“Patently Absurd” – Peter Martin
Sunday Times Magazine, 14 Julho 2002, pp. 22-29.
“Quase metade das mais importantes invenções mundiais são britânicas. Porque é que ninguém inventou um modo de apoiar os inventores Britânicos?” (chamada na página do índice, p.5)
“Meus senhores, vou mostrar-vos uma coisa que nunca viram – e provavelmente não vão acreditar”. Estas corajosas palavras são de David Nicholas, dirigindo-se a uma audiência de 50 cientistas governamentais numa reunião da Agência de Avaliação e de Pesquisa da Defesa (agora QuinetiQ), realizada em Farnborough, Hampshire. Nicholas, do Business Link Wessex, apresentava Mike Keenan e uma das suas invenções verdadeiramente incríveis.
Keenan, pintor e decorador de profissão, estava compreensivelmente nervoso: “Eu, na presença de todos estes tipos com cérebros do tamanho de autocarros”. Primeiro, como um ilusionista com o seu show de magia, retirou um certo número de materiais – papel, tecido, plástico, resina e madeira – de uma velha mala. De seguida, submeteu cada um deles à ruidosa chama branca de um maçarico. Só o papel ficou completamente chamuscado mas não ardeu. E para o grande final, cobriu a sua mão com uma gordura que ele próprio tinha fabricado e apontou o maçarico no alcance de meia polegada, sem qualquer efeito nocivo. Os especialistas do QuinetiQ aplaudiram fervorosamente e agruparam-se em redor de Keenan, colocando-lhe todo o tipo de questões.
“Mike sustenta poder fazer milhões e milhões e milhões”, disse Nicholas, que tem uma experiência sem equivalente em matéria de levar até ao mercado as invenções britânicas. No caso de Keenan, bem, considere-se: todo o tipo de materiais de construção à prova de fogo, incluindo tinta; tudo o que possa estar dentro de uma casa, de uma fábrica ou de um bloco de escritórios pode ficar à prova de fogo. Mas tentem pensar nisto: petróleo e combustível para a aviação à prova de fogo. Sim, o nosso homem pode tratar quimicamente ambos de forma a que, no caso de colisão ou de derrame perigoso, o combustível liberte um gás que humedece o fogo e que não é habitualmente activado na combustão normal.
Keenan é um verdadeiro milagre. Ele é originário de Essex, teve uma péssima educação e, à primeira vista, parece “ser tão rápido como uma batata”. No entanto, fazendo aquilo que de melhor fazem os inventores independentes – seguindo a sua paixão através de dificuldades crescentes – transformou-se num químico mundialmente reconhecido. Ele também é um clássico, num outro sentido. Sem quaisquer conhecimentos técnicos que lhe servissem de base, e assim “não sabendo fazer melhor”, pensou “E se?”.
Sir Christopher Cockerell era assim. Ele nunca teria sido capaz de inventar o hovercraft, segundo disse, se fosse um arquitecto naval experiente, uma vez que teria “sabido” que nunca iria resultar. Por outro lado, e piscando o olho, gostava de “provar” aos engenheiros que os peixes não sabem nadar.
No caso de Keenan, tudo começou com uma estranha descoberta em 1974. Num emprego numa central eléctrica, ele tinha estado a queimar velhas latas de tinta para reutilização, quando ao atiçar as brasas com um pau, reparou que o pau não ardia. O chão da central eléctrica estava coberto de cinzas da combustão e, de alguma maneira, tinha tornado o pau à prova de fogo. Intrigado, quando foi à biblioteca local – à procura de emprego nos anúncios dos jornais – pediu alguns livros de química. Em seguida, comprou produtos químicos no valor de 8 libras, “que deram cabo das 10 libras semanais de dinheiro para a gasolina”. A partir daí, ele não podia, ele não ia deixar cair o assunto. Dêem-lhe qualquer coisa – desde MDF até ao material com o qual se fazem as embalagens dos televisores – e ele arranja uma maneira de a tornar à prova de fogo. Agora “uma viúva de barracão no fundo do jardim”, Rita, a mulher, foi uma mártir de paciência. “Olha, Reet! Borracha à prova de fogo!” Foi uma sorte não se ter morto. Para mostrar polistireno à prova de fogo, encheu uma chávena de plástico com gasolina e apontou-lhe o maçarico.
