Li há dias que a “velocidade de circulação da moeda está a diminuir”. Foi numa publicação especializada altamente credível, e o articulista referiu essa expressão ao de leve, tomando-a como um dado adquirido de relevância muito negativa. A palavra moeda era referida como representando não só os chamados trocos, mas também as notas e os depósitos. Por outro lado, lá era também indicado que a pouca velocidade da moeda era um perigo para a economia americana, especialmente na situação em que se encontra. Ora, com os americanos a terem uma gorda fatia do Produto Mundial, é certo e sabido: se eles ficam engripados nós apanhamos uma pneumonia dupla. Será que isto se pode tornar grave?
Tentando pensar um pouco, eu tenho vindo a constatar que as notas e moedas saem da minha carteira de forma cada vez mais rápida e que a velocidade do esvaziamento da minha conta bancária é crescente e muito superior à desejável. Ora isto, parece-me, é exactamente o contrário do que o autor da notícia refere. Mas se é um perigo, como ele diz, então isso impõe uma investigação imediata da minha parte. É que a tal velocidade da moeda a diminuir e o meu dinheiro a desaparecer rapidamente pode constituir uma mistura infernal, de consequências imprevisíveis.
Pois tendo sido exactamente isso o que eu fiz, são os resultados concretos das minhas pesquisas que ponho à vossa disposição.
Como sabem, a velocidade de circulação da moeda consiste no número de vezes que a massa monetária circula na economia durante um ano. Se existe um ritmo lento de dispêndio de dólares ou euros, então aquela velocidade será baixa. Tecnicamente, corresponde à relação entre o Produto Interno Bruto de um país e a moeda em circulação (PIB/M).
O que temos vindo a observar nos EUA, é uma continuada utilização de uma política monetária expansionista, centrada especialmente no aumento do crédito bancário. O objectivo é o crescimento sustentado do produto e o aumento do emprego, o que manifestamente ainda não foi conseguido, pois o consumo mantém-se globalmente fraco e mesmo com a grande diminuição de juros os gastos de investimento das empresas desceram 5% nos últimos 12 meses. Mas como a massa monetária tem aumentado, as cotações das acções têm subido, ajudadas em muito pelas expectativas optimistas.
Ora bem, com o aumento da moeda em circulação M, e com o PIB americano a subir muito pouco, a velocidade da moeda está a descer. Quer dizer, quanto maior for a expansão de liquidez sem que o PIB aumente adequadamente, menor é a velocidade da moeda e maior é o perigo de catástrofe financeira. Ainda por cima, parece que há uma 2ª fase de medidas monetárias expansionistas, mesmo à espera de arrancar (aquisição pelo FED de obrigações do Estado a longo prazo de 10 e 30 anos).
No entanto, se as coisas forem bem esquematizadas, tamanhas injecções de liquidez vão continuar a fazer subir as bolsas, e mais tarde ou mais cedo, permitirão que, de forma sequencial, suba o consumo, baixem os juros de médio/longo prazo, seja induzido o crescimento do investimento das empresas, e se consolidem grandes aumentos do PIB. Por outro lado, haverá uma descida adequada do dólar (sim, porque o Japão e a China dão uma ajudinha e a União Europeia não está para aventuras) e a inflação não aumentará demasiado (deflação, essa passou à história!). É, pois, o caminho aberto para um sólido crescimento e nova era de prosperidade, onde será visível um grande aumento da velocidade de circulação da moeda (!). Hip hip hurrah!!! E eu que julgava que até podíamos cair numa depressão!...
Já sei o que estão a pensar. Julgam que isto parece uma política exactamente programada para fazer eleger Bush em Novembro do próximo ano.
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