Depois de uma carta aberta escrita por Stephen Roach a Alan Greenspan, a reivindicar que as taxas de juro subam para 3% com urgência, e vários artigos criticando a situação da economia mundial, apontando o dedo ao modo como os bancos centrais norte-americano, japonês e chinês têm dirigido a sua política monetária e intervido nos mercados financeiros, pode-se dizer que a resposta de Greenspan veio a semana passada num discurso proferido em Chicago sobre Globalização e Inovação.
Segundo Roach, existem cinco desequilíbrios fundamentais e perigosos na economia norte-americana que é preciso corrigir, mas para as quais o Governo e o Fed têm fechado os olhos. São eles, um recorde de baixa da taxa de poupança líquida nacional de 1% do PIB em 2003, um défice recorde da conta corrente de 4,9% do PIB em 2003, um défice orçamental em dólares recorde estimado para o ano fiscal de 2004 de 450 mil milhões, um rácio recorde de endividamento dos consumidores de 85% do PIB em 2003, e um gap sem precedentes de rendimentos do trabalho (salários) calculado em 367 mil milhões de dólares em Fevereiro de 2004.
Roach considera que a economia vive numa espécie de bolha financeira, com os investidores a aproveitarem a diminuta taxa de juro para pedirem emprestado e aplicarem em bens de longo prazo. O mercado da habitação tem sido especialmente um dos sectores com maior canalização de capital especulativo e o índice nacional de preço das casas subiu a uma taxa anual de 15% no último trimestre de 2003, uma valorização trimestral recorde, e a inflação anual dos preços das casas foi de 8%, ligeiramente abaixo do recorde. Na California, por exemplo, a inflação das casas a atingiu os 14%.
Mas a situação vivida nos Estados Unidos não deriva apenas da política fiscal e monetária norte-americana. Os bancos asiáticos têm uma grande parte da culpa. Segundo os últimos dados de Março de 2004, as reservas de moeda na região asiática atingiram os 2,1 triliões de dólares, mais de 80% das reservas totais a nível mundial e praticamente o triplo do existente nos finais de 1998, no pico da crise asiática. O Japão e a China (com Taiwan e Hong-Kong), têm reservas de 820 e 790 mil milhões, respectivamente. Como nos finais de 2002, 73% das reservas eram em dólares é natural que os bancos asiáticos sejam um dos maiores investidores nos Estados Unidos, financiando em grande parte o défice corrente norte-americano e assim sendo os principais contribuidores para os desequilíbrios macro-económicos norte-americanos. Os países Asiáticos procuram nos Estado Unidos continuar a ter uma fonte de crescimento das suas economias, através da exportação, mantendo as suas moedas artificialmente subvalorizadas face ao dólar, e entrando num ciclo vicioso cada vez mais complexo. O consumidor norte-americano apesar de extremamente endividado e a sofrer de um mercado de trabalho pouco dinâmico é o motor da economia mundial, sustentando a sua apetência consumista nos fortes cortes de impostos do Governo Bush, e na extracção de capital consequente da elevada valorização de activos, como acções, casas, etc.
Às constantes críticas de Roach, pode-se dizer que Greenspan deu a sua resposta num discurso muito interessante, onde abordou sem subtefúrgios as questões mais pertinentes como o elevado défice orçamental, défice corrente e endividamento dos consumidores.
Segundo o presidente do Fed estamos a viver actualmente uma mudança única no grau de globalização e inovação que tem permitido atingir estes desequilíbrios sem as consequências negativas de outros periodos da história, dando o exemplo do valor dólar estar dentro da sua média dos últimos vinte anos, apesar do défice corrente estar em 5% do PIB, e a yield 10 anos estar a um nível baixo apesar do défice orçamental estimado ser de 4,25% este ano e o periodo de reforma da geração baby-boom estar a poucos anos. "Não existem almoços grátis", mas a mão invisível de Adam Smith existe agora numa escala global permitindo se saltar de um estado de equilíbrio para outro.
A globalização define-se por três aspectos, o crescimento do comércio internacional, a especialização do trabalho fora das fronteiras nacionais, e o grau de aplicação de poupança em países estrangeiros. Nos últimos dez anos a abertura de países como a China, a Índia e os países do bloco de leste, tiveram consequências significativas na produção mundial e no comércio, aumentando a competição e pressionando em baixa os preços, sendo cruciais para um crescimento económico menos volátil e desinflacionista. O "home bias", ou seja, a manutenção das poupanças no país de origem do investidor, diminuiu fortemente na década de 90 e assim a dispersão de capitais tem permitido financiar um défice corrente elevado, algo que há umas décadas não seria possível sem consequências graves.
A questão que permanece sem resposta é até onde e quando este processo pode continuar. Até quando a globalização continuará a ser um processo em crescimento, estaremos perto do limite? Até quando o comércio internacional continuará a crescer a uma taxa mais elevada que o PIB mundial? Até quando a acumulação de capital estrangeiro financiará o défice norte-americano? A velocidade de mudança actual não pode durar enternamente, criando incertezas sobre as perspectivas daqui a dois anos para a frente. Mas Greenspan acredita que a resposta está no grau de flexibilidade da economia. Numa economia mundial suficientemente flexivel existirá um restabelecimento do equilíbrio nas várias vertentes financeiras sem o risco de uma crise.
Relativamente ao problema do elevado endividamento, o presidente do Fed afirma que o indicador de endividamento-versus-rendimento pode ser enviesado. Greenspan nota que a taxa de "homeownership" aumentou na última década e que mesmo que as taxas de juro subam, os efeitos nos consumidores não serão graves porque 4/5 da dívida está em taxas fixas de diferentes maturidades que só serão alteradas no fim desses prazos. Além disso, a haver uma inversão nos preços das casas será suave, até porque raramente os preços caem e quando isso acontece não é significativo.
A baixa taxa de poupança nacional também não é condição necessária para consequências no investimento, já que a eficiência de capital é muito elevada nos Estados Unidos, comparativamente a outros países com elevadas taxas de poupança mas onde o investimento é menor e a produtividade não tem aumentado. Greenspan afirma não estar preocupado com o endividamento e com o défice corrente, contrariamente às suas preocupações com o défice orçamental que é um obstáculo à estabilidade no longo prazo, já que em sua opinião não está sujeito a correcção pelas forças de mercado que estabilizam outros desequilíbrios.
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