Antes demais os meus parabéns pelos seus artigos. Em segundo lugar, deixe-me dizer que discordo de um ponto que referiu no seu último texto, algo já aqui discutido no Clubeinvest, o facto de Greenspan estar a fazer uma política de modo a reeleger Bush. Não concordo.
Em minha opinião, Alan Greenspan está a fazer o seu trabalho como a economia o deixa. Se existem críticas ao seu modo de actuar, mas penso que essas críticas terão de ser endereçadas para alguns anos atrás, em 1998/99, no modo como ele e os membros da Reserva Federal viram crescer uma bolha financeira e nada fizeram para a parar. Mas também não acredito que quaisquer outros que estivessem nos seus lugares na altura o tivessem feito de modo diferente. A verdade é que a Reserva Federal tem como objectivos não só o controlo da inflação, como também promover o crescimento económico e o emprego, logo numa situação de crescimento com muito pouca inflação, como se registou nesses anos, o seu lugar fica numa situação frágil, muito exposta a ataques políticos e mesmo sociais, caso houvesse a tentativa de subir em demasia as taxas de juro de modo a impedir a bolha financeira que se estava a formar.
Também é verdade que a Reserva Federal é composta por sete membros nomeados pelo Presidente e confirmados pelo Senado, e por isso apesar de alguma independência, existe sempre a necessidade de agradar ao Presidente que os nomeou, estar em sintonia com a sua política e no fundo não ser um obstáculo de votos nas eleições. Mas ainda assim alguns membros podem ter sido nomeados por outro presidente, de outra cor política.
Actualmente, mesmo com as eleições presidenciais à porta o Sr. Greenspan não tem outra forma de conduzir a política monetária. Senão vejamos na história, dois períodos que se assemelham ao actual, os anos 30 nos Estados Unidos e os anos 90 no Japão. A actual conduta monetária está ser exactamente de acordo com o esperado, não caindo nos erros apontados a esses periodos. Nos anos 30, as críticas apontam para uma política monetária muito restritiva, aquando do rebentamento da bolha, e também ao Smoot-Hawley Tariff Act, por criar barreiras ao comércio internacional. Nos anos 90, as críticas apontam para uma política cambial restritiva, o iene demasidado alto, a subida das taxas de juro demasiado cedo, na fase de saída da recessão, e um política orçamental não direccionada convenientemente para estimular a economia.
A Reserva Federal conhecendo a história não cometeu os erros e se olharmos para o que se passou nos últimos anos podemos verificar que as taxas de juro foram reduzidas agressivamente ainda no rebentar da bolha e têm estado demasiado expansionistas com o renascer do crescimento. O dólar tem estado a desvalorizar controladamente impulsionando o sector exportador, e o Sr. Greenspan tem alertado para os perigos de criação de barreiras ao comércio internacional. Além disso, a política do Sr. Bush foi de impulsionar o crescimento económico através da criação de défice orçamental, mas a crítica aqui pode ser endereçada, já que o défice não surgiu apenas com cortes de impostos e outros benefícios, mas também devido a uma política militar agressiva, que desviaram fundos que deveriam ter sido aplicados internamente.
Mas e o que acontece agora? A verdade é que ninguém sabe quais as consequências desta política. Será que a economia conseguirá realmente sobreviver ao rebentamento da bolha, com uma das mais pequenas recessões da história, ou será apenas um adiamento para uma catástrofe económica, tal como vivido nos anos 30 e nos anos 90 no Japão.
O Sr. Greenspan continua a defender-se afirmando que o melhor modo da política económica actuar é a de não procurar parar uma bolha financeira, da qual, na altura não se tem a certeza se existe ou não, e tratar sim, das sua consequências com todas as armas possíveis.
Eu continuo a acreditar que agora o melhor é realmente deixar a inflação disparar, e só posteriormente apertar a política monetária, sendo esse o único modo de se fugir ao perigo da deflação, o abismo económico vivido nos dois periodos aqui referidos. Uma política assim receberá mais uma vez fortes críticas, não será pacífica, e terá como perigo a criação de outras bolhas financeiras, algumas das quais que já se poderão estar a viver.
Concluindo, não estou de acordo que Greenspan esteja a fazer o jogo de Bush, penso que está a fazer o jogo que deve ou que pode, e a assegurar também que saia do seu posto à frente da Reserva Federal, se não me engano em 2006, do melhor modo possível. As críticas a fazer, deverão ser feitas ao modo como a Reserva Federal actuou no final dos anos 90.
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