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 O Grito de Edvard Munch (off-topic)
Autor: D1as 
Data:   05-07-2003 12:31

Este post não tem nada a ver com Mercados. É só um excerto de uma página na net que estive a ler e achei interessante colocar aqui. Para além disso, é fim de semana, até sabe bem pensar noutras coisas :-)

"O Colapso da Razão

Todos sabemos que, dentre todas as coisas que o século XVIII deixou como herança para o século que haveria de sucedê-lo, nada se igualou ao que tornou-se conhecido como o Iluminismo. Descendente directo do humanismo renascentista, o Iluminismo elegeu a razão como o guia de todas as realizações humanas; tudo por ela poderia ser explicado, longe das malévolas sombras da irracionalidade e da ignorância.

Se procurarmos pela origem da linha que deu origem a tal concepção, teremos de voltar até a Grécia platónica; não nos esqueçamos de que foi Platão quem nos assegurou de que só podemos conhecer de maneira legítima aquilo que conhecemos por meio da razão. Todavia, os precursores directos do Iluminismo encontram-se nos séculos XVI e XVII. São eles: Isaac Newton, John Locke e, acima de tudo, René Descartes.

Se Locke deu origem ao empirismo, ao afirmar que todo o nosso conhecimento deriva da experiência, e Newton, ao mecanicismo, com sua visão do universo fundamentada em leis precisas que deveriam ser descobertas por meio da razão, podemos metaforicamente dizer que Descartes foi o próprio racionalismo encarnado. Assim comenta Pierre Guenancia: “O espírito cartesiano é o de que todo homem se esforça em pensar segundo ideias claras e distintas”. Para Descartes, a verdade repousa nesses pensamentos, filhos somente da actividade racional; daí, deve ser excluída toda e qualquer participação emocional.

É denunciador observar que, em suas "Meditações", Descartes usa o sonho como meio para ilustrar o engano e o ilusório – afinal de contas, justamente por estar distante da ordem que nos é imposta pela razão que exige “pensamentos claros e distintos”, deve-se supor que haja no sonho algo de subversivo, enganador. E o que se tem com tal discurso é simplesmente uma arrogante negação de algo que sempre esteve por trás de todas as realizações humanas: a presença do inconsciente.

Como disse Shakespeare, somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos; entretanto, o mero fato de não termos controle sobre tudo o que se passa em nós mesmos era por demais agressivo para os apóstolos deste humanismo racionalista. Incapaz de aceitar sua ignorância diante do universo, o homem iluminista preferia repousar sobre o dossel da razão e acreditar que, por meio dela, tudo poderia descobrir e tudo poderia conquistar.

Essa tirania racional foi – e ainda é – fonte de algumas das maiores atrocidades de que a humanidade é vítima. Como denunciou Foucault, foi em nome da “clareza e distinção” que a sociedade humana oficializou a exclusão daqueles que pecavam por não corresponder a estas expectativas – os chamados “loucos” e “desarrazoados” que, por não obedecerem aos padrões de “normalidade” estipulados pelo racionalismo, deveriam ser excluídos da sociedade dos “seres racionais”.

É irónico observar que a sociedade iluminista seja precisamente aquela que levantará a bandeira da liberdade, igualdade e fraternidade. Obviamente, tais ideais referiam-se apenas aos que se adequavam aos seus padrões de normalidade. Aos vassalos da razão, a liberdade; aos “loucos”, os sanatórios e hospícios.

Essas pretensões do racionalismo ainda viviam no século XIX, sobretudo na pessoa de G.W.F. Hegel, que chegaria a pretender “dizer o indizível”. Afinal de contas, é a linguagem o meio pelo qual expressamos nossos pensamentos; e, por isso, ela precisa estar em perfeita harmonia com a razão, a fim de que possamos nos expressar tão correctamente como podemos raciocinar. Tal linha de pensamento encontrou eco no pensamento de Wittgenstein, que, no seu "Tractatus Logico-Philosophicus", afirmaria: “Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar”.

As consequências disso, como se pode ver, são a completa exclusão de tudo o que é não-racional, não-verbal e não-ordenado. A loucura, o misterioso e o caótico são simplesmente descartados como sendo sintomas de ignorância, absurdidade e falta de sensatez.

