Existe desde sempre entre estupidez e vaidade um estreito laço — o que nos fornece talvez uma indicação. O estúpido parece muitas vezes vaidoso até pelo facto de não ter inteligência para o ocultar; mas isso não seria necessário, no fundo, porque o parentesco entre vaidade e estupidez é directo: um vaidoso dá a impressão de produzir menos do que poderia fazer — como uma máquina cujos vapores escapam pelo sítio errado.
O velho adágio: "A vaidade e a estupidez crescem no mesmo ramo", quer dizer precisamente isso, tal como a expressão a vaidade "cega". Aquilo que associamos à noção de vaidade é a expectativa de uma produção menor (um certo sentido da palavra "vão" está muito próximo de "inútil"). E esta menor produção é esperada mesmo onde existe, de qualquer modo, produção: vaidade e talento também estão muitas vezes ligados; mas temos então a impressão de que a produção poderia ser superior, se o próprio vaidoso não fosse um obstáculo a isso. Esta representação, tão persistente, de uma produção inferior aparecerá, de resto, mais adiante como a representação mais geral que fazemos da estupidez.
Mas se o comportamento vaidoso é evitado, isso não é, como sabemos, porque pode ser estúpido, é sobretudo porque choca as conveniências sociais. "Aquele que se louva enlameia-se", diz um velho provérbio; isso significa que ser fanfarrão, falar demasiado de si e vangloriar-se excessivamente é considerado não apenas pouco inteligente, como inconveniente. Se não estou enganado, as exigências que isso fere fazem parte das numerosas e diversas recomendações destinadas a gerir o contentamento de uma pessoa consigo própria, pressupondo que este é tão grande nos outros como no próprio. Mas estas recomendações sobre as distâncias a observar condicionam igualmente o uso de palavras demasiado directas, regulam as formas de saudação, proíbem contradizer alguém sem pedir desculpa ou começar uma carta pela palavra "eu"; resumindo, exigem o respeito de certas regras a fim de evitar demasiada familiaridade — quer dizer, de proximidade*. Têm por tarefa aplainar e harmonizar os contactos, facilitar o amor por si como pelo próximo e assegurar, nas relações entre os homens, qualquer coisa como uma temperatura média; este género de prescrições encontra-se em todas as sociedades, mais ainda até nas primitivas que nas muito civilizadas, e não são sequer ignoradas pela sociedade muda dos animais, como é fácil verificar em muitas das suas cerimónias. Ora, uma tal preocupação de manter a distância proíbe não só que alguém se elogie a si próprio, mas também que se elogie qualquer outro excessivamente. Dizer a alguém, frente a frente, que é um génio ou um santo seria uma enormidade quase tão grande como fazê-lo de si próprio; pintar a cara ou levantar cabelo não seria muito melhor, para o nosso gosto actual, que insultar outra pessoa. Em geral, as pessoas contentam-se em insinuar que não são mais estúpidas ou piores que os outros, como já referimos!
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