mais dados a alavancar, outra vez, tornando o balanço mais sensivel ao ciclo. É ao contrário: se é para regular isto então tem de ser ao contrário! (e pessoalmente, preferia deixar esta parte desregulada e incidir sobre os fundos de garantia - em expansão os bancos deveriam fazer  contribuições mais elevadas para FDIC, por exemplo, do que em recessões, tornando a FDIC num fundo "estabilizador")

Mas um exemplo onde o Estado andou a dormir:
Por Basileia II, eu pondero os meus passivos por risco. Por exemplo, um CDO BBB tem 350% de ponderação de capital, mas se for AAA, só precisa de 10%. Agora, à uma excepção: se eu fizer um hedge com um derivado, eu fico isento da ponderação. E o hedge vai parar ao fundo do anexo xpto, num fundo relatório e contas em letrinha 5!! Como é possível!? O balanço é o espelho dum banco. É para ser transparente! Ainda se fossem hedges em derivados liquidos - futuros por exemplo, como é feito com um crédito habitação a taxa fixa ("shortam" a obrigação do tesouro da maturidade correspondente), ainda passava - mal, mas passava. Agora, em derivados opacos, trasaccionados em OTC (ou seja, mercado não público e muito pouco liquido?!). E aqui o Estado ainda ajudou mais à festa, dando a ilusão de liquidez permanente. Os bancos não modelam liquidez porque sabem que a Fed trata desse assunto (em dúvida, baixasse as taxas de juro?!)...

Andou tudo a dormir na Fed quando o ratio de preço de casas face ao rendimento de 1 para 1,7 em poucos anos!? Ratios são reversivos à média (PER por exemplo) e neste caso, é 1. Senão, a economia deixa de suportar o preço das casas... Ou a SEC não achou estranho quando uma industria madura e enorme (wall street) passou os 10% do PIB em peso de receitas, e começou a disparar para percentagens maiores? Que empresas pequenas (a Google no inicio por exemplo) cresçam a 30% ao trimestre, ainda se come. Agora, industrias maduras não crescem acima da economia, nem disparam para proporções sempre crescentes! Se havia sinal de que estavam alavancadissimos era esse! (alias, até foi a SEC que deixou o "Quinteto Maravilha" alavancar-se a 1 para 50!).

Aqui eu, liberal convicto (como acho que já deu para reparar noutros posts  ;)) digo: onde andaram os reguladores?!
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
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xubi2

 ;DPlayboy busca a mulher mais sexy de Wall Street

Aproveitando a crise econômica que abala os Estados Unidos nos últimos dias, a edição norte-americana da revista Playboy lançou a caça à mulher mais sexy de Wall Street.

Não é a primeira vez que a revista quer fotografar as mulheres mais bonitas de uma empresa ou de um setor em crise. O mesmo aconteceu em 2002, com ex-funcionárias da Enron e da WorldCom, duas gigantes falidas poucos meses antes.

Nem mesmo é a primeira vez que a Playboy se volta a Wall Street. Em agosto de 1989, a revista já tinha feito um ensaio com mulheres que trabalhavam neste símbolo da economia norte-americana.

Para participar da seleção, as concorrentes, além de serem bonitas e dispostas a fazer o ensaio, devem trabalhar (ou terem trabalhado recentemente) em uma instituição financeira.

O vice-presidente da revista e responsável pelas fotografias, Gary Cole, explica que, "considerando o atual clima econômico, a intenção é que Wall Street possa assim reencontrar o sorriso, ao menos por um momento".



tiagodandre

Pois berrio...

Muito bem, levaste a discussão para aquilo que interessa agora falar, a desalavancagem!!...ou seja, aquilo que ainda temos pela frente, e que condiciona e muito a valorização dos activos, pois tratam-se de vendas forçadas que se não forem controladas pelos reguladores, podem causar grandes obstáculos ao processo de recapitalização do sistema financeiro (Aqui entra o papel do Estado, para suavizar ao mesmo tempo que acelera este processo).