Surpreendentemente, tudo isto foi apenas um hobby – durante 5, 10, 15 anos. Mas, em 1990, foi pedir um empréstimo ao seu gestor de conta para uma carrinha. “Só para lhe mostrar que não era do género de gastar dinheiro em álcool – que tinha outros interesses - mostrei-lhe um cheque à prova de fogo. Ele nunca tinha visto um daqueles. E quando saquei de um lança chamas e fiz uma demonstração os funcionários do banco pareceram tão impressionados, que eu pensei “Oh.”.
Agora, levando o seu flamejante show de magia para a estrada, ele deixou o país perplexo e deslumbrado, mas ninguém lhe ofereceu um contrato. Ciente das razões do acidente de King’s Cross, que teve origem no lubrificante das escadas rolantes, ele abordou o responsável pelos novos produtos do metro de Londres – oferecendo não apenas o seu lubrificante à prova de fogo, mas também revestimento à prova de fogo para os muitos quilómetros de cabos eléctricos do metro; uma longa lista de produtos inteligentes. Mas, como diz Keenan, foi rapidamente castigado. “As empresas, em geral, não gostam de coisas vindas de estranhos”. Ele estava há já 8 anos a demonstrar as suas invenções na rua até que Nicholas, da Business Link, ouviu falar dele. Mas, de um momento para o outro, Nicholas – que tinha bons contactos no departamento de defesa – conseguiu reunir os especialistas de QuinetiQ.
Dois anos depois, Keenan pondera a comercialização do seu primeiro invento, mas é um inventor químico tão prolífero, que este nada tem que ver com produtos à prova de fogo. Todas as indústrias automóveis têm ralos de escoamento no chão das suas oficinas de pintura, das quais é quase impossível retirar a tinta. Ou era, até Keenan ter inventado um revestimento com um solvente barato e rápido.
Um agente da divisão de tractores da Fiat foi o primeiro a agarrá-lo e agora a Honda, a Lotus e a Ford querem também a sua parte. Milhões e milhões e milhões, pois. Entretanto, Keenan continua, agradecido, a fazer trabalhos de pintura e de decoração.
Não, não é apenas a nossa presunção nacional favorita. Há alguns anos atrás, um estudo feito pelo equivalente japonês do nosso Departamento de Comércio e Indústria, concluiu que 54% das mais importantes invenções mundiais, nos últimos 100 anos, eram britânicas. Quanto às restantes, 25% eram americanas e 5% japonesas. “Os americanos não são tão bons em invenções porque pensam que tudo é simplesmente fantástico”, afirmou Mandy Haberman, inventora milionária do caneco “sempre me pé”, que não verte líquido, destinado a bebés. “E nem estão perto de serem suficientemente críticos nem criativos”. Quanto aos japoneses, parecem ser demasiado conformistas para serem capazes de pensamento criativo. Um rádio com mecanismo semelhante ao de um relógio. Pergunto-lhe. O seu inventor, Trevor Baylis, que vive numa casa caótica que ele próprio construíu na ilha de Eel Pie, no Tamisa, está a tentar produzir electricidade a partir dos sapatos, enquanto caminha, para carregar o telemóvel e sabe-se lá mais o quê.
Aquilo que é mais impressionante nos inventores é o seu sentido de humor. Mais uma vez, a sua especialidade – pensamento bi-associativo, conciliação de noções díspares – é exactamente o conteúdo do humor.
“Botas Wellington para cães!” Kane Kramer solta uma gargalhada, ao referir-se às mais estúpidas invenções de que tinha tido conhecimento. “Ou uma pequena escada para as aranhas saírem da banheira!”. Kramer, que é um inventor em série de primeira-classe, disse da sua gente: “Claro que nós somos um pouco dispersos e metemo-nos em tudo. Temos estas zonas laterais que estão permanentemente a tilintar no nosso cérebro, à espera de apanharem alguma coisa”.
“O que têm que perceber”, afirma Mike Watson, “é que, para os inventores, o mundo parece antiquado”. Eu tinha ido encontrar-me com Watson a propósito da invenção de um telefone gravador, o Watsonlinc. Muitas grandes empresas e centrais telefónicas já o estão a utilizar. Algo inédito na área da electromagnética, é uma pequena caixa de metal que se aperta à volta do fio telefónico – sem ligação à corrente – que capta o som mais claramente do que através de um auricular. Acontece que não havia telefone no local onde nos encontramos para a entrevista. Por isso, Watson tirou um do seu saco, mais umas pilhas, fios e tralhas diversas, e conseguiu pôr uma linha a funcionar ali mesmo. É assim que são os inventores em toda a parte: preferem sempre ser eles a construir.
