A minha relação com a forma de expressão escrita é realmente extremamente curiosa.
Sou uma pessoa que se orgulha de ter como um dos seus maiores prazeres de vida, passar uma tarde deitado na rede à sombra dos pinheiros mansos a ler. Penso que herdei este gosto de ler da minha mãe. Muitas vezes eu próprio fico espantado comigo tal é a velocidade com que leio um livro. É algo que toma conta de mim; sinto-me completamente envolvido no que estou a ler e não “descanço” enquanto não acabo o livro, talvez com medo de perder o prazer que estou a ter. Que nunca desaparece!
Mas o que realmente é curioso, a meu ver, é que apesar de ler bastante sobre os mais variados assuntos, em que a sua maioria anda em torno de temas como filosofia, política, religião, história e obviamente bolsa, de muitos e variados autores, tanto portugueses como estrangeiros, de livros em português como em inglês, sinto que apesar de toda a minha leitura, não consigo expressar-me como gostaria, na forma escrita.
Poder-se-á dizer que ler muito, em nada me facilita a capacidade de expressão escrita. O que é engraçado, dado que estou habituado a saber fazer o quer que seja desde que me expliquem uma vez ou que veja fazer, portanto, podia-se pensar que lendo bastante, de alguma forma ajudaria.
“Uma pessoa que tenha facilidade de expressão oral, também a tem na forma escrita. E vice-versa.” Foi o que eu ouvi uma vez. Infelizmente não posso concordar. Considero que a frase começa com uma Não-Verdade. A meu ver não existe, por mais que queiramos acreditar, uma “Facilidade de Expressão”. Ninguém, a meu ver, tem essa capacidade. Basta que se pense que nada do que se usa para nos expressarmos é o que realmente sentimos; é sim uma tentativa por aproximação, na melhor das hipoteses. Logo, uma linguagem, por mais primitiva ou evoluidade que seja, nunca será o fiel mensageiro que pensamos. Apesar de muitas vezes pensarmos com as palavras.
Pensamos mal?! Ou será que comunicamos bem quando muitos não percebem o que dizemos?
Até o simples cair de uma lágrima tem diferentes significados! Poderá ser uma lagrima de alegria ou tristeza! Nunca se saberá de que tipo é só por escrever que alguém deixou cair uma lágrima...
Pode-se dizer que uma pessoa deixou cair uma lágrima e ao dizê-lo, fazer uma cara triste. Aí sim, consegue-se transmitir a ideia que essa lágrima caiu por uma “razão” que provocou tristeza. Temos então uma outra forma de comunicar: a linguagem corporal.
No caso de a forma de expressão ser escrita, a linguagem corporal desaparece muito.
A meu ver, este é o verdadeiro motivo porque não me sinto capaz de me expressar como desejo, da forma escrita. Por não ser possivel usar correctamente a linguagem corporal. Tento colmatar esta dificuldade, quando quero, escrevendo de uma forma pessoal ou se preferirem, íntima. Por exemplo, eu não tinha necessidade nenhuma de falar na minha mãe no ínicio do texto mas só o simples facto de a palavra mãe aparecer, torna (espero eu) toda a espectativa em torno do que mais à frente está escrito como algo revelador ou se quiserem, com cariz de franquidão e confissão. Porque há poucas palavras que tenham uma conotação tão intimista e honesta, aliada a cumplicidade, como a palavra mãe. Mesmo que alguém, por uma grande infelicidade, não se dê bem com a sua mãe! Porque o estereotipo foi criado...
Desde que me conheço que desenvolvo o “culto” de conseguir perceber o que uma pessoa consegue dizer sem usar as palavras. Mesmo, ou principalmente, o que não quer dizer. A primeira utilidade desta capacidade de realmente conhecer as pessoas que me rodeiam sem que elas mo digam explicitamente, foi usada desde muito novo para “conquistar” miudas! Tornou-se para mim extremamente facil, simplesmente por observar uma miuda, saber como ela “é”. Saber que “teclas” tocar para que logo desde o ínicio seja establecida uma grande empatia.Era giro sentar-me na sala de espera da Cambridge School antes das aulas de inglês e francês, desde os 9 anos de idade, e tentar avaliar as pessoas que estão à minha frente. As raparigas. E saber dizer-me quais as que teria maior probabilidade de “sucesso”. Talvez esta capacidade de avaliação para determinar o que devo dizer, ou talvez ainda mais importante, o que não devo dizer, seja uma razão para ter sempre “curtido” com miudas mais velhas que eu (para grande inveja dos meus amigos)!
De uma forma genérica, esta aptidão para este tipo de “leitura” serve como uma vantagem nas mais variadas situações. Quantas vezes não se torna fundamental saber avaliar a pessoa que está à nossa frente por forma a que se consiga que um provável “não” nunca venha a ser dito? Um “sim” nos seja oferecido sem ