Autor: Zoom
Data: 06-05-2003 09:09
Caçador de sonhos
“Há 5 mitos nas previsões de retoma económica para 2003 :
Primeiro e mais importante, o mito de outra recuperação económica liderada pelos EUA, numa economia global desiquilibrada.
Reflexo de uma economia que contribui, no periodo 1995-2001, em cerca de 64% para o crescimento acumulado do PIB mundial, o déficit comercial atingiu um record de 548 biliões USD no final de 2002, ou 5,2% do PIB norte-americano. Se, como tudo indica, o mundo continuar no caminho de uma dinâmica de crescimento centrada nos EUA, o déficit comercial vai concerteza aumentar, podendo atingir facilmente os 7 % do PIB. Se, como também parece, o déficit orçamental continuar também a aumentar, como tem acontecido até aqui, ficaremos perante desiquilibrios externos que a economia global nunca tivera de enfrentar.
A única forma de escapar a esta armadilha é, na minha opinião, um reequilibrio global, menos crescimento nos EUA e mais crescimento nas outras zonas do mundo. Infelizmente, não há sinais que façam antever esse cenário de reequilibrio.
O 2º mito é a noção de recuperação económica impulsionada pelas despesas em capital de investimento ( Capex), nos EUA.
Há 3 falhas importantes neste argumento :
1) A maior parte dos negócios nos EUA continua sem pricing leverage. Ou seja, reflexo de um mundo mergulhado em excesso de capacidade instalada, os riscos continuam ainda mais do lado da deflação do que da inflação. A taxa de capa- cidade utilizada pela indústria americana caiu para 72,9 % em Março de 2003-mais de 7 % abaixo da média que se registou no periodo 1972-2002 (80, 2 %). Uma recuperação liderada pelas despesas em capital de investimento só iria exacerbar este excesso de oferta.
2) A história diz-nos que nunca foi o capital de investimento a liderar uma retoma no ciclo económico americano.
3) Visto as tecnologias de informação (TI) contarem agora em cerca de 55% no total de despesas em capital de investimento, muitos pensam ser por este sector que se vai dar a recuperação. Não penso da mesma forma. Acho que as TI ficaram muito ligadas aos excessos cometidos na bolha dos anos 90, e os potenciais investidores ficaram de “pé-atrás “neste sector.
O 3º mito é o de que os EUA resolveram o problema da poupança, e com ele um dos impedimentos a um crescimento saudável. Nada podia ser mais falso.
É um facto que a taxa de poupança individual aumentou, para 4 %, bem distante dos 0,3% de Outubro de 2001, mas ainda apenas cerca de metade dos 9 % do periodo pré-bolha de 1970-94. A este modesto crecimento na taxa de poupança individual há que contrapor uma massiva inversão na taxa de poupança governamental, de um superávit de 2,3 % do PIB no inicio de 2000, para um déficit de 2,3 % nos finais de 2002.
Assim, a taxa nacional de poupança (que congrega as poupanças de familias, empresas e Estado), caiu para um record mínimo de 1,3 % na 2ª metade de 2002 ( esta taxa andava, nos anos 90, na ordem dos 5% e foi consideravelmente superior em periodos anteriores) .
Sendo que a poupança é condição necessária para o investimento, e à falta de poupança nacional, os EUA não têm outra opção que nao seja importar superávits de poupança do estangeiro, e manter um déficit comercial massivo por forma a atrair tal capital.
Mas não é tudo. À medida que o déficit orçamental aumenta, a taxa de poupança nacional só pode cair mais. Outro mito do cenário de recuperação global é achar que estes factores não são relevantes.
O 4º mito é fingir que o cenário deflacionista está posto de parte. Obviamente que a Guerra no Iraque provocou aumentos nos preços da energia , e isso traz inflação. Contudo, a taxa de inflação ex- comida e energia está a diminuir bruscamente. Esta taxa ficou inalterada em Março de 2003 e no 1º trimestre deste ano a taxa anualizada foi de apenas 0,8 %. A comparação anual Março 2002-Março 2003 dá uma taxa de 1,7 %, quase um mínimo de 40 anos.
Há 3 ingredientes para o processo de deflação- um ambiente cíclico fraco que continua a restringir a procura agregada, a herança pós-bolha de excesso de capacidade, e a pressão da globalização , que conduz a uma intensificação competitiva no comércio de mercadorias e serviços. Os riscos de uma deflação global, que já existe na Ásia, persistem , para os EUA e Europa, no meu ponto de vista.
Um 5º mito é a noção de que uma recuperação pós-guerra está prestes a acontecer, trazendo de volta a prosperidade económica mundial. Os mais recentes dados para a zona Euro apontam para ,quando muito, crescimentos fraccionais. No Japão também não há novidades, nem crescimento. Na Asia ex-Japão os riscos relacionados com a
SARS aumentam. A China continua com um crescimento fantástico ( 9,9% no 1º trimestre ). Contudo, num ambiente regional e global fraco, até o dinâmico crescimento da China pode ser posto em causa. O crescimento em exportações contou em 71% para o total de crescimento do PIB chinês nos 4 trimestres que terminaram no 1º trimestre de 2003. Isto não só mostra uma extraordinária dependência da procura externa como também,inevitavelmente uma grande falta de procura interna .
Resumidamente, há poucas razões para acreditar no mito de uma recuperação fora dos EUA que impulsione a economia global.
O problema básico com o cenário de recuperação pós-guerra é o de que o mundo estava a enfrentar muitos destes problemas muito antes da guerra no Iraque. A guerra, e maravilhosa victória alcançada, não alteraram nada disto. Após todos estes anos, um mundo centrado nos EUA traz agora todos estes desiquilibrios à economia global.
Além disso, graças à SARS,a aumentos nos déficits orçamentais americanos, e aos problemas estruturais no Japão e Europa, o risco maior é o de que os desiquilibrios se agravem-provavelmente muito mais.
Não há nada como os romances acerca de retomas do pós-guerra e recuperações cíclicas. Para os que escolheram, ao invés, permanecerem frios, calculistas , o mundo continua a parecer um sítio muito perigoso.
Chamem-me um caçador de sonhos. “
Tradução livre ( tão livre que deve estar carregadinha de erros :- ) do artigo “Dreamcatchers”, Stephen Roach, 21 Abril 2003
um abraço para todos,
Zoom
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