Com a idade de 9 anos, o pequeno Kramer construiu um hovercraft utilizando dois motores de cortadores de relva simplesmente porque “eu tinha que ter um e não havia outra forma”. Aos 18 anos, para proteger o seu adorado Volkswagen Carocha, inventou o primeiro alarme para automóveis no mundo, com um dispositivo de alarme que vibra no bolso. “Digam-nos que algo não pode ser feito”, riu o inventor, enquanto dava pontapés à sua caótica secretária. “Não pode ser feito? Está bem. Arranje-me um canivete!” Ou, como Cockerell costumava dizer, “Exponham o problema, e eu dar-vos-ei 50 soluções.”
O outro lado da nossa pretensão nacional consiste em pensar que os malandros dos estrangeiros acabam sempre por roubar as nossas invenções. Repare na estimativa Japonesa segundo a qual um valor de 8 biliões de libras de propriedade intelectual britânica se perde, anualmente, para o estrangeiro. O que está mais perto da verdade, no entanto, é que nós temos sido tão inaptos a gerir as nossas invenções que mais vale entregá-las a outros. Quando a Hovermarine Ltd. foi por fim apanhada pelos americanos, o novo chefe, William A Zebedee, reduziu-nos à nossa insignificância: “Vocês possuem de facto alguma tecnologia de ponta, mas não conseguiriam fazer sair um produto para o mercado nem sequer de um saco de papel.” “Isto aconteceu há já 30 anos mas não se alterou com o passar do tempo”, disse David Nicholas, que havia trabalhado com Cockerell no desenvolvimento, e posterior venda, do hovercraft. “No Reino Unido, ainda temos tendência para pôr um pequeno anúncio no jornal, relaxar e esperar. Nós não fazemos nem por sombras marketing suficiente do nosso – não sejamos modestos – génio nacional”.
Até à data, a lista de invenções britânicas que saíram pode parecer interminável. Neste momento, o leitor de MP3 é o produto electrónico de venda mais rápida de todos os tempos. Está no Livro do Guiness. Mas quem o inventou? Levante-se Kane Kramer. Fê-lo quando tinha 23 anos, em 1979, e o número da patente é GB2115996A, registada em 2 de Novembro de 1981. Mas será que é o seu leitor que o mundo está a comprar? Obviamente que não. Ele não conseguia fazer negócio no seu país, por puro amadorismo, falta de uma infra-estrutura de divulgação de invenções, já para não falar de ganância, conflito e loucura das administrações das empresas. Por fim, Kramer virou costas e deixou a patente prescrever. Actualmente, constrói cozinhas, em Hitchin, Hertfordshire. Claro está, tem algumas invenções quentes a saírem – não há nada a fazer. No entanto, como ele diz “Nunca se pode desistir do emprego”.
Mas o leitor de MP3 é apenas a mais pequena parte do seu original invento. Imagine, tal como Kramer o fez em 1979: “Entra numa loja de discos que está ligada a uma base de dados central por linha telefónica. Traz um cartão, tipo cartão de crédito, com chips, e qualquer que seja a música que pretende ela é descarregada nesse cartão. Sem discos, sem cassetes. Mas, ao mesmo tempo que a música está a ser programada para o cartão, a informação da venda da música iria directamente para a dita base de dados de modo a que as empresas discográficas soubessem exactamente quanto estavam a vender, dando-lhe gráficos instantâneos, respostas instantâneas, por exemplo, a um anúncio televisivo. Além disso, a base de dados trataria de toda a contabilidade, direitos de interpretação, percentagem dos direitos de autor, tudo isto automaticamente.” A patente de Kramer também descrevia “uma base de dados na loja de discos ou numa outra localização distante”, ou seja, antecipava a Internet em largos anos.
