Nunca houve em toda a montanha pastor como o Gabriel.
__ Merecias outras ovelhas, homem! __ disse-lhe um dia o prior, desanimado da anarquia dos seus paroquianos, quando viu o rebanho do rapaz atravessar a estrema dum centeio sem tirar uma dentada.
__ Deus me livre! Já me vejo maluco com estas...
Mentira. O padre tinha razão. Era uma pena ver tanta autoridade, tanta vocação, tanto jeito natural ao serviço de animais. Nem se pode fazer ideia! O carneiro mais teimoso, mais lorpa, mais churro, chegava às mãos de Gabriel e mudava de condição. Só não ficava a falar.
__ Que fazes ao gado, criatura? Parece que o enfeitiças!
__ Nada. Dou-lhe monte, como toda a gente.
...
__ Não há dúvida! Nem o mestre na escola!
...
__ O teu gado não berra,Gabriel?
E o teu cão não dá p'raí umas ladradelas, ó Cem?
M. Torga (adaptado...)
2.
E o homem contou uma história incrível. Moura já a conhecia, porque fez referência a uma consulta na cidade. Mas de nada lhe valeu, porque o homem queria contá-la outra vez desde o princípio. Receava decerto que lhe tivesse falhado algum pormenor e que isso lhe destrísse a esperança. Contava-a agora de novo:
__ Quando foi da sementeira, o patrão Arnaldo disse-me: " Ó Bailote, tu já não tens a mesma mão para semear". Porque eu, senhor doutor, tive sempre uma mão funda, assim grande, como um cocho de cortiça. Eu metia a mão ao saco e vinha cheia de semente. Atirava-a à terra e semeava uma jeira num ar.
Conta, bom homem, conta o teu sonho perdido. Tinhas, pois, uma mão de semeador bíblico. Atiravas a semente e a vida nascia a teus pés. Eras senhor da criação e o universo cumpria-se no teu gesto. E, enquanto o homem falava, eu olhava-lhe a face escurecida dos séculos, os olhos doridos da sua divindade morta. Imaginava-o outrora dominando a planície com a sua mão poderosa. A terra abria-se à sua passagem como à passagem de um deus. A terra conhecia-o seu irmão como à chuva e ao sol, identificado à sua força germinadora.
Espero que a tua história, Sol, não seja assim trite e nostálgica...Mas que te estás a afimar como um semeador bíblico, disso não duvido. Não deixes que as ondas de mazelas te caiam em cima.
V. Ferreira ( adaptado...)
3.
Que poder é esse teu, Vejo o que está dentro dos corpos, e às vezes o que está no interior da terra, vejo o que está por baixo da pele, e às vezes mesmo por baixo das roupas, mas só vejo quando estou em jejum, perco o dom quando muda o quarto da lua ...
...
...Blimunda vai à frente, Baltasar atrás, para que o não veja ela, para que saiba ele o que ela vê, quando lho disser.
E isto lhe diz, A mulher que está sentada no degrau daquela porta tem na barriga um filho varão, mas o menino leva duas voltas de cordão enroladas no pescoço... e este chão que pisamos tem por cima barro encarnado, por baixo areia branca, depois areia preta,... e ali vai um frade que leva nas tripas uma bicha solitária que ele tem que sustentar comendo por dois ou três... Faze com o teu espigão um buraco naquele lugar e encontrarás uma moeda de prata, e Baltasar fez o buraco e encontrou, Enganaste-te, Blimunda, a moeda é de ouro, Melhor para ti, e eu não devia ter arriscado, porque sempre confundo a prata com o ouro, mas em ser moeda e valiosa acertei, que mais queres, tens a verdade e o lucro...
Pois eu também queria ver por dentro...ver o que vai na tola dos homens do sistema para meter uns trocos no bolso, cuspir p'ra cima e assobiar p'ró lado...
J. Saramago ( adaptado...)
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