Tal como discutido acima, o sector de serviços da economia foi uma das principais áreas para o investimento e o emprego. A outra saída foi a especulação — na realidade, apenas uma outra palavra para jogatina. O sector financeiro da economia capitalista já não está confinado às necessidades da produção, emprego e investimento. Principiando na década de 1980, tornou-se uma forma cada vez mais autónoma de fazer dinheiro, particularmente evidente no crescimento dos mercados de derivados (derivatives) . Um derivado é um instrumento financeiro que "deriva" o seu valor de um outro instrumento financeiro. Um futuro financeiro (financial future) , por exemplo, é um acordo para comprar algum outro instrumento financeiro, digamos uma acção ou um título, em algum dado ponto no futuro.
Os derivados tendem a exagerar ganhos e perdas. Se uma taxa de juros ou o preço de uma acção no qual um derivado se baseia sobe, os ganhos obtidos através de um derivado podem subir como um foguete. Por outro lado, se os activos subjacentes declinam, o valor de um derivado afunda. A velocidade da ascenção e queda dos valores financeiros acresce o risco dos apostadores individuais. Tal como numa corrida de cavalo, alguns apostadores perdem, outros ganham. O risco aqui é para o sector financeiro como um todo ou para uma parte importante do mesmo, e portanto um risco para a economia como um todo. Motivo: estas especulações são altamente alavancadas. Exemplo: o comprador de um derivado pode aplicar 5 por cento, enquanto um empréstimo bancário proporciona o resto.
O fiasco da Enron sublinhou, recentemente, quão grandes se tornaram os mercados de derivados. Em depoimento perante o United States Senate Committee on Governmental Affairs, a 24/Janeiro/2002, Frank Partnoy, Professor da Faculdade de Direito da Universidade de San Diego, explicou: "A Enron era, no seu núcleo, uma firma de comercialização de derivados. Nada pode tornar isto mais claro que o projecto do extravagante novo edifício da Enron — ainda não terminado actualmente, mas ocupado na sua maior parte — onde os gabinetes dos executivos de topo no sétimo piso foram concebidos de forma a dar uma vista panorâmica à jóia da coroa do império Enron: uma cavernosa arena (pit) para a comercialização de derivados localizada no sexto piso.
A explicação de Partnoy acerca da natureza e da extensão do mercado de derivados no contexto do seu depoimento sobre o colapso da Enron proporciona um visão pormenorizada do crescimento do mercado de derivados, os quais agora permeiam os negócios dos EUA.
Os derivados são instrumentos financeiros complexos cujo valor é baseado sobre uma ou mais variáveis subjacentes, tais como o preço de uma acção ou o custo do gás natural. Os derivados podem ser comercializados de duas formas: em transações regulamentadas ou em mercados não regulamentados over-the-counter (OTC) ...
A dimensão dos mercados de derivados é medida tipicamente em termos do valor imaginário (notional) dos contratos. Estimativas recentes da dimensão do mercado de derivados de comercialização de câmbios, os quais incluem todos os contratos comercializados sobre os câmbios das principais opções e futuros, vão de US$ 13 a US$ 14 triliões (milhão de milhões) em valores imaginários. Em contraste, a quantia imaginária estimada dos derivados OTC não pagos no fim de 2000 era de US$ 95,2 triliões (milhão de milhões). E esta estimativa está provavelmente subestimada.
Por outras palavras, os mercados de derivados OTC, os quais na maior parte não existiam 20 anos atrás (ou, em alguns casos, há dez anos), agora abrangem cerca de 90 por cento do mercado de derivados agregados, com triliões de dólares em risco todos os dias... A Enron pode ter sido apenas uma empresa de energia quando foi criada em 1985, mas no fim tornou-se uma firma comercializadora de derivados OTC em plena explosão. Os seus activos e passivos relacionados com derivados OTC aumentaram mais de cinco vezes só durante o ano 2000.
A enorme expansão da dívida das corporações dos EUA, inclusive das instituições financeiras, está claramente limitada por esta extensiva e crescente actividade especulativa. A Enron foi simplesmente um exemplo exagerado disto. O resultado é uma estrutura financeira que é cada vez mais instável, mais propensa ao desastre se a economia subjacente enfraquece e se novas formas de instrumentos financeiros, concebidos para adiar o dia do ajuste de contas, não forem constantemente introduzidos.
Para onde isto tudo conduzirá, ninguém sabe. Na melhor hipótese, o acumular de dívidas e a natureza cada vez mais instável da estrutura da dívida coloca limitações às economias que lutam para emergir de uma depressão cíclica. Na pior, um sério colapso (meltdown) financeiro poderia mais uma vez desestabilizar a economia do mundo capitalista. Acerca disto é crucial entender que não só a economia dos EUA caracteriza-se por quebras de produção e uma explosão insustentável de dívida, como também a economia mundial em geral, pois surgiu uma recessão mundial sincronizada.
Excesso de capacidade e volatilidade financeira tornaram-se fenómenos quase universais num ambiente económico cada vez mais globalizado. "O actual declínio global", observou a revista Economist em 25/Agosto/2001, "distingue-se das outras do meio século anterior em que
a vulnerabilidade económica está mais difundida do que nas anteriores depressões. Na 'recessão mundial' de 1991, por exemplo, a economia americana afundou, mas o Japão, a Alemanha e os Estados emergentes da Ásia continuaram a crescer, o que ajudou a absorver a procura mundial. Até agora esta recessão não é profunda, mas pode ser a mais sincronizada desde a década de 1930. Nisto situa-se o grande risco. As economias tornaram-se cada vez mais integradas devido ao comércio e ao investimento nos anos recentes... O lado negativo desta globalização é que a recessão económica em todo o mundo está agora a provar-se auto-reforçante, ampliando a queda inicial da procura. Como o investimento entrou em colapso nos EUA e no Japão, estes países cortaram suas importações dos produtores asiáticos. Mas a procura mais fraca nos países asiáticos está a fazer com que eles, por sua vez, restrinjam suas importações, não apenas dos EUA e do Japão como também da Europa. As probabilidades de uma recessão americana (e global) portanto aumentaram consideravelmente (pgs. 11-12).
Como sempre, são os países mais pobres na periferia do sistema os que mais sofrem numa crise geral da economia mundial. Tal como fora indicado anteriormente, as taxas de crescimento económico per capita estagnaram nos últimos vinte anos nos países subdesenvolvidos (com apenas umas poucas excepções notáveis), criando problemas económicos ainda piores.
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A nova face do capitalismo: Crescimento lento, excesso de capital e uma montanha de dívida
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