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 Morreu António Champalimaud
Autor: notíCIas_pt 
Data:   10-05-2004 05:25

Morreu António Champalimaud (act)

Figura incontornável na história económica do século XX português, António Champalimaud era senhor de um estilo único, de raciocínio fulminante. O homem mais rico de Portugal morreu sábado vítima de uma doença prolongada.
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(actualiza com mais factos e reacções)

Figura incontornável na história económica do século XX português, António Champalimaud era senhor de um estilo único, de raciocínio fulminante. O homem mais rico de Portugal morreu sábado vítima de uma doença prolongada.

O empresário português faleceu na sua residência, em Lisboa. O empresário, com 86 anos de idade, há muito que estava afastado da vida pública.

A fortuna de Champalimaud ultrapassa os 1,5 mil milhões de euros, sendo considerado pela revista Forbes, o homem mais rico de Portugal.

Champalimaud fez fortuna na banca, seguros e cimentos. Os principais activos do empresário são uma participação 2,5% do capital no maior banco espanhol, o Santander Central Hispano, bem como um lugar na administração propriedades em Portugal e uma fábrica de cimentos no Brasil que inaugurou em 1976, a Soeicom.

Em 1974, Champalimaud tinha cotadas na bolsa, a Cimentos de Leiria e do Tejo, a Siderurgia Nacional, a companhia de seguros Mundial e o Banco Pinto e Sotto Mayor.

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Reacções

«Tive a oportunidade de trabalhar com o Sr. Champalimaud já na fase final da sua notável vida profissional. Mas ainda pude apreciar de perto as qualidades de lucidez e determinação que o caracterizaram e distinguiram. Nem sempre foi compreendido mas nem por isso alguma vez desistiu. Testemunhei a última dessa incompreensões, particularmente injusta, a ponto de lhe terem sido atribuídas intenções que nunca teve. E de ter sido posto em causa o seu patriotismo, que nunca lhe vi esmorecer. Por isso, lhe presto uma última e sentida homenagem». Carlos Tavares Ministro da Economia e ex-quadro do grupo Totta

«Foi um dos maiores empresários portugueses de sempre, com uma capacidade de antevisão e de criação de riqueza ímpares, que tanta falta fazem ao país». António Horta Osório, Presidente do Grupo Totta

«O momento da morte não é o mais adequado para se fazerem balanços. Chegará a altura em que a história se encarregará dos balanços. Como é sabido, foi uma pessoa muito empreendedora e com muita energia com evidentes razões de proveito próprio. É certo que, muitas vezes, criou riqueza para o país, mas, nos últimos anos, os resultados também tiveram aspectos negativos». Sousa Franco, ex-Ministro das Finanças

«Conheci António Champalimaud como ministro das Finanças porque havia que desfazer o negócio acordado com o Santander e encontrar uma solução. Mantive apenas duas reuniões com António Champalimaud, onde sempre estiveram presentes também Emílio Botín e Amusátegui. Nessa altura, foi-lhe transmitido que uma solução teria de passar pela supressão da ilegalidade cometida. Manteve sempre uma postura correcta, respeitadora dos interesses do Estado. É óbvio que foi uma pessoa extremamente marcante na economia portuguesa. Recordo o facto de ter sido uma pessoa, que num contexto difícil, foi absolutamente respeitadora da posição do Estado». Pina Moura, ex-Ministro das Finanças

«Um dos maiores empresários da história recente. Era um homem de grande inteligência e cultura, dotado de uma energia muito forte». Proença de Carvalho, Advogado de António Champalimaud no Caso Sommer

«Era um industrial com excepcional capacidade de iniciativa. Recordo Champalimaud como português de grande visão (...) que muito contribuiu para a economia portuguesa». Durão Barroso, Primeiro-ministro

«Foi das pessoas que mais me impressionou em termos de capacidade de enfrentar problemas complicados, como só fazem os grandes empresários. Apesar de só o ter conhecido em 1999, e numa fase em que já se encontrava muito diminuído, quase cego, constatei que o seu fulgor era patente». José Miguel Júdice , Bastonário da Ordem dos Advogados. Foi seu advogado em 1999

