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Classificação de grau de investimento é farsa

Iniciado por zimermann, Dezembro 03, 2009, 11:51

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zimermann

Classificação de grau de investimento é farsa; leia trecho de "Terremoto Financeiro"
da Folha Online

Quando, em 2008, o Brasil recebeu o "grau de investimento" de agências internacionais de avaliação de risco, como a Moody's, a Standard & Poor e a Fitch, o presidente Lula e o Banco Central do Brasil comemoraram entusiasticamente. Ao mesmo tempo, grandes jornais, como o The Wall Street Journal e o Financial Times, questionavam não apenas a validade destas classificações, mas também o perigoso jogo de interesses por trás disso tudo.

Uma reportagem do The New York Times que investigava a avaliação de títulos de crédito por parte destas empresas teria causado --ou pelo menos contribuído seriamente-- para a demissão de seu presidente. Em editorial, o The Wall Street Journal perguntava "até onde as grandes empresas de classificação de crédito precisam desempenhar mal seu papel para que os investidores parem de fazer uso de seus serviços?".

Tudo isso está no livro "Terremoto Financeiro: A Primeira Crise Global do Século XXI", em que o jornalista norte-americano radicado no Brasil Norman Gall tenta explicar a crise financeira que, a partir de meados de 2008, fez diversos bancos quebrarem e empresas falirem ao redor do mundo.

Leia a seguir um trecho da obra em que o autor fala sobre regulamentação de mercados e as classificações de "grau de investimento":

*

Capítulo 3: Novas eras

O controle ou a eliminação dos ciclos econômicos é uma ideia antiga que ressurge de tempos em tempos. Nos anos 1920, uma "Nova Era" foi aventada pelo grupo de economistas americanos que fundou o Birô Nacional de Pesquisas Econômicas (NBER), contestando a ideia de que o ciclo econômico era regido por "leis" universais e imutáveis, argumentando que a performance econômica podia ser controlada e aperfeiçoada por meio de manipulações baseadas em informações corretas1. Na década de 1960, Walter Heller, principal assessor econômico dos presidentes Kennedy e Johnson, saudou a chamada "Era do Economista". A "Nova Economia" defendida por ele empregava informações estatísticas aperfeiçoadas e "a gama completa de ferramentas econômicas modernas que apoia a expansão econômica ininterrupta desde 1961", atingindo um clímax triunfal com "as maravilhas do corte de impostos promovido em 1964".

Divulgação

Livro tenta explicar a última crise financeira que abalou o mundo


Após a estagflação da década de 1970, decorrente da Guerra do Vietnã, a multiplicação por 10 dos preços do óleo cru e o aumento dos déficits governamentais, teorias sobre "expectativas racionais" e "mercados eficientes" ganharam popularidade nos anos 1980, sendo usadas para explicar o processamento das informações na atividade econômica. A ênfase era sobre a previsão, fortemente matemática, sem levar devidamente em conta os perigos da insensatez coletiva. Um ex-vice-presidente do Federal Reserve e dois fundadores da teoria das expectativas racionais, ambos laureados com o Prêmio Nobel, foram sócios no fundo hedge Long-Term Capital Management (LTCM), cuja falência em 1998 ameaçou desencadear uma crise financeira de grandes proporções, até que o Fed de Nova York pressionou 15 bancos, que haviam emprestado US$100 bilhões ao LTCM, a socorrer seus credores com outros US$3,6 bilhões, para interromper o pânico. Em um padrão que seria repetido na crise de 2007-08 das hipotecas de alto risco e dos derivativos, o LCTM usou US$2,2 bilhões de recursos de investidores como garantia para comprar US$125 bilhões em títulos de crédito e usar esses papéis, em um esquema de pirâmide, como garantia em transações exóticas no valor de US$1,25 trilhão. Em 2008, George Soros escreveu: "Precisamos de um novo paradigma. O paradigma prevalecente hoje, ou seja, de que os mercados financeiros tendem ao equilíbrio é falso e induz ao engano. Deixados por conta própria, os mercados tendem a chegar a extremos de euforia e desespero."2

Nos anos 1990, era moda falar novamente de uma "Nova Economia". Alguns economistas diziam que mudanças na estrutura econômica dos Estados Unidos, baseadas na globalização e na informática, haviam levado à aceleração dos ganhos de produtividade, ao crescimento regular permanente, ao baixo índice de desemprego e à imunidade contra as flutuações dos ciclos econômicos. Alguns identificaram avanços na tecnologia de informações e comunicações, incluindo a Internet, como tão importantes quanto as inovações do final do século XIX e início do século XX: eletricidade, aviação, automóvel, cinema, rádio e encanamento doméstico. Alan Greenspan aderiu a esse otimismo. Ele lembrou o que dissera em dezembro de 1995 numa reunião do Fed:

Ao estudar o que vinha acontecendo na economia, eu me convencera de que estávamos à beira de uma mudança histórica, da qual a alta vertiginosa dos preços das ações seria apenas um indício. Minha ideia era que, à medida que o mundo absorvesse a tecnologia de informação e a pusesse em uso, teríamos ingressado em algo que mostraria ser um período prolongado de inflação mais baixa, juros menores, produtividade aumentada e emprego pleno. "Venho analisando ciclos econômicos desde o final dos anos 1940", eu disse. "Nunca antes houve nada como isto." Para dar uma ideia da escala global das mudanças, fiz alusão a um fenômeno novo: a inflação parecia estar caindo em todo o mundo. O que eu quis destacar foi que a política monetária poderia estar operando agora na vanguarda de um conhecimento ao qual, pelo menos por algum tempo, as regras avalizadas pelo tempo talvez não se aplicassem.

