PSOE de Zapatero vence legislativas em Espanha (act)
O PSOE foi ontem o vencedor das eleições legislativas em Espanha, num volte face que surpreendeu os analistas, com os eleitores espanhóis a decidirem por termo ao ciclo de poder do primeiro ministro José María Aznár durante os últimos oito anos.
O Partido Socialista Obrero de España (PSOE) foi ontem o vencedor das eleições legislativas em Espanha, num volte face que surpreendeu os analistas, com os eleitores espanhóis a decidirem por termo ao ciclo de poder liderado pelo Partido Popular (PP) do primeiro ministro José María Aznár durante os últimos oito anos.
O PSOE de José Luis Zapatero obteve 42,7% dos votos contra os 37,7% do PP – com 96% dos boletins contados - num resultado eleitoral que bateu todas as expectativas e que ocorre apenas três dias após o maior ataque terrorista de sempre à capital espanhola e onde morreram 200 pessoas e mais de 1.200 ficaram feridas.
Os resultados apurados concedem 164 assentos no parlamento ao PSOE contra os 148 do PP, mas que ficam abaixo dos 176 lugares que permitiriam ao novo Governo uma maioria absoluta.
«O terror deverá saber que nos encontrará pela frente», afirmou Zapatero no discurso da vitória, acrescentando que «a minha prioridade imediata será combater todas as formas de terrorismo», para depois solicitar um minuto de silêncio em memória das vítimas dos atentados em Madrid, da passada quinta-feira.
Apoio de Aznar à guerra contra o Iraque foi o preço da derrota
Os eleitores optaram por votar por uma inflexão à esquerda, numa altura em que Espanha se encontra de luto e em que o debate sobre quem perpetrou os ataques – a Al Qaeda ou os separatistas Bascos – ainda continua inflamado.
Alguns analistas políticos alertavam, nos últimos dias, para a possibilidade dos eleitores mudarem a intenção de voto à última da hora, se acreditassem que a Al Qaeda de Bin Laden tivesse sido responsável pelos ataques, em represália contra o apoio do Governo do PP aos EUA na guerra contra o Iraque.
Segundo as sondagens, cerca de 90% dos espanhóis esteve contra o conflito bem como contra o apoio de Madrid a Nova Iorque e Londres no objectivo de remover Saddam Hussein do poder.
«O Governo pagou o preço pelo seu envolvimento na guerra do Iraque, por causa das relações entre Aznar, o presidente americano George W. Bush e o primeiro ministro britânico Tony Blair», explicou à Reuters o reitor da Universidade Complutense em Madrid, Carlos Berzosa.
O mesmo académico acrescentou que «as eleições foram uma reacção a isso».
Mariano Rajoy, o líder do PP que se preparava para substituir Aznar no poder, afirmou, no discurso da derrota que se sentia «muito orgulhoso» por ter trabalhado com José María Aznar, tendo assegurado que saía do actual Governo «com as mãos limpas e deixando as contas (do país) claras e em dia».
As maiores vitórias reclamadas pelo PP incluem o equilíbrio orçamental e a redução da taxa de desemprego dos 22% em 1996 para os actuais 11%.
Durante o ciclo de oito anos de poder sob a influência do PP, a Espanha conheceu o maior período de crescimento económico da sua história, com uma evolução superior à média comunitária que veio dar ao país vizinho um maior poder no equilíbrio de forças no seio da União Europeia.
PSOE terá que procurar alianças para governar
Os socialistas do PSOE, ao falharem uma maioria absoluta, terão que procurar o apoio de uma coligação para governar com uma maior estabilidade, numa altura em que as incógnitas ainda são muitas.
Um dos apoios aventados pelos analistas políticos poderá vir do partido regional da Catalunha, o Convergencia e Unión (CiU), que garantiu 10 cadeiras no Parlamento, mas que mesmo assim são insuficientes para assegurar uma maioria absoluta na votação de leis naquele órgão de soberania. A Izquierda Unida obteve cinco assentos.
«Os catalães quererão, obviamente, algo em troca pelo seu apoio», explicou Rafael Pampillon, professor de economia no Instituto de Empresas, sedeado em Madrid. «É difícil dizer, nesta altura, com quem mais poderão negociar», acrescentou o docente em declarações à Bloomberg.
José Luís Rodriguez Sapatero afirmou, no discurso da vitória, que pretende consultar todas as forças políticas, já nesta segunda-feira, por forma a garantir a estabilidade política no país. «Temos que começar a trabalhar já amanhã» nesse sentido, disse o líder do PSOE.
IBEX com a evolução de queda após os ataques terroristas do passado dia 11
Gestão de empresas cotadas pode ser afectada com mudança
Durante os dois mandatos em que esteve no poder – o segundo com maioria absoluta – o Governo de Aznar concluiu operações de privatização de empresas como a operadora Telefónica, a petrolífera Repsol ou a eléctrica Endesa.
Ao mesmo tempo que o primeiro-ministro cessante completava uma maior abertura da economia espanhola ao mercado de capitais, foi igualmente colocando na gestão destas empresas executivos que lhe eram próximos.
«Haverá algumas dúvidas sobre o que acontecerá na Telefónica, Repsol, Endesa», afirmou à Bloomberg Enrique Marazuela, gestor de fundos na unidade espanhola da seguradora holandesa Aegon. «Teremos que ver qual o efeito da mudança de Governo na gestão destas empresas», acrescentou.
PSOE antevê mexidas nos impostos e impulso nas obras públicas
No programa eleitoral do PSOE, os socialistas propõem algumas alterações à forma como os rendimentos das empresas e famílias são tributados.
Zapatero pretende reduzir o número de escalões de impostos dos actuais seis para três, bem como avançar com um corte global na tributação. Os socialistas querem também aumentar o valor mínimo do salário a partir do qual se começam a pagar impostos.
O programa prevê igualmente uma quebra nos impostos sobre alguns bens alimentares essenciais e uma subida da tributação sobre o tabaco.
O líder do PSOE tem afirmado que quer aumentar os gastos do Estado na educação e na investigação e desenvolvimento como forma de incrementar a produtividade e competitividade das empresas espanholas.
O vencedor das eleições de ontem tem defendido uma subida do investimento público em áreas como a ferroviária – onde se inclui a ligação a Portugal por TGV – e auto-estradas.
Estas medidas poderão beneficiar empresas como as construtoras Ferrovial e Abertis, onde a portuguesa Brisa [Cot] detém 4% contra os 10% que a espanhola controla na empresa liderada por Vasco de Mello.
O Clubeinvest.com informa que nenhuma da informação
aqui facultada deverá ser entendida como conselho ou recomendação
de qualquer tipo de transacção ou investimento.