Correndo o risco de nos dispersarmos um pouco, parece-nos que vale a pena pelo menos aflorar alguns dos 'temas quentes' desta semana. Desde o ouro, que se encontra nos máximos desde 1996, até ao golpe final no Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), passando também pela atribuição de notações de rating aos designados 'Landesbank', cuja dívida, a partir de 2005, irá perder a garantia do Estado alemão.
Começando pelo ouro, relembramos que esta matéria prima se encontra muito próximo dos máximos alcançados no início de 1996, a fasquia dos 400 dólares por onça 'troy'. Relembramos também que, numa óptica de investimento, este activo deve ser encarado como uma matéria prima qualquer. Ou seja, o ouro não aufere de nenhum estatuto especial como reserva de valor; a não ser provavelmente ainda no plano psicológico. Pelo que como qualquer matéria prima, a análise de preços ou de rentabilidade, tem de ser efectuada tendo em conta o equilíbrio entre a oferta e a procura. A oferta é limita, como qualquer matéria prima, o stock será finito à escala planetária. Mas não será esta a questão subjacente à recente evolução dos preços. Parece-nos antes que serão mais razões de natureza especulativa, baseadas por exemplo, na correlação habitualmente negativa entre o valor do dólar e do ouro, sobretudo alimentada por expectativas inflacionistas.
O actual enquadramento do mercado suscita-nos várias observações. Em primeiro lugar, se analisarmos a evolução dos preços desde início dos anos 70, mesmo um leigo em análise técnica se apercebe que a commodity tem uma resistência muito forte na fasquia dos 400/405 dólares por onça 'troy'. E verificamos também que apenas em períodos muito pontuais o ouro esteve acima desta barreira: entre 80 e 85, coincidindo com uma das crises petrolíferas, e entre 87 e 89, após o crash das bolsas, em Outubro de 1987. Ou seja, num período de cerca de 33 anos, o ouro esteve acima da fasquia dos 400 em apenas 6 anos!! E de cada vez que aconteceu, a incursão não foi suave. Em suma, a aposta nesta 'commodity' nesta fase não poderá ser feita de ânimo leve. Relembramos também que como qualquer activo físico, a detenção de ouro oferece protecção em caso de situações extremas de deflação ou de inflação. O que não é certamente o actual contexto nem se prevê que possa vir a acontecer nos próximos anos.
Relativamente ao PEC, apenas uma palavra muito rápida. A decisão dos Ministros das Finanças dos 15, contra a recomendação que fora dada pela Comissão Europeia, ilibando a Alemanha e a França das penalizações previstas na letra do Pacto e adiando para 2005 (será?) o regresso dos respectivos défices à fasquia dos 3% do PIB, parece ter marcado definitivamente o enterro do PEC. A este propósito, vale a pena apenas salientar a reacção da Standard and Poor’s, que passamos a citar:
- «..a decisão tomada na Ecofin poderá ameaçar seriamente a arquitectura das políticas fiscais na Europa, pois parece ser contrária não só com o espírito mas também com a letra do Tratado de Maastricht»
- «Em consequência, o processo de convergência da performance fiscal, e mesmo dos ratings soberanos na zona euro poderá ser interrompido, ou mesmo sofrer uma reversão»
- «Depois desta decisão é difícil imaginar que futuras violações venham a implicar a aplicação completa das regras do PEC».
Em suma, a longo prazo os países que poderão ser potencialmente mais penalizados por esta decisão não serão ironicamente a França ou a Alemanha.
Serão os países mais pequenos, e com piores credenciais que poderão sofrer as consequências mais negativas, na medida em que as performances fiscais ganham um novo relevo e serão certamente mais escrutinadas pelas principais agências de rating.. Curiosamente agora mais do que nunca será necessária disciplina e contenção nas contas públicas em Portugal.
Uma última observação. Depois desta decisão será que os políticos europeus vão ter 'coragem' para exigir a aplicação das regras do Tratado de Maastricht aos países de Leste? Como vão exigir que por exemplo o Governo polaco inverta o rumo da sua política fiscal extremamente despesista – o défice deverá alcançar quase 6% do PIB em 2004, segundo as previsões da UBS.
Estas notícias podem, no entanto, ser positivas para o mercado de dívida europeia, reanimando estratégias de spread que nos últimos tempos tinham deixado de se justificar.
Finalmente os 'Landesbank' e a polémica entre as autoridades alemãs e a Standard & Poor’s. A história resumida é a seguinte: os bancos públicos alemães vão perder a garantia do Estado a partir de Julho de 2005 por imposição de regras comunitárias. Até agora os 'Landesbanks' auferiam de ratings na casa de AA ou AAA. Se para os empréstimos que vencem antes de 2005 o término da garantia do Estado não apresenta problemas, já para as dívidas mais longas (já contraídas ou eventualmente a contrair) não é bem assim. Segundo informações não oficiais, tem sido publicitado em vários orgãos de comunicação a pressão a que a S&P tem estado sujeita para não tornar pública a sua posição acerca deste assunto, em particular, as notações de rating perante o fim da garantia estatal. É que as novas classificações, segundo as mesmas fontes e não desmentidas pela S&P, situar-se-ão entre o 'BBB' e o 'A'. O que em termos de custo do financiamento é bastante diferente dos valores inerentes à actual classificação. Enfim, mais uma história de obscuridade e falta de clareza, estados que parecem ser por vezes demasiado necessários na velha civilização Ocidental.
A propósito desta história já se fala no lançamento de uma agência europeia de 'rating', possivelmente alemã e controlada pelo Estado. Mas então o principal activo destas entidades não é a sua independência em termos políticos e económicos, não é a credibilidade perante a comunidade de investidores? O curioso é que a Fitch, a agência de rating francesa, também já anunciou a disposição de rever as classificações dos 'Landesbanks'. Pelo contrário, a Moody’s tem uma posição diferente, demarcando-se da S&P também americana, e afirmando que ainda é prematura esta revisão. Mesmo assim, há ainda quem fale de um conluio americano contra os alemães... Em suma, parece-nos que em todo este enredo muita gente se está a esquecer da posição dos obrigacionistas (e de uma maneira geral, de quem investe), em detrimento da defesa dos direitos (presumidos) dos emitentes.
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