E porquê?...se este processo é sempre bastante penoso...então com a aversão ao risco actual, e os respectivos mercados monetários congelados...é muito mais penoso, para não dizer drástico! Basta imaginar o que é desalavancar um balanço com um ratio de 30:1, já para não falar nos recordes de outros protagonistas... ::)

Ou seja, a alienações de posições que fortaleceram a espiral de descida dos preços, só torna tudo mais complicado, pois à medida que os preços descem e são feitas chamadas na margem (mais vendas maciças), estas voltam a fazer mais pressão nos preços no sentido descendente, provocando novas chamadas na margem....and so on...

E porque é que ninguém segura isto?..porque quase toda a gente entrou no mesmo barco, e todos andam à procura de capital e poucos têm capacidade para entrar no mercado como compradores. Logo as perdas vão aumentando e as taxas de insolvência crescendo.

Resumindo: Sem intervenção do Estado todo este processo seria mais nefasto, dado a selva financeira a que se chegou ("Belos" anos 80... ::))!! Agora se me perguntares, se eu gosto desta alternativa, a resposta é não!...é como dar o doce ao bandido...e lá entra o tão falado moral hazard...trata-se de um mal necessário.


Cump.


PS: "taxas de juro a 1% é loucura!"...ah poixx...ele não parece querer admitir isso...e viva o homem bolha! ::)
"Aprenda com os erros alheios. Não viverá o bastante para cometer todos os erros." (Martin Vanbee)

"Investir em conhecimento rende sempre os melhores juros." (Benjamin Franklin)

berrio

[Disclaimer: este post é um aviso para a poeira que está no ar, não é para ser entendido como o fim do mundo!]

A todos os forenses que andam entretidos a tentar transaccionar hoje, uma nota de atenção:
Em baixo está um screenshot dos bid/ask dos  Tresury Bonds a 30 anos. Os valores (quantidades) andam à volta dos 25 a 75 contratos. Estamos a falar de um dos mercados mais liquidos à face deste planeta. Em condições normais, estariam ali (em cada preço) +- 1000 contratos.

Ou seja, a liquidez está a secar neste mercado, o que é um forte indicador de aversão a risco - em medo, os investidores movem-se para as maturidades mais curtas, de 1 a 6 meses. Lembrem-se de que, mesmo que façam só equities, o mercado de obrigações é o melhor sitio para medir o pulso aos restantes.

Entretanto:
TED Spread - 386 pontos base (diferença entre papel comercial e fed funds - a bater records)
OIS-Libor Spread - 287 pontos base (diferença entre T-bill e Libor - a bater records, ou seja a Libor bate records, enquanto a T-bill está a afundar - consistente com um movimento de fuga da long bond)
T-Bill - 0.12% (em condições normais, devias estar - no mínimo - a 1%, em especial com um bailout tao bom à porta [se calhar já se percebeu que não é assim tão bom, mas adiante])

Portanto, cuidado com algumas facas a cair hoje...
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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DUARTINI

Espero que se andem a alimentar. Invistam dólares que vocês vão ver os americans outra vez a dar cartas as europas profundas. Ficou tudo constipado. Eu, a recuperar desde a um tempinho.
http://strapon.pt    http://sersexy.net

tiagodandre

#14
October 03, 2008

Who's Bailing out Whom?
by Ed Bugos


This esay first appeared at Agora Financial's Gold & Options Trader.

Dear Gold & Options reader,

This just in. I hope you are sitting down.

The news that should be driving gold prices to the moon is out! The Federal Reserve released its latest weekly monetary data after the market closed Thursday.



The Federal Reserve has just expanded its balance sheet more in one month than it has in almost all of its first 86 years of existence. I am not kidding. Its assets, which represent the cumulative reserves the Fed has "created," totaled less than $700 billion at the turn of the millennium and continued to expand by about $50 billion per year after that, up until this month. In September alone, reserve bank credit inflated by almost $600 billion. It is a record, and has already affected the monetary base.



