Em primeiro lugar, parece-me que a teoria de energia e operação universais do Ser Supremo é demasiado ousada para gerar a convicção num homem que avalie capazmente a fraqueza da razão humana e os apertados limites a que ela está confinada em todas as suas operações. Embora a cadeia de argumentos que a ela conduzem seja o que há de mais lógico, deve suscitar uma forte suspeita, se é que não uma absoluta certeza, de que ela nos levou muito para além do alcance das nossas faculdades, quando induz a conclusões tão extraordinárias e tão afastadas na vida e experiência comuns. Entrámos num país de fadas, muito antes de termos alcançado os últimos passos da nossa teoria; e aí não temos razão para confiar nos nossos métodos comuns de raciocínio ou para pensar que as nossas habituais analogias e probabilidades possuem alguma autoridade. A nossa linha é demasiado curta para sondar tão imensos abismos. E embora possamos lisonjear-nos de sermos guiados, em cada passo que damos, por uma espécie de verosimilitude e experiência, podemos estar certos de que essa experiência fantasista não tem autoridade quando assim a aplicamos a realidades que se encontram totalmente fora da esfera da experiência.
Em segundo lugar, não consigo encontrar força alguma nos argumentos em que se funda essa teoria. Ignoramos, é verdade, a maneira como os corpos agem uns sobre os outros; a sua força ou energia é inteiramente incompreensível. Mas, não ignoramos igualmente o modo como a força pela qual uma mente, mesmo a mente suprema, age sobre si mesma ou sobre o corpo? Donde é que nós, suplico, obtemos alguma ideia? Não temos em nós mesmos nenhum sentimento ou consciência desse poder. Nenhuma ideia temos do Ser Supremo a não ser o que aprendemos da reflexão sobre as nossas próprias faculdades. Se, por conseguinte, a nossa ignorância fosse uma boa razão para rejeitarmos qualquer coisa, seríamos conduzidos ao princípio de negar toda a energia no Ser Supremo bem como na matéria mais grosseira. Decerto, compreendemos tão pouco as operações de um como as da outra. É mais difícil pensar que o movimento pode provir do impulso do que originar-se talvez da volição? Tudo o que sabemos é a nossa profunda ignorância em ambos os casos.
Investigação sobre o entendimento humano (para Saka)
Sol Dado
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02-02-2004 13:47
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