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 Europeus cada vez mais endividados
Autor: notíCIas_pt 
Data:   21-07-2003 04:01

Cristina Ferreira
PÚBLICO
Holandeses, alemães e portugueses lideram o "ranking" das dívidas da eurolândia, concorrendo com britânicos e norte-americanos fora da zona euro. Os especialistas dizem que a situação não é grave, mas alertam que em caso de subida dos juros ou "crash" imobiliário a coisa pode ficar preta.

Em 2001, as famílias holandesas , alemãs e portuguesas eram as mais endividadas da zona euro com taxas de endividamento (dívidas em percentagem do rendimento disponível) de, respectivamente, 189,8 por cento, 111,5 por cento, 96,6 por cento, contra uma média de 80,3 por cento para os Doze.

Já o ano passado, em Portugal, as dívida continuaram a crescer, embora a menor ritmo, situando-se nos 103 por cento do rendimento (para os restantes países, o PÚBLICO não encontrou dados disponíveis). Quanto a 2003, os especialistas prevêem um ligeiro recuo, em resultado do ajustamento das famílias ao abrandamento económico.

Do grupo de 15 países analisados, onde se incluem a Alemanha, a França, a Holanda, a Bélgica, a Irlanda, a Espanha, a Itália, a Áustria, Finlândia, a Grã-Bretanha e os EUA, Portugal foi o que, entre 1995 e 2001, registou o maior crescimento do endividamento das famílias em percentagem do PIB, mais do que duplicou (136 por cento), no que foi seguido pela Espanha, com um acréscimo de 68 por cento.

Dos restantes países apenas a França e a Bélgica se distinguiram com aumentos ligeiros de 5,4 e de 5,8 por cento, respectivamente. E se se olhar agora para o período 1998-2001, conclui-se, novamente, que com excepção da França e da Bélgica (esta revela mesmo um decréscimo), se verificou uma aceleração das dividas globais dos particulares europeus, estimulados pelo clima de baixa generalizada das taxas de juro, que lhes permitiu antecipar decisões de investimento e melhorar o seu nível de vida, acumulando maiores "stocks" de divida. Ou seja parte do crescimento do endividamento dos cidadãos comunitários teve a ver com um ajustamento estrutural às novas condições trazidas pela moeda única.

Antes da adesão ao euro vigoravam em Portugal taxas de juro que chegavam aos 30 por cento, e que agora rondam os quatro por cento, o que tornou, neste caso, mais rápida a convergência. O sobreendividamento das famílias portuguesas assume proporções menos graves, pois não tem evoluído na mesma proporção do serviço da divida, que se tem mantido estável, à volta dos seis por cento, em consequência dos baixos encargos financeiros. Ou seja: apesar do crédito ter aumentado muito e dos salários líquidos terem proporcionalmente crescido menos, o esforço feito pelos cidadãos para pagar os seus empréstimos manteve-se estável.

Os dados referentes às dividas contraídas pelos particulares junto da banca (crédito à habitação, crédito ao consumo, e para outros fins) em 2001, em percentagem do PIB, indicam que dos países analisados, apenas cinco evidenciavam taxas superiores à média da UEM (80,1 por cento). As famílias holandesas exibiam mesmo níveis de endividamento que se aproximavam do patamar dos 200 por cento, com 189,8 por cento, o montante mais elevado de todos.

A Alemanha, a Grã-Bretanha e os EUA, único país fora da Europa para o qual o PÚBLICO arranjou dados, ultrapassavam igualmente a fasquia dos cem por cento, com taxas de 111,5, 111,9 e 103,9 por cento. Portugal aparecia em 2001 com a quinta maior percentagem entre os países considerados, 96,6 por cento, uma cifra idêntica à apresentada pela Inglaterra seis anos antes, quando apenas 40,9 por cento do PIB nacional estava afecto à divida dos portugueses.

Mas apesar dos níveis de endividamento serem muito elevados, com taxas próximas ou superiores a 100 por cento em alguns países, não se pode deduzir que as famílias holandesas, alemãs, inglesas, americanas e portuguesas estejam insolventes e incapazes de saldar os seus créditos, pois não estão em causa empréstimos a pagar num só ano.

Ou seja, a taxa de endividamento dos particulares em percentagem do rendimento disponível não espelha o esforço das famílias no cumprimento das sua dividas, traduzindo o montante dos créditos acumulados pelas famílias ao longo dos anos em percentagem do rendimento de um determinado ano. Por seu turno, está-se a falar de empréstimos contraídos num enquadramento de taxas de juro baixas, e a que estão associados créditos de longo prazo, para financiamento de habitação. Em Portugal, em 2002 mais de 78 por cento dos empréstimos, eram para aquisição de casa própria, sendo que mais de 97 por cento eram de prazo superior a cinco anos.

A ausência de um mercado de arrendamento, que obriga à aquisição de casa própria, e torna mais caro arrendar do que adquirir habitação, tem contribuído para o endividamento das famílias. Depois da habitação, os portugueses endividam-se para adquirir bens de consumo duradouro, automóveis e computadores.

Por outro lado, segundo se pode ler num texto em anexo ao relatório do Banco de Espanha, de 2002, Portugal, a Irlanda, a Itália, a Holanda e a Espanha foram os países onde, dados os juros baixos, o custo de aquisição de casa própria se reduziu de forma substancial, e apenas a Irlanda não apresentara até 2001 um crescimento correspondente no seu rácio de endividamento das famílias.

Nos casos de Portugal, Irlanda e Espanha, o aumento da divida bancária dos particulares, foi acompanhado de um acréscimo relativamente maior do rendimento real dos cidadãos e de uma redução dos juros mais pronunciada. O trabalho salienta ainda que a Alemanha, a Holanda e Portugal, os países da zona euro com dividas mais elevadas, evidenciam os maiores encargos financeiros. Mas a Holanda, Portugal e a Espanha são os que apresentaram maiores crescimentos da carga financeira nos últimos anos.

Embora os valores associados a este grupo de cinco países possa não constituir para já motivo de grande preocupação, o excessivo endividamento dos particulares não deve ser ignorado, pois envolve riscos, nomeadamente, os associados a eventuais aumentos das taxas de juro que possam afectar negativamente as famílias.

Mas também o sistema bancário pode não ficar imune. Em Portugal, por exemplo, o peso do crédito a clientes no total do activo tem crescido significativamente, originando uma diminuição dos activos interbancários e do peso da carteira de títulos e imobilizações financeiras, o que não foi acompanhado pelo aumento da captação de recursos de clientes. O que fragiliza o sistema financeiro. Por outro lado, e dado o peso dos empréstimos à habitação no endividamento das famílias, se o imobiliário começasse agora a cair, os seus efeitos poderiam ser muito negativos. O que aconteceu há uns anos na Grã-Bretanha foi elucidativo.

Com a queda brutal do preço das casas, os ingleses ficaram nas mãos com hipotecas negativas (vendiam as suas casas e continuavam a dever dinheiro ao banco). O caso do Japão ainda foi mais dramático, pois grande parte dos financiamentos beneficiavam de garantias reais. Para além dos encargos com os créditos bancários, as famílias, designadamente, as portuguesas enfrentam ainda a necessidade de pagar os juros e as dividas contraídas com os cartões de crédito.

As famílias de menores rendimentos, e menos informadas e capazes de perceber as implicações dos movimentos das taxas de juro, tenderão a endividar-se até ao limite das suas capacidades, sendo quando existe uma pequena variação estas são as que mais sofrem. Uma situação a que não é alheia a forte concorrência entre bancos, que os leva a facilitar a oferta de crédito aos particulares.

NotíCIas



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 Europeus cada vez mais endividados  
notíCIas_pt 36  21-07-2003 04:01 



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