The relevant factors of increase in the month include:

$30 billion through the primary credit facility

$12 billion in securities purchases (T-bills)

$147 billion in credit extended to primary dealers, including MER, MS and GS

$152 billion through its new asset-backed commercial paper "Money Market Mutual Fund Liquidity Facility"

$220 billion in purchases of "other assets," probably related to the currency swaps

$60 billion to "other credit extensions," which include the AIG stuff

$140 billion in "securities lent to dealers" (which is an off-balance sheet item).

That adds up to roughly $621 billion (excluding the off-balance sheet item). Up until September, the Fed had been careful to sterilize its liquidity provisions by selling Treasuries, reverse repos or simply by lending its securities off balance sheet. So while it has extended credit since August 2007, it has not monetized much of the liquidity.

Besides, usually, other factors offset the Fed's injection of "liquidity," such as cash withdrawals from the banking system (represented by an increase in "currency in circulation") and other activities that may increase money flows back into the Fed... like the money raised by the Treasury for the Fed under its recently created "Supplementary Financing Program."

Since announcing this new program two weeks ago, the Fed has received about $350 billion from the Treasury. Additional factors of decrease include about $80 billion in deposits that came into the Fed during September via reverse repos and "other" deposits, a $26 billion decline in outstanding repos and about $4 billion in currency (cash) leaving the banking system. The NET factor of increase to reserve bank credit for the month of September was about $170 billion. That is money created out of thin air... unsterilized.



This number is unprecedented -- seriously -- in these here United States.

You can see this statistic in second chart at the top. Note the statistic "monthly changes in reserve balances with FR banks." This statistic measures the effects of Fed actions on reserves provided to the banking system. It is the net difference between factors supplying Fed funds and factors absorbing them. You can look at it like a measure of net money flows in and out of the Fed. It tells you whether the Fed is injecting unsterilized net liquidity, and how much.

Balance Sheet Shock

Note in the chart here how the composition of Federal Reserve assets has changed in just the last 12 months.

Historically, 75-80% of those assets consisted in Treasury securities.

That is because, traditionally, the Federal Reserve inflates by buying these securities in the open market, thereby increasing reserves in the banking system so that banks can create deposit money on top of that (and then Wall Street pyramids up too).

Now, you can see, the Fed has many windows open to it by which to inflate today. Indeed, in only eight months, the Fed's holdings of Treasuries have dropped to an unprecedented 31% of the Fed's assets. It gets worse.

As you can see in the graph below, the Federal Reserve has sold about $300 billion in Treasuries in order to fund its lending programs, leaving it with just under $500 billion worth.

However, since March, it has also swapped out about $270 billion of these securities through its off-balance sheet Term Securities Lending Facility (TSLF), leaving it only about $230 billion in wiggle room before it is forced to either collect (deflationary) or monetize the loans outstanding (inflationary).



That is, Treasury assets comprise just 16% of the Fed's balance sheet today, net of the TSLF.

That's astonishing. Indeed, it is probably why the Treasury is raising money, why it stopped selling its security holdings to sterilize its liquidity back in June and why the printing presses are on.

This news is very bullish for gold. It is one of the data points we were looking for to confirm our outlook. It is bullish for other commodities too. It may be bearish for the dollar, but only if other central banks hold back.

Not likely.

There's already talk of coordinated monetary policy actions and so on.

In the short term, the gold market is likely to key off the "bailout" and its impact on the stock market, which will hint to investors whether all is getting better. It likely will not, but it certainly is possible for Wall Street to bid up stock prices in response to this liquidity push too.

Consequently, it is difficult to predict gold's short-term response to this shock, but the market cannot ignore the fundamental effect of this crackup for long. This "liquidity" injection will ripple through the economy and dollar in the next few months and years in ways that not a single person can know.

The monthly money supply numbers probably do not come out for another week or so, but the early indications surely confirm what gold bugs could only surmise when they drove gold prices up to $910.

With interventions like this, we should get a few more $100-up days soon enough.

Good trading,

Sincerely,
Edmond J. Bugos
GoldenBar.com

Edmond J. Bugos is the founder and editor of the Goldenbar Report
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