Em um sentido, a "Nova Era" já chegou. Nos anos 1920, antes da Grande Depressão, não havia qualquer instituição internacional que monitorasse a economia mundial. Hoje, temos muitas: o BIS, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Organização Mundial do Comércio (OMC), a UNCTAD (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento), além das comissões econômicas regionais das Nações Unidas para Ásia, América Latina, Europa e África e dos bancos de desenvolvimento regional na América Latina e Ásia. Esse campo superlotado de instituições é ampliado ainda mais pelas análises econômicas efetuadas por governos nacionais, grandes empresas, bancos comerciais, agências de classificação de risco, universidades, institutos de pesquisa e multidões de consultores privados. Todos eles empregam uma grande base de estatísticas, continuamente atualizadas, de dimensões e qualidade nunca antes visto, intercambiadas com grande velocidade na Internet, pela telefonia internacional barata e pelos transportes aéreos que facilitam as reuniões. Infelizmente, esse enorme fluxo de informações processadas por batalhões de analistas qualificados não elevou nossa capacidade institucional de medir os riscos e antecipar os abalos do mercado.

"Grau de investimento"
As poderosas e caras agências classificatórias de risco de Wall Street, cujo trabalho consiste em medir os riscos de crédito em todo o mundo, tampouco ajudaram muito. As três maiores - Moody's, Standard & Poor (S&P) e Fitch - formam um oligopólio, viciado em incentivos perversos, que exerce influência decisiva sobre quem pode emprestar a quem, e a que juros. No momento, elas enfrentam problemas devido aos critérios frouxos e aos conflitos de interesses envolvidos na concessão de classificação AAA a derivativos que empacotaram hipotecas de alto risco e outros ativos exóticos que causaram perdas pesadas aos bancos e a outros investidores.

O perfil moral das agências está comprometido pelo fato de cobrarem grandes taxas de emissores que buscam classificações de "grau de investimento" para vender seus títulos e derivativos. O The New York Times investigou o processo pelo qual a Moody's, a mais antiga e prestigiosa das agências, classificava esses títulos de crédito e constatou que, num conjunto de 2.393 hipotecas, avaliado em US$430 milhões, a Moody's não tinha acesso aos arquivos individuais dos empréstimos, nem se comunicara com os tomadores deles - 43% dos quais não haviam apresentado comprovação de rendimentos - para averiguar a veracidade das informações constantes em seus pedidos de hipoteca, 27% das quais acabaram inadimplentes.

Entre 2002 e 2006, os lucros da Moody's quase triplicaram, graças às altas taxas cobradas para esse tipo de classificação. "Os títulos de crédito apoiados por hipotecas não foram o produto final da grande máquina hipotecária", observou o jornal. "Na realidade, foram usados para construir veículos ainda mais esotéricos conhecidos como obrigações garantidas por dívidas, ou CDOs. As CDOs eram financiadas por pirâmides similares de títulos, de AAA para baixo, e o papel das agências classificatórias era igualmente fundamental." Uma semana depois, o presidente da Moody's se demitiu. Em editorial, o The Wall Street Journal perguntou: "Até onde as grandes empresas de classificação de crédito precisam desempenhar mal seu papel para que os investidores parem de fazer uso de seus serviços?"


A farsa das classificações de "grau de investimento" torna ainda mais dramático o fato de que o Brasil e outros países precisam superar seus problemas institucionais sozinhos, independentemente da fanfarra efêmera dos investidores estrangeiros.

A farsa se torna evidente se compararmos os superávits recentes de conta corrente do Brasil como parcela do PIB - normalmente um fator crítico na avaliação de crédito internacional - com os déficits em 2007 de outros países de mercados emergentes e membros da OCDE que receberam a classificação "grau de investimento" de todas as três agências classificatórias: Bulgária (-21% do PIB), Chipre (-7%), Estônia (-16%), Grécia (-14%), Hungria (-6%), Cazaquistão (-7%), Letônia (-23%), Lituânia (-13%), Malta (-6%), Romênia (-14%), África do Sul (-7%), Portugal (-9%), Islândia (-16%), Austrália (-6%), Nova Zelândia (-8%) e Espanha (-12%).

O FMI observa que os bancos europeus ocidentais têm exposição a risco de US$1 trilhão com países do Leste Europeu e do Báltico, contra US$250 bilhões com títulos de crédito de alto risco nos Estados Unidos.

É na "Europa emergente" que pode acontecer a próxima crise de dívida "latino-americana". No entanto, o boom de consumo no Brasil tem trazido de volta os déficits em conta corrente das décadas recentes.

1 William J. Barber, "From New Era to New Deal: Herbert Hoover, the Economists, and American Economic Policy", 1921-1933. Cambridge, 1985, p. 4.

2 George Soros, "The New Paradigm for Financial Markets: The Credit Crisis of 2008 and What It Means". New York: Public Affairs/vii, 92.

http://tools.folha.com.br/print?site=emcimadahora&url=http%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Ffolha%2Fdinheiro%2Fult91u660963.shtml