«Era uma pessoa de extrema objectividade, rigor e determinação. Não era um homem muito fácil para dialogar e negociar. O país perdeu, com as nacionalizações, um grande empresário. As nacionalizações foram um erro crasso e isso foi bastante visível com Champalimaud. Mais tarde, reconstruiu com sucesso a sua vida no Brasil e muito me chocou que alguns, que participaram nas nacionalizações, o tivessem considerado, por altura do seu regresso a Portugal, quase como um ‘salvador da pátria’. Foi de uma enorme incoerência». Mira Amaral, Presidente da Caixa Geral de Depósitos

«Em determinado momento acrescentou valor ao país e o país deve-lhe por isso». Jardim Gonçalves, Presidente do BCP

«Era um homem de cultura que sabia e apreciava pintura, literatura, História. Pessoalmente tive um enorme gosto em trabalhar para ele». Carlos Santos Ferreira, ex-presidente da Mundial Confiança

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Há vida além de Champalimaud?


Um dia Luís Mira Amaral recebeu um fax no seu gabinete, que dizia mais ou menos o seguinte: «Faça-me o favor de não privatizar já a Siderurgia Nacional, porque eu ainda estou a preparar-me». Assinado: António Champalimaud.

O então ministro da Indústria e Energia recebeu aquela mensagem como uma ordem inaceitável. Não se ofendeu, porque fez a interpretação que os anos seguintes acabariam por confirmar como absolutamente correcta - aquele homem ainda se considerava dono da parte de Portugal que lhe tinha sido confiscada em 1974.

A relação de António Champalimaud com o país, com os vários governos, com os sucessivos ministros e secretários de Estado, pautou-se nestas três décadas de democracia segundo este princípio - vocês devem-me, alguém há-de pagar.

E, assim, aquilo a que toda a gente chamava de «privatizações», para ele eram meras «devoluções». O Estado recebia um «encaixe financeiro», mas Champalimaud pagava como se tratasse de uma injustiça reincidente.

Até na hora de vender, sobretudo naquele marcante momento em que trocou por liquidez todo o grupo reconstruído, a última coisa que o velho patriarca achava que tinha de fazer, antes de apertar a mão ao senhor Emílio Botin, era dar explicações a quem quer que fosse. Autorização? Menos ainda.

A última batalha

Mas foi na base da autoridade que o Estado, através do então ministro Sousa Franco, tentou impedir a gigantesca transferência de activos do sistema financeiro português para o exterior. Ainda para mais, Espanha...

No dia 7 de Abril do ano 2000, o Banco Santander comunicava ao mercado a aquisição do Banco Pinto & Sotto Mayor, do Banco Totta & Açores e do Crédito Predial Português. O primeiro estava já «cativado» para o BCP, numa operação intermediada pela Caixa Geral de Depósitos, que viria a ficar com a seguradora Mundial Confiança.

Era o desfecho possível de um acordo complicadíssimo. O negócio, propriamente dito, nem por isso: «foram negociações bastante rápidas», confirmou o presidente do Santander, Emílio Botín, ao Jornal de Negócios, na sua recente passagem por Portugal - «temos uma excelente relação e sempre que venho a Lisboa, encontro-me com ele».

Botin chegou a 19 de Maio para conversar com Champalimaud e, a 7 de Junho, o negócio fica fechado, conta Filipe Fernandes no seu recente livro "Fortunas & Negócios": «o acordo está feito depois de cinco dias passados no Hotel Ritz, em que se reuniram os dois estados-maiores».

O pior vinha depois. Sousa Franco já estava desconfiado - sabia que algo se passava «através de contactos informais de Champalimaud junto de elementos do Executivo» - e tinha decidido travar a operação a qualquer custo: impugnação política, fiscalizações e devassas ao Grupo, pressão junto das entidades de supervisão.

O facto é que, já com outro ministro das Finanças, Joaquim Pina Moura, uma base de entendimento teve de ser encontrada.

António Champalimaud saía da banca por mais de 300 milhões de contos, ficava como accionista de referência do maior banco espanhol e deixava para trás um rasto de angústia nacional que até hoje subsiste. Era também a última batalha do guerreiro.

Deixava fortuna, a maior do país, como a revista Forbes voltou a classificar, estimando-a em 2,5 mil milhões de euros. Deixava herdeiros. Deixava uma longa história. Mas o império que construiu, de certa forma, morre com ele.


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 Morreu António Champalimaud  
notíCIas_pt 345  10-05-2004 05:25 



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