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 A decisão do Fed
Autor: João Henriques 
Data:   04-05-2004 07:14

Hoje às 19:15 o Fed anuncia a nova política monetária nos Estados Unidos. Em princípio não haverá alteração das taxas de juro, mantendo-se estas em 1%, mas o comunicado poderá pela primeira vez desde há muitos anos, preparar os mercados para uma nova subida das taxas nos próximos meses. Os futuros sobre os Fed Funds apontam actualmente para que a primeira subida de 25 pontos base ocorra em Agosto, chegando-se ao final do ano com as taxas praticamente 100 pontos base acima, ou seja, nos 2%.

A reacção de hoje do mercado dependerá do que vier descrito no comunicado. Os investidores interpretarão as palavras do Fed tentando realmente perceber quando poderá ocorrer uma subida das taxas, se antes de Agosto, nesse mês ou depois.

Que números tem o Fed para analisar: inflação, capacidade produtiva, produtividade, emprego

Os últimos números da inflação nos Estados Unidos foram acima do esperado tanto ao nível do CPI (consumer price index) como o PCE (personal consumer expenditure).

Nos três primeiros meses de 2004, os preços dispararam e subiram a um ritmo anual de 5,1%, comparativamente a 1,9% no ano de 2003. O principal culpado desta subida foi o índice da energia que subiu 38%, comparando com 6,9% em 2003, e contando em cerca de metade na subida da inflação. Os custos de energia baseados no petróleo aumentaram uns impressionantes 82%.

O core CPI, que exclui a energia e a comida, registou uma subida de 2,9% no primeiro trimestre, comparando com um aumento de 1,1% em 2003. A aceleração dos preços teve como culpados a defesa, cuidados médicos e vestuário.

Em termos de PCE, um dos indicadores preferidos do Fed, a subida também foi elevada e no primeiro trimestre deste ano aumentou 3,2%, comparativamente a 1,3% no trimestre anterior. Excluindo a comida e energia, os preços subiram 2,3% após aumentarem 1,5% no trimestre anterior.

Além da inflação, os últimos dados do emprego também foram acima do esperado, com a criação de 300 mil postos de trabalho, quando se esperava 120 mil. Esta sexta é divulgado um novo relatório.

Com a subida da inflação e a melhoria do emprego, os investidores pedem ao Fed que se deixe de mostrar tão preocupado com a inflação estar demasiado baixa e com os riscos de deflação, e se volte a mostrar preocupado com a subida da inflação.

Mas existem outros indicadores que para já podem manter o Fed longe de subir as taxas.

Do lado da produção industrial, apesar de ter havido um crescimento de 6,6% no primeiro trimestre de 2004, a taxa de utilização da capacidade produtiva continua a surpreender pela negativa, e em Março diminuiu para 76,5%. Isto significa que as empresas não estão a utilizar um boa parte dos seus recursos, podendo ainda aumentar a produção, ou seja a oferta, sem investimentos adicionais caso a procura aumente. O valor que provavelmente estaria na base de criação de inflação seria de 82%, segundo um estudo publicado nos anos 90.

Em relação à produtividade, será divulgado esta Quinta o número relativo ao primeiro trimestre, esperando-se um valor elevado de 3,5%, acima dos 2,6% do trimestre anterior. Com o contínuo crescimento da produtividade, os custos laborais, que têm o maior peso na estrutura de custos das empresas, continuam sob controlo e as margens das empresas elevadas, conseguindo absorver o aumento de custos derivado da subida do preço das matérias-primas.

Temos então dois indicadores a favor da mudança da política monetária e dois que ainda pendem para a manutenção. Mas existem dois pontos ainda a discutir, a evolução da inflação e as expectativas dos investidores.

Como já vimos a inflação no primeiro trimestre registou um forte aumento, mas a questão que se põe agora é se este crescimento se mantém nos meses que se seguem ou a inflação abrandará novamente. Com o abrandamento da economia chinesa, que tem sido o maior contribuidor para o aumento do preço das matérias-primas, o abrandamento da desvalorização do dólar, e o preço do petróleo já a niveis muito elevados, questiona-se se nos próximos meses a inflação continue a subir a tão forte ritmo, já que como vimos o índice da energia teve um elevado peso na sua evolução.

Mas o Fed também tem de ter em conta na sua decisão as expectativas dos investidores face à evolução da inflação. Se não vejamos. Se o Fed adiar consecutivamente a subida das taxas de juro por uma ou outra razão, pode acontecer que uma cada vez maior percentagem de investidores discordem dessa decisão e fiquem preocupados com o possível descontrolo na inflação no futuro, intervindo nos mercados de forma negativa, isto é, por exemplo, fazendo subir as yields das obrigações de longo prazo para níveis elevados comprometendo deste modo uma parte importante de financiamento das empresas. Para já esta situação não se põem.

João Henriques
www.clubeinvest.com

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 Tópicos Autor  Leituras  Data
 A decisão do Fed  
João Henriques 185  04-05-2004 07:14 
 Bom artigo (eom)  novo
César Borja 28  04-05-2004 07:18 
 Grande César, obrigado!  novo
João Henriques 25  04-05-2004 07:24 
 Excelente...!  novo
Antunes 32  04-05-2004 08:58 
 Re: Excelente...!  novo
João Henriques 34  04-05-2004 09:14 
 Re: A decisão do Fed  novo
Pedro Miranda 29  04-05-2004 09:50 



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