Autor: Comentador
Data: 24-11-2003 14:29
Se calhar não sabem o que são os BRIC´s? Quer dizer, saber sabem, mas aquela sigla é complicativa, até parece o nome de uma marca de cerveja. Os BRIC´s são, nada mais nada menos, os países que se posicionarão entre as 6 maiores economias mundiais, lá para meados deste Século XXI: Brasil, Rússia, Índia e China. Admirados? Não é caso para isso, vou já explicar tudo como deve ser.
Depois de muitas décadas de espera, tudo indica que estes quatro países irão entrar, à vez, a partir de 2040 - 2050, para o grupo dos países com maior poder económico do mundo, passando a integrar o G6, juntamente com os EUA e o Japão, ao mesmo tempo que desalojam os restantes. Embora continuem a ter, mesmo nessa altura, uma população comparativamente bastante menos rica do que estes, terão direito à honrosa etiqueta de grandes potências económicas, embora o título de superpotência se deva manter na posse dos Estados Unidos da América.
Mas, surpresa das surpresas, se os pressupostos não muito ousados de crescimento se concretizarem, a China ultrapassará o PIB dos EUA já em 2041, tornando-se a maior economia do mundo!
Claro que, por exemplo, também a Alemanha, a França e o Canadá falham completamente esta corrida, por não disporem dos factores decisivos para um crescimento real relevante: crescimento do emprego utilizando tecnologias avançadas, maior produtividade e progresso técnico e obtenção de elevados montantes de investimento directo estrangeiro.
Mas vamos lá fazer uma breve incursão no tempo até ao ano 2050 e já voltamos. Não é ficção científica, é tão-somente tentar antecipar a realidade, económica e sociológica. E, que diabo, também não falta assim tanto tempo como isso!
Preparem-se e façam por aguentar firme, pois as próximas cenas podem ser demasiado realistas e cruas para pessoas mais sensíveis. É o futuro em toda a sua plenitude que vai perpassar em frente dos nossos olhos, no ano 2050.
Vamos encontrar os EUA com uma grande maioria da sua população de origem não anglo-saxónica, onde avultará a comunidade de raiz hispânica, com grande taxa de natalidade. É verdadeiramente o que se pode chamar um outro Novo Mundo, em que os EUA irão perdendo posição relativa para os BRIC´s, sem contudo deixarem de ser a economia onde o rendimento per capita é o mais elevado e com uma subida sustentada ao longo dos anos.
Graças a taxas reais de crescimento médias superiores no longo prazo (entre 5% e 7%), a China e a Índia poderão ultrapassar, respectivamente, o PIB dos EUA (em 2041) e o do Japão (2032). É de notar que se prevê que os EUA cresçam a uma taxa real média de 2% ao ano até 2050.
Especialmente por motivos de diferença sensível nas taxas de natalidade, a actual União Europeia deixará de ter mais 90 milhões de habitantes do que os EUA, como agora acontece, para passar a ter menos 50 milhões, em 2050. Uma nota para referir que a imigração não permitirá solucionar problemas da Europa em termos de escassez de mão-de-obra e desenvolvimento, atendendo a que os imigrantes tendem a ter poucos filhos no seu novo país, especialmente na 1ª. geração.
Neste quadro, a União Europeia como um todo, supondo que se mantém a sua unidade política, fica com uma dimensão económica muito inferior, representando em 2050, somente 27% da China, 33% dos EUA e 40% da Índia. De qualquer modo, considerada como se fosse um País, seria à vontade a 4ª. economia do mundo, a seguir a estes três países.
Um aspecto que necessita ser realçado é o facto de as maiores economias do mundo (pelo PIB) deixarem de ser, na maioria dos casos, as mais ricas (pelo rendimento per capita).
O estudo recente da Goldman Sachs, em que me estou principalmente a basear, é tecnicamente bastante credível. No entanto, existem determinados pressupostos chave cuja alteração poderá implicar uma modificação substancial no quadro de situação para as próximas décadas.
Mas se os pressupostos se materializarem teremos a seguinte ordenação dos principais países, em termos de PIB e de Rendimento per capita, em 2050:
PIB (em biliões de USD) PIB per Capita (em USD)
1 – China 44.453 1 – E.U.A. 83.710
2 – E.U.A. 35.165 2 - Japão 66.805
3 - Índia 27.803 3 – Grã-Bretanha 59.122
4 – Japão 6.673 4 – França 51.594
5 – Brasil 6.074 5 – Rússia 49.646
6 – Rússia 5.870 6 – Alemanha 48.952
7 – Grã-Bretanha 3.782 7 – Itália 40.901
8 – Alemanha 3.603 8 – China 31.357
E, perguntarão, qual o papel de Portugal no meio desta dinâmica toda? Ora essa, nós pertencemos à União Europeia, as coisas têm que ser vistas no conjunto desta, como um todo. Ah! Não pode ser?! Não é cientificamente correcto porque somos um país soberano? Pronto, está bem, então vamos lá analisar isso rapidamente.
Pelas minhas contas, no ano 2050, a União Europeia já deve contar, pelo menos, com 33 países. Isto, depois da entrada dos novos 10 membros em Maio de 2004, da Roménia e Bulgária em 2007, logo a seguir da Croácia e, alguns anos depois, do conjunto formado pela Turquia, Sérvia-Montenegro, Bósnia-Herzegovina, Macedónia e Albânia. Embora discutível, deixo de fora a Suíça, Noruega e Islândia, pelo desinteresse até agora manifestado, e a Ucrânia, Bielorrússia e Moldova, por falta de contactos nesse sentido e pela complexidade das eventuais negociações, que teriam de envolver a Rússia.
Está-se mesmo a ver que o objectivo de Portugal será sempre qualquer coisa do estilo, apanhar o pelotão da frente (nessa altura mais alargado) ou sermos um dos melhores dos pequenos países do sul da Europa.
Claro que se alguém quiser fazer aos países da UE alargada, um estudo semelhante ao dos BRIC´s, dá-me a impressão que as surpresas também serão muitas e talvez não muito agradáveis para nós.
Um abraço
Comentador
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