ERA UMA VEZ .... , também numa época de grandes incêndios, um grupo de miúdos “atinados” e de “bom senso”, que costumava brincar ao jogo da bola, ou das “escondidas” vivia numa muito pequena aldeia, no alto de um monte. Sempre que viam a aproximação de um pequeno incêndio ou algumas labaredas, corriam monte abaixo a avisar os familiares e amigos que trabalhavam na Vila ou se distraiam em amena cavaqueira e bebendo uns copos na tasca, de que as suas respectivas casas corriam grande perigo lá no cimo.
De imediato, largavam tudo e era ver toda a Vila a correr monte acima para evitar que o fogo se propagasse, mas ao chegarem lá verificavam que afinal tinham sido apenas umas pequenas labaredas que acabavam por se extinguir por elas próprias.
Esta cena repetiu-se várias vezes e perante a mesma situação de alerta dos miúdos, era cada vez menor o número daqueles que iam em socorro das casas da pequena aldeia porque já calculavam que “aquilo não seria nada”.
Houve um dia em que os miúdos verificaram que dessa vez o fogo era mais forte, mas chegados lá abaixo, ninguém lhes ligou meia , encarando com total indiferença o pedido de socorro alertado, pois calculavam eles que a história era a mesma . Se fossem lá acima como habitualmente, nada seria necessário fazer.
Só que dessa vez, o fogo queimava tudo com avassaladora sofreguidão ! ... e não sendo dominado lá no cimo, com a ajuda do vento, desceu monte abaixo com uma rapidez estonteante e quase destruiu completamente a Vila , deixando sem haveres muitos dos seus moradores !!!
Nessa mesma aldeia, desde meados de Março deste ano, um grupo de habitantes, talvez excessivamente cautelosos, mas ciosos dos seus haveres, bem como dos dos respectivos amigos e vizinhos, fizeram avisos frequentes aos habitantes da Vila de que havia um grande urso rondando a aldeia e que para alem do mal que podia fazer por lá, se chegasse à Vila poderia ser muito perigoso.
Também inicialmente alguns dos habitantes da Vila deram umas voltas pelo monte, mas nunca chegaram a ver qualquer urso e perante a insistência dos que continuavam a afirmar que ele rondava a aldeia, começaram também eles a desvalorizar os constantes avisos, deixando de dar ouvidos aos apregoadores das más novas.
Acontece que uma larga maioria dos habitantes da Vila, onde havia uma praça de touros, gostava muito de touradas e era vê-los a toda a hora, a comentarem a época tauromáquica, ou a informarem-se sobre o que se passava noutras “praças” e regalados com aqueles “passes” que os grandes apaixonados pelas lides tanto admiram. Dizia-se que havia um grande ganadeiro americano que fornecia touros de bom porte para todas as partes do globo e as touradas eram sempre excelentes.
Por sua vez, os que viviam na aldeia, lá no alto do monte e que por sinal também adoravam touradas, com a preocupação constante de que o dito urso aparecesse, iam aplicando as suas poupanças na construção de “cercas” e de outros meios que os protegessem do maldito animal que, no entanto, teimava em não aparecer.
Iam assim, sucessivamente perdendo os espectáculos que cá por baixo se realizavam e que proporcionavam bons rendimentos àqueles que estavam sempre presentes. Já não era o espectáculo em si que os alegrava e motivava, mas sim a “candonga” que podiam fazer com os bilhetes. Como a procura era muita e em todas as sessões a lotação esgotava, toca a comprar aos cem ingressos, preferencialmente em lugares ao sol, mais baratos e em quantidade suficiente, para si e para muitos outros e era vê-los a negociar a sua revenda, chegando ao ponto de que, os que os compravam ainda tinham mercado para nova revenda e assim iam fazendo uns dinheirinhos muito interessantes e todos assistiam ao maravilhoso sonho de ver touradas magníficas.
Estes riam-se dos medos dos outros de lá de cima e quando reunidos no café chegavam a formar-se grupos de moderados ou de totalmente opositores aos videntes do urso, gozando insistentemente com a situação. Havia até um jornal na terra onde muitos escreviam, comentando isso mesmo e o que pensavam das próximas corridas. Nesse jornal faziam-se prognósticos e havia muitos que usavam mais do que um pseudónimo, que lhes permitiam tomar posições diferentes nos seus comentários, sem se comprometerem.
Houve até, por isso mesmo vários aldeões que resolveram afastar-se do grupo para não ser achincalhados com piadas que achavam não merecer.... Afinal, eles só queriam alertar os outros para o perigo que todos corriam! Um deles chegou mesmo a apostar com uma simpática habitante da vila que o urso iria aparecer cá por baixo muito mais cedo que o que se pensava e que iria inclusive impedir a época tauromáquica, com os estragos que o bicho iria fazer. Tendo perdido a aposta e tratando-se de uma pessoa muito conceituada, decidiu emigrar, o que deixou consternados os seus amigos e aqueles que pensavam exactamente como ele, como era o meu caso. Quanto a mim , o seu grande erro foi um problema de “certezas absolutas” e de “timing”.
Outros, do grupo dos que tinham pensado ter visto o urso, mas julgando que o tinham visto com pouca nitidez e talvez pudessem estar confundidos, foram aderindo ao outro grupo, pensando que realmente não deveria haver qualquer urso, passando estes também a achincalhar os seus anteriores companheiros.
Cá por baixo, entretanto, por volta de Junho, as grandes lides e boas touradas a que se assistia até aí não se mantinham para sempre, e iam perdendo qualidade, passando a ser mais parecidas com garraiadas, que outra coisa. Passaram-se cerca de três meses de época morna e com o aproximar do fim de Setembro, perante novas insistências dos aldeões, de que o bicho tinha voltado a ser visto, as dúvidas começaram a instalar-se….
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....Até que um dia, quando menos se esperava, apareceu tudo destruído na vila, principalmente nas casas daqueles que nunca tomaram qualquer precaução sobre a eventual possibilidade de ser verdade o que se dizia. Outros houve, que tendo tomado algumas precauções viram os seus bens menos destruídos que os dos outros… Tinha sido um ENORME URSO o autor de tal situação !!!
Houve até um dos aldeões que acreditando sempre no que tinha visto, quis deixar essa história escrita, para mais tarde ser lida aos filhos pequenos e aos netos…..
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Ah !... agora me lembro, que quando era pequenito ouvi uma história muito parecida com esta, contada pelo meu avô !!!...
Curiosamente ele tinha gasto uma grande parte do que tinha, com as precauções tomadas com a construção das protecções que tinha mandado fazer em volta da quinta, e ainda com a manutenção e reforço dessas obras, sempre à espera do pior,... que tardava a acontecer, mas um irmão dele, mais novo, meu tio avô, que sempre o tinha considerado um idiota visionário, veio a ficar totalmente na miséria, só porque nunca lhe deu ouvidos. O certo é, que O QUE ELE PENSAVA QUE IRIA ACONTECER, ACONTECEU MESMO !!!
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