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 Artigo publicado no Jornal de Negócios - suplemento Negócios & Estratégia...
Autor: Antunes 
Data:   06-06-2003 07:00

...o qual gostei de ler e, por isso, resolvi partilhar:

Acabámos de sair de um ciclo de crescimento económico que durou cerca de cinco anos.

Os mercados estiveram receptivos, houve dinheiro a circular em grande velocidade, fruto de um consumo desenfreado e de uma apetência por tudo o que era novo.

A especulação e o dinheiro fácil ajudaram a criar a ilusão de riqueza que levou as famílias a endividarem-se acima do que seria racional.

As empresas vendiam e facturavam sem bem saberem como.

E este era o grande segredo, guardado a sete chaves pelos gestores de muitas empresas.

Exactamente!

O grande segredo era que muitos gestores não sabiam porque razão as coisas corriam bem.

E é curioso acompanhar como a mentalidade desses
gestores foi evoluindo ao longo da última década.

Numa primeira fase não sabiam porque lhes corriam os negócios tão bem, mas calavam-se, aceitando os parabéns, muitas vezes transformados em bónus chorudos, com um sorriso de falsa modéstia na face.

Depois os resultados continuaram a aparecer, claramente fruto de uma conjuntura externa muito favorável e os nossos heróis começaram a convencer-se que, se calhar, a implementação das estratégias que não implementavam porque não as tinham, eram as responsáveis por esse sucesso.

Ainda por cima as suas contas bancárias continuavam a crescer com "stock options", "phantom shares", "fringes" variados, mais-valias, despesas de representação, bónus, prémios extraordinários e cartões de crédito, por cima de salários principescos.

Era ver os nossos gestores a pressionarem os comerciais para darem mais, sem saber bem com que fundamento e os comerciais a dizerem que os seus números já eram muito puxados, mas também sem saberem porquê.

É nesta altura, mais ou menos ao fim de cinco anos de orçamentos e planos ultrapassados, que os gestores das nossas empresas começam a aceitar que são uns génios e que se o mundo existia a eles se devia.

É nesta fase que se verifica um fenómeno interessante de analisar.

Convencidos que são o centro do mundo, com o ego do tamanho de uma abóbora transmontana, começam a tornar-se prepotentes, autocráticos e arrogantes.

Compram carros de luxo, tornam a satisfação das suas birras o objectivo da empresa e passam a considerar os clientes uns chatos ("O cliente é o nosso maior inimigo!" - dizia grandeloquente um DG meu conhecido).

Uma praga de pequenos ditadores sem escrúpulos nasce como que de geração espontânea, espezinhando os subordinados e humilhando os que estão abaixo.

Passam a usar a técnica de gestão de recursos humanos mais primitiva e desajustada que alguma vez se inventou e que parece que já nem para os cavalos resulta: a da cenoura e do chicote.

Sabem como é?

Põe-se uma cenoura (ou um bónus) na ponta de um pau e depois usa-se o chicote.

Claro que à medida que se avança, a cenoura (ou bónus) também avança e a vítima aguenta o chicote, as faltas de respeito e as humilhações com o pensamento nas contas que se poderão pagar quando se apanhar a cenoura.

Esta técnica, usada sem parcimónia pelos nossos gestores, parte do pressuposto segundo o qual apenas quem maneja o pau é esperto.

Mas os resultados apareciam, os crescimentos eram na casa dos dois dígitos e os gestores continuavam cada vez mais convencidos que eram os obreiros do sucesso e que a sua técnica, acima descrita, era a melhor.

Recordo duas empresas geridas por estes gestores "neo yuppies", em que os colaboradores tinham comentários deste tipo: "Isto se vendesse sapatos já tinha falido" ou "Isto dá este dinheiro todo mal gerido, imaginem o que daria se fosse bem gerido!"

Temos que concluir que todos viam que o rei ia nú menos o próprio.

Estes, cegos com o "seu" sucesso compram varas cada vez mais compridas e chicotes mais grossos, quer para por a cenoura mais longe, quer para dar no lombo dos subordinados cada vez mais endividados e, por isso, cada vez mais necessitados de cenouras.

Agora, e sem ainda se saber porquê, as coisas já não correm bem.

Os crescimentos não acontecem, as estratégias que não tinham já não dão resultado.

Os gestores começam a não dormir e andar ansiosos.

Sentem que têm que fazer qualquer coisa e vêem-se obrigados a tomar medidas.

E a primeira medida é despedir os mais velhos, os mais caros e os mais rezingões.

Aqui é interessante tomarmos consciência que a maioria dos gestores que hoje estão no topo, tinham cerca de trinta anos quando esta longa fase de prosperidade teve início.

Isto significa que não têm experiência de gestão em tempos de crise.

Que não sabem lidar com vacas magras.

A sua única experiência de gestão é com crescimento constante.

E qual é a sua primeira e genial medida?

Despedir os que viveram situações de crise e que podem ter aprendido alguma coisa com elas, isto é, os colegas mais velhos.

Perante o desconhecido e não querendo dar parte fraca, agem como qualquer menino mimado a quem não dão o brinquedo, fazem birra a tornam-se agressivos.

É o que está a acontecer em muitas empresas onde se gastam fortunas em indemnizações para rescindir contratos de trabalho de colaboradores capazes e produtivos.

Por isso acredito que chegou a hora da verdade.

É agora que se vai ver quem sabe e quem não sabe gerir.

Estou na plateia para ver quem tem sabedoria, criatividade, conhecimento e preparação para aguentar a crise e sair dela vivo.

É agora que os "neo yuppies" vão ter a sua prova de fogo.

Acabou o recreio, chegou a hora de mostrarem se valem ou não o que ganham.

Artur Fernandes
Consultor
Artigo publicado no Jornal de Negócios - suplemento Negócios & Estratégia



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Antunes 102  06-06-2003 07:00 
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OSanto 21  06-06-2003 07:13 



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