O Sunday Times testou o cartão e o leitor, já em protótipo final, em 1986, e avaliou o seu som como tendo a melhor qualidade de sempre. Mas nessa altura foi tudo por água abaixo. Como ponto alto da saga de Kramer considere-se a maior fusão mundial até hoje, a da Time Warner com a AOL. A Time Warner tem os conteúdos informativos e de entretenimento, a AOL tem os meios de distribuição. O coração da fusão é a determinação em retomar o controlo da indústria. Pense-se no Napster. No centro da fusão está, obviamente, o hardware, o software e o precioso IP – especialmente o leitor de MP3 e o tipo de sistemas de dados que Kramer havia concebido em 1979.
Kramer não sabe como o MP3 chegou ao mercado. Mas qualquer um destes dias pode ver na British Library especialistas estrangeiros cujo trabalho consiste em passar a pente fino as patentes britânicas – as existentes, à procura de brechas, e as que expiraram o prazo e que ainda têm sumo, ou a fruta inteira. “Mas poderemos culpá-los?”, pergunta Paul Ambridge, o presidente do Instituto de Patentes e Inventores (IPI). “O que é ainda mais difícil de acreditar é que o nosso próprio DTI vai para o estrangeiro fazer exactamente a mesma coisa”.
Mas quem se atreve a dizê-lo? A invenção no reino Unido parece estar ultimamente a passar por um estado de graça. Que Trevor Baylis, arauto chefe da invenção britânica, não sai, ao que parece, dos ecrãs de televisão, é o menos. Os clubes de inventores estão a aparecer como cogumelos, juntamente com um revigorado IPI, fundado em 1919, e que funciona como ponto central destes clubes. Em Novembro último, o IPI engendrou a sua própria Mostra de Invenções Britânicas, depois de ter ficado marcado pela Exposição do Mundo de Amanhã, que patrocinava inventores independentes. “Na última reunião, enfiaram-nos a todos num pequeno espaço delimitado por cordas”, afirmou Kramer. “Vejam estes excêntricos engraçados num espelho distorcido!”. No entanto, em 2003, Kramer vai organizar um concurso televisivo “melhor invenção do mundo”, com mais de 50 países participantes, e com uma final a ter lugar, claro está, aqui no Reino Unido.
As mulheres inventoras estão também agora a subir à ribalta. Os prémios para a melhor UK Woman Inventor of the Year – que começou há 3 anos – acaba de se internacionalizar. Finalmente, todas as universidades têm um departamento de exploração, mecanismos para transferência de tecnologia e para a criação de empresas subsidiárias. O Directório de Tecnologia Universitária – que serve para abrir novos caminhos para o mercado aos departamentos de investigação e para encorajar a iniciativa empresarial – está na Internet desde o ano passado. Enquanto fazia pesquisa para este artigo, fui inundado por notícias de, e planos para, unidades incubadoras e mais parques científicos a abrirem por toda a Grã-Bretanha de modo a juntar inventores, académicos e o mercado. No que diz respeito igualmente a dar o primeiro passo em direcção ao mercado existem, agora, subsídios para os inventores—da National Endowment for Science, Technology and the Arts (Nesta) e do DTI. Mas não se entusiasme: nos seus subsídios, o DTI viu retornos de que se não ouviu falar de 145 falências no Sudeste.
Dito isto, não vamos facilmente desistir do nosso génio nacional. Considere-se o caso—agora sir—Harry Kroto e da sua invenção do principio dos anos 90 dos supercondutores artificialmente sintetizados de átomos de carbono. Também conhecidos por buckyballs pela sua semelhança com as cúpulas geodésicas de Buckminster Fuller, podem ser usados como lubrificantes, catalizadores, portadores de fármacos, até mesmo auxiliares ópticos para estudar a poeira interestelar. Pelo seu brilhantismo, Kroto recebeu o Prémio Nobel e hoje há uma liberdade global de aplicação comercial das miríades de usos das buckyballs .
Repare no erro. Primeiro Kroto precipitou-se a publicar o invento—o velho reflexo académico—sem patentear a invenção. Hoje isso não poderia acontecer. Claro que a pressão para publicar, para atrair financiamentos para a Universidade é maior que nunca. Mas todas as unidades de exploração universitária têm agora uma função de policiamento para impedir os académicos de “fazer um Kroto”. Quer dizer, há cinco anos, praticamente nada disto se estava a passar e, há dois anos, ainda pouco.
Sem inventores, claro, a nossa espécie estaria ainda no nível zero, nua, sem abrigo, escavacando com os dedos, e muito possivelmente perguntando-se: “isto é tudo o que há?” Sim, os inventores são gente peculiar—monomaníacos numa missão, convencionalmente inempregáveis, furiosamente paranóicos, brincalhões, demasiado espertos e etc. Alguns, tem que ser dito, são apenas sonhadores desapontados, vagabundos alojados no jardim que precisam de ser lavados com escova e de uma limpeza de ouvidos. Mas, para os outros, a caricatura popular, ainda obscurece, de alguma maneira o seu espantoso valor. Sem inventores não há novas indústrias, não há riqueza nova.
Mas a percepção convencional tem os seus inconvenientes. Todos os anos, por exemplo, cerca de 5000 patentes são concedidas a empresas, contra umas 1500 a inventores independentes. A conclusão pronta é que a maior parte das invenções no Reino Unido vêm de departamentos de pesquisa e desenvolvimento. E se fosse só isso! De facto, uma grande percentagem das patentes das empresas são meros desenvolvimentos de outras patentes, estendendo o âmbito das que existem, fazendo uma cerca para futuros lucros, muitas vezes para afastar a concorrência. Inventores apaixonados chegam, por vezes, até às empresas mas, geralmente, dado o conservadorismo delas, ou têm que ir trabalhar em segredo ou demitem-se para realizar os seus inventos. Há exemplos desde o hovercraft até à nota post-it, da droga contra a úlcera gástrica Tagamet, à fuga final de Gene Amdahl da protegida e secreta IBM para criar a Amdahl Corporation com a sua “demasiado revolucionária” tecnologia.
O Kramer tinha posto muito bem o assunto quando exclamou a propósito do acontecimento Mundo de amanhã: “todos nós despedimos inventores e havia na Exposição da British Aerospace um enorme motor a jacto – e quanto é que custou trazer aquilo – e a BT também lá estava a gabar-se de quantos estavam na crista da onda. Não estou a dizer para alimentar os inventores ingleses; não, mas, quem inventou o motor a jacto? O srº Whittle. Um saloio! O telefone? O senhor Bell. Um saloio”.
A falta de reconhecimento é apenas uma parte de um negócio muito escuro. Quem escreve uma canção é sua para a vida, mais 75 anos, mas uma invenção pertence ao inventor só por 20 anos e, a partir do 2º ano, tem de pagar taxas anuais enormes para proteger a sua patente a nível mundial. Veja-se, das invenções do Kramer; o “metalcoat” (revestimento metálico). Uma tinta que contém cerca de 50% de metal real que pode ser polida, pode-se deixar oxidar, o que se quiser, não interessa, pintar pinhas ou molduras de fotos: pense nas aplicações no interior, criando por exemplo, novos centros comerciais, hotéis, aeroportos. No segundo ano explicou ele, “tive que entrar com 30 mil libras para proteger a minha invenção, não será nada para a Glaxo Wellcome, mas para o inventor independente estamos a falar de uma segunda hipoteca.
De acordo com o IPI, o que sai do bolso dos inventores independentes ingleses, é 25mil libras/ano. Mas se falhar a taxa de renovação, perde a sua patente. Antes disso, aconteceu muitas vezes, como a James Dyson, que desde 1996 tinha contestado, por duas vezes, a lei das patentes no Tribunal Europeu das Direitos Humanos. Como ele argumentou, ter uma ideia patenteável deveria automaticamente dar o direito humano à posse; as taxas renovaveis são, portanto, ilegais. Ambas as acções foram rejeitadas. Baylis teve uma ideia ferozmente simples: as crianças deveriam assinar todos os testes de exame e tê-los rubricados pelos professores; esses trabalhos pertencem às crianças. Os direitos à propriedade intelectual deveriam começar aí. Mas o que mata tudo é que a patente não protege a invenção. Para infringir uma mera marca registada, produzir t shirts da Nike, é um delito, é crime. Mas uma companhia rouba uma invenção patenteada e é uma mera ofensa civil, com o ónus, para o inventor, de ter de mover a acção. Mary Haberman passou por isso. 18 meses depois do seu lançamento em 1996, a sua Anywayupcup tinha já captado uma grande parte do mercado de veleiros. Quando os construtores do Tommy Tippee apareceram com uma “cup” praticamente idêntica ao protótipo que ela lhes tinha mostrado, alguns anos antes. Sendo conhecida, a Tommy Tippee rapidamente lhe roubou 2/3 das vendas. Hipotecando a própria casa, moveu então uma acção.
Mas quando se aproximava a data do julgamento, eles propuseram um encontro. É o que fazem os infractores. Esperar até que o outro esteja falido ou tenha posto tudo em jogo ou então faça uma proposta de acordo, já nas escadas do tribunal. Mas nós não podíamos fazer acordo nenhum. A fábrica tinha dívidas “até aos olhos” com a compra de novas máquinas, e empregava 70 pessoas. Era ganhar ou estourar. A Seguradora apenas tinha coberto uma gota no Oceano. Mas ganhámos. Eles fizeram recurso, obviamente. Mais uma vez levaram-nos até ao fim mas na 11ª hora propuseram um acordo. Há tão pouca protecção, é ingénuo. Ninguém está preparado para nos apoiar durante este jogo de forças. Desde aí, Haberman lutou e ganhou infracções evidentes de outras companhias. É uma sobrevivente. No ano passado vendeu 10 M em barcos para todo o mundo. “Mendy é o nosso melhor e pior cenário.
Ela fez tudo certo, é um sucesso fabuloso e ainda está furiosa; claramente, algo está errado. O Patent Office acaba de abrir uma secção para aconselhar e guiar os inventores independentes. Bem, já é qualquer coisa. Entretanto, Haberman foi indicada para o novo Comité da Propriedade Intelectual, com o objectivo de descobrir uma maneira de melhorar o sistema. Os inventores sugeriram um seguro europeu subsidiado; triplicar as penalizações à infracção, como na América; um registo automático das patentes, sem pesquisa nem taxas, como na África do Sul, para que o inventor não tenha que lutar com qualquer adjudicação de patente que apareça mais tarde. Tal como estão as coisas, diz o Kramer, registar uma patente é pouco mais do que uma licença para litigar (é o início das hostilidades).
O maior desafio para a política do Reino Unido é, evidentemente, como tirar este génio nativo do barracão do jardim lançando-o para o mercado do mundo.
O exemplar Dyson, tão inventivo como é, nunca deixou de ir até ao fim. Quanto ao resto é duro, mas de uma maneira diferente. O adjectivo que se lhe aplica é, solitário. Entre aqueles que têm patentes registadas – 1500/ano – apenas 2% chegam ao mercado. Mas as aplicações das patentes feitas por inventores independentes andam à volta das 30 mil/ano. É uma vergonha de bradar aos céus, porque a maior parte delas são lixo: rádios no chapéu, coisas para aquecer o nariz, é uma vergonha, quanto mais não seja porque a maior parte das aplicações são bodegas. Mas muitos inventores já terão pago uns bons milhares a um bom advogado de patentes. Não que um inventor não possa arriscar, escrevendo ele próprio a patente. Mencione-se, por exemplo, que vai fazer o tal invento em aço leve e que algum Joãozinho estrangeiro na British Library, pensa, vamos fazer isto em alumínio.
O caminho mais curto do inventor para o mercado é vender uma licença de fabrico a uma companhia estabelecida. Toda a gente quer fazer uma Ron Hickman, a fama do Workmate ou um Ted Prosser, milionário inventor do produto mais bem sucedido do Ronseal, o Paint and Grain.
Um truque para o inventor é identificar, dentro da companhia, a pessoa que poderá promover a sua ideia. Mas os acordos são frequentes. As companhias não gostam de assinar compromissos de confidencialidade. Outros assinam, mas com o objectivo de os levar por outros meios. A Hamemerite, que foi engolida pela ICA, a meio da negociação, levou perto de dois anos a rejeitar o “Metalcoat” do Kramer. No fim, a ICA ofereceu-lhe 10 mil libras pelo conjunto da ideia, sem licença, quando ele já tinha pago 30 mil libras em taxas para renovar a patente. Agora, é ele próprio a distribuir o produto, através de retalhistas independentes e está a sair-se bem, muito obrigada.