No século XX, esta ideia que já era contestada no século XIX, sofrerá seu maior impacto com a ascensão do nazismo – já que todos os homens que coordenaram tal atrocidade eram doutores, cientistas e “seres racionais”, mas nem por isso foram capazes de agir de maneira benéfica e construtiva para a humanidade.

Desta forma, a tendência da filosofia do século XX será justamente a de combater o “império da razão” iluminista; eminentes pensadores como Foucault, Sartre e Camus hão de revelar-nos quão ilusória é essa crença na racionalidade humana e, de maneira ainda mais determinante, a Filosofia da Mente revelará não ser a razão nada menos do que um instrumento a serviço da parte irracional do homem.

É dessa sociedade, herdeira do Iluminismo, que aqui tratamos. Uma sociedade regida pela ordem e pelo mecanicismo. Onde a opressão da razão abafa qualquer reacção emocional, onde o ideal do homem é a racionalidade e a rectidão e onde o sonho e a fantasia são tratados como desvios e ilusão.

Seguindo esta lógica, que dita que só a frieza racional pode ser um sinal positivo de progresso, nada mais natural que relegar a arte ao segundo plano, à mera categoria de entretenimento. O artista, aqui, está sempre preso ao convencionalismo, à “normalidade”, aos ideais estéticos que dirão o que é belo e o que não é (afinal de contas, o belo também precisa ser “claro e distinto”; não pode haver beleza no que foge aos rígidos domínios da razão. Não nos esqueçamos de que será essa sociedade racionalista que execrará a "Sinfonia Heróica" de Beethoven – que, por apresentar uma beleza estranha ao que a razão considerava “esteticamente correcto”, foi tida como atordoante e desagradável).

No ano de 1893, nasce "O Grito" de Munch: sua obra mais famosa, mais expressiva e mais representativa...

A pintura de Munch, antes de mais nada, era um atentado a todas as convenções artísticas vigentes. Já os impressionistas não haviam sido bem recebidos com suas ideias pouco convencionais; segundo seu raciocínio, os objectos deveriam ser pintados não necessariamente com as cores que tinham, mas sim as que pareciam ter.

Todavia, a ousadia de Munch ia muito além do que a de qualquer um de seus antecessores. Afinal de contas, na sua pintura, as cores e tonalidades não são efeito de condições ambientais, mas sim de factores emocionais. O Grito é a experiência visceral de uma subjectividade que se torna transcendente justamente por encontrar eco em cada uma das almas que o contemplam. Tal como acontece na tela, este Grito, que nasce da angústia de uma alma solitária, penetra a natureza e o espaço, distorcendo-o e contaminando-o com seu desespero.


Sua radicalidade está para além das fronteiras do convencionalismo, assim como a emotividade do Grito está para além dos limites do racionalismo; o quadro não deve ser analisado, deve ser sentido – é um grito dirigido directamente à alma.


A vida trágica de Munch foi a condição necessária para que sua obra pudesse florescer. Uma avassaladora emotividade nascida do tormento; o sofrimento transmutado em beleza. O gigantesco espírito que, incapaz de se manter confinado a um corpo de carne, escapa... transcende a existência e realiza uma rasgante ascese, quase mística: Munch encarna a própria essência do expressionismo.

Como um golpe fatal ao decadente racionalismo, Munch exalta todos os aspectos que fogem aos padrões de “clareza” e “normalidade” que a sociedade dele exigia. Por isso tentaram mantê-lo calado ao fechar a exposição em Berlim: as verdades que retratava eram demasiadamente cruéis, precisamente por representarem o lado do homem que a sociedade racionalista desejava esconder.

Terminamos por mostrar uma única prova, capaz de corroborar, mais de um século depois, a veracidade de tudo o que a existência de Munch representou para a humanidade: o facto de que, para além de todo o racionalismo estéril que corrompe a sociedade actual, o Grito de Munch ainda ecoa... "


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 O Grito de Edvard Munch (off-topic)  
D1as 59  05-07-2003 12:31 



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