Ora aqui ficam uns excertos do livro “Globalização” de George Soros que acabei de ler. O livro fala pouco de mercados financeiros, especificamente, sendo mais centrado na vertente de como melhorar as “Sociedades Abertas” e o consequente impacto nos mercados (financeiros, em ultima instancia), no entanto estes excertos fizeram-me reflectir portanto resolvi colocá-los aqui. Já agora acrescento que no “A Crise do Capitalismo Global” encontram-se algumas destas ideias, mais desenvolvidas. O objectivo do “Globalização” não é falar de mercados financeiros mas sim sugerir ideias de como desenvolver e melhorar o conceito de Globalização, principalmente neste período em que o reverso da medalha está à vista de todos.
“Os mercados revelam uma tendência para o equilíbrio quando lidam com quantidades conhecidas, mas os mercados financeiros são diferentes. Os mercados antecipam o futuro, mas o futuro que eles antecipam depende do modo como os mercados financeiros o antecipam no presente. Em vez de um resultado previsível, o futuro é incerto por natureza e não é provável que corresponda às expectativas. A tendência implícita nas expectativas do mercado é um dos factores que condicionam o rumo dos acontecimentos. Existe uma interacção nos dois sentidos entre expectativas e resultados a que eu chamo «reflexividade».”
Este importante conceito de «reflexividade» está amplamente desenvolvido no livro “A Crise do Capitalismo Global”.
“A ideia de que os preços do mercado são influenciados pelo sentimento do mercado não é nova. Mas a ideia de que os preços do mercado podem influenciar os chamados princípios básicos não é tão bem aceite. (…) Ninguém sabe dizer se a aceleração da produtividade que se registou nos últimos anos irá reverter-se nos próximos.”
“Defendo que a reflexividade cria uma melhor estrutura conceptual para nos permitir compreender como funcionam os mercados financeiros do que o conceito de equilíbrio. (…) É característico das situações reflexivas que exista uma divergência entre expectativas e resultados”
“A economia financeira parte do principio de que os mercados são eficientes e de que as expectativas são racionais. Na minha opinião, a teoria das expectativas racionais contradiz-se a si própria. Em condições de incerteza total, é irracional basearmos as nossas expectativas no pressuposto de que os preços assentem em expectativas racionais. Na prática, poucas pessoas o fazem.”
Está com muita piada esta parte! O conceito “Expectativas Racionais” que defendo no post “Just some Bear Thoughts” é o que ele diz de poucas pessoas o fazerem não tendo nada a ver com as Expectativas Racionais que aqui é falado (ou melhor, tem a ver porque é precisamente o oposto!) porque o que ele está a dizer por outras palavras é que a maioria usa a Expectativa Racional sobre o valor do preço no presente (a que eu interpreto com Expectativa Adaptativa, longe da Racional...). Enfim, devia ter usado outro conceito e já não ficava esta salganhada! Será que me fiz entender ou ainda criei mais confusão?!? :-)
“É certo que alguns estudos teóricos avançados, nomeadamente a segunda geração de teorias sobre as crises financeiras, tomaram em consideração os fenómenos reflexivos e reconheceram a hipótese de existência daquilo a que chamam «equilíbrios múltiplos». Mas o pensamento dominante continua a basear-se numa interpretação essencialmente deficiente e fundamentalista do modo de funcionamento dos mercados financeiros. E é este pensamento que começa a pôr em risco a estabilidade dos mercados financeiros globais.”
Eu nem sei bem o que ele implicitamente chama primeira geração de teorias sobre as crises financeiras (mas tenho uma ideia…) quanto mais a segunda geração! Alguém sabe indicar um caminho de “research” nesta matéria?
Enfim, este livro ensinou-me umas coisas, outras serviu-me de confirmação e outras fez-me sentir o agridoce da ignorância porque fala aqui de assuntos que estou completamente a leste!
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