“Muitos inventores deparam-se com o síndroma do não inventado aqui”, disse Ambridge. Os Departamentos da R.I.D. tendem a ver as ideias dos estranhos como uma ameaça. “Keenan, o nosso Homem do maçarico brilhou recentemente numa parábola dos nossos tempos. Tinha sido convidado para Porton Down, onde os inventores da casa tinham estado a desenvolver um creme protector para prevenir os soldados de ter a face incinerada pelo calor das explosões. Deram ao Keenan uma amostra de creme para testar. De volta ao seu barracão, no jardim, ele encheu dois balões, besuntou um com o creme deles e outro com a sua própria fórmula e então desafiou-os, a ambos, com um maçarico. O primeiro explodiu imediatamente mas aquele que estava protegido pelo seu creme aguentou uma contagem de cinco até rebentar. Custo estimado das instalações materiais de testes da Porton Down, um milhão de libras, custo dos balões, 15 pence.
Se o caminho não está nas patentes, a outra opção para o inventor é, evidentemente, lutar para chegar ao mercado. Aqui é que entram as subvenções. Mas funcionam? Podem criar riqueza genuína? Bem, que acha de um retorno de 140 vezes o capital em cerca de 30 meses? Nos subsídios Smart do DTI, convertidos em negócio de novas invenções, foi isso que recentemente se conseguiu através do SBS – Small Business Service – do Sudeste. As somas são assim. Pelo final de 1998, 2,8 milhões de libras de subsídios Smart, tinham sido aplicados no lançamento de 39 companhias de inventores. Por esta altura, no ano passado, 2 tinham falido, 2 tinham sido vendidas e as restantes 35 valiam o impressionante número de 408 milhões de libras. Subtraindo o investimento inicial, é um retorno de 14 471%. Sim, leu bem. Claro, todo processo envolveu uma selecção rude, sem concessões, das melhores invenções locais e, depois, alguma gestão inspirada, feita pelo Business Link local e pelo SBS, depois. Mas o que a façanha demonstra – como uma deixa para uma Terra da Esperança e da Glória- é que a infra-estrutura para levar as invenções ao mercado, já existe e funciona de forma esplêndida. Embora, até ver, apenas no Sudeste.
O modelo de como fazer isso é o Business Link Wessex (BLW), que cobre Hampshire e suas redondezas. Tendo atingido um número record de subsídios Smart, (81 até à data), a sua performance foi recentemente ampliada pela mãe de todas as invenções, a companhia virtual (a TVC), saída da cabeça do David Nicholas da BLW.
Resultado: em menos de 3 anos, usando o princípio das TVC, ele trouxe 27 negócios baseados em novas invenções, para capitalização no mercado. Tradicionalmente, a grande dificuldade era fazer os investidores comprometerem-se com as novas invenções. Mesmo os mais atrevidos benziam-se com alho à simples menção de invenções. Mas os TVSs mudaram isso.
“Depois de 20 anos a trabalhar com os inventores, sobretudo de uma forma privada” – diz Nicholas – “ tornou-se óbvio que eles nunca iriam conseguir investimentos sozinhos. Mesmo quando conseguem um subsídio SMART, muitos não sabem para onde se virar. É o velho problema: aos olhos da comunidade dos negócios, o inventor independente não tem credibilidade”.
Nicholas descreveu o seu momento de EUREKA. “É isso. Para começar, façamos uma equipa à volta de um dado inventor. Cada invenção é única, portanto tem de ser uma equipa feita à medida. Um especialista técnico da Universidade local, um especialista de fabrico; alguém com habilidade para obter as licenças do produto; um especialista de marketing – todos escolhidos a dedo”. Mas aqui está o passo inventivo: “Lança-se esta companhia virtual com acções virtuais, vai-se ganhar os Smarts, põe-se o negócio a funcionar até que, nessa altura, essas acções virtuais passam a ser reais.”
A nível nacional, lembrem-se, a taxa de conversão das invenções num investimento lançado no mercado anda por uns lamentáveis 2%. Mas a taxa do Wessex já vai em 12%. Estes novos motores de riqueza incluem pura invenção. Uma peça para os negócios dos desportos motorizados do Reino Unido, vale 1,6 biliões de libras; uma bomba de água que trabalha em profundidade e que funciona, unicamente, pelo peso da água que está dentro dela e que fornece 1750 galões de água por dia. Imaginem-se os benefícios para a Etiópia ou para a irrigação do Afeganistão; um sistema revolucionário para gerar electricidade a partir da energia das ondas do mar, utilizando toda a onda com moinhos de vento combinados. Um sistema de micro-ondas para remover rapidamente o óleo dos petroleiros gigantes destinado a resolver o problema da grande incidência dos detritos de óleos espessos e gordurosos no mar.
Nada disso teria sido possível, claro, sem o valiosíssimo contributo do inventor independente. A este propósito, a BLW tem andado à procura dos inventores e a tirá-los do isolamento dos seus refúgios, com a criação de clubes locais de inventores – 3, até à data, na área de Wessex; em seguida, fornecendo aos inventores independentes todo o tipo de ajuda das Universidades locais. Ainda melhor, Nicholas, ainda recentemente, criou uma associação modelo entre a WRT (Mesa redonda de inventores, com 40 membros) e a Faculdade de Tecnologia da Universidade de Southampton. Com o Barker Baylis fazendo o seu show, foi lançado com grande espalhafato em 15 de Maio. Pagando apenas 50 libras/ano, cada inventor do Wessex é agora estudante do Instituto com acesso a todas as facilidades: workshops para protótipos, completamente equipadas; pesquisa de patentes na NET; conhecimentos técnicos no domínio académico e dos negócios.
Para algumas invenções, a TVC funciona bem. Para outras, a unidade de exploração própria do Instituto fornece um caminho para o mercado. É uma ideia cujo tempo chegou. Até a conservadora Assembleia Nacional do País de Gales acaba de atribuír 400 mil libras para a criação de clubes de inventores para o Principado. Da mesma maneira, junto com a Scotish Enterprise e algumas ligações do Business Link, através da Inglaterra, a Assembleia já está a entender-se com as TVCs sobre a melhor maneira de arranjar as melhores invenções para o mercado. Não é coincidência que o Nicholas seja Galês.
O Homem fervilha. “O que é preciso agora é pôr isto a funcionar por todo o país. E isso – que em breve vai chegar às mãos de um decisor do DTI – é o Masterplan: criar a rede nacional de Clubes de Inventores, ligá-los com fundos de subsídios e com as Universidades locais e entusiasmar todas as agências regionais com o Know-how da Wessex e do processo dos TVCs.
Em termos de criação de riqueza nacional, que melhor maneira para ultrapassar a divisão Norte/Sul que com invenções locais, novas indústrias e negócios locais e uma regeneração das expectativas e do orgulho local?
Vários inventores conhecidos – Baylis, Kramer, Haberman - pediram apoio para a Estratégia Nacional da Invenção e chegaram à conclusão que, como no produto do Proser, ela poderia fazer exactamente aquilo que diz na embalagem. Nicholas é um homem apressado. Agora com 62 anos e para se reformar em 2004, vê a sua Estratégia Nacional como o canto de cisne: “As invenções nunca foram o nosso problema, temo-las a saír por todos os lados, mas se lhes pegarmos como deve ser, como já mostrámos, pode-se obter resultados mensuráveis. Mas o desafio é apercebermo-nos do seu potencial a longo prazo. Veja-se o licenciamento, por exemplo. Como nação, enquanto nação, ganhamos mais pelo licenciamento de software do que com o “metalbatido”. Amplificando este ponto, Paul Ambridge citou a indústria de motociclos japonesa: “Desde há anos, a Kawasaki e as outras têm ganho consideravelmente mais com o licenciamentos de tecnologia, como sistemas de combustível e por aí fora do que com a venda dos motociclos”.
“Mas assim como para os licenciamentos – disse Nicholas – algumas invenções prestam-se para franchising. Um exemplo é uma companhia local que produz acabamentos únicos de decoração, logotipos de companhias para as paredes e pavimentos para entradas de empresas e supermercados. A procura poderia manter franchising no mundo todo. O que é importante é o enorme mérito comercial de fazer franchising com a nossa propriedade intelectual”.
Não é difícil imaginar a paixão de Nicholas: “Não muito tempo antes de morrer, falido, o seu velho mentor e amigo, Sir Christopher Cockerell, disse: “Teria sido agradável ter podido levar a minha mulher a jantar fora, de vez em quando”. Mas isto passava-se há mais de uma geração. Agora, assim como a nossa mundialmente famosa tecnologia de ponta, parece que a política do Reino Unido tem o Know-how, a experiência e os meios para fazer justiça ao nosso génio nacional. Eureka, Reino Unido? É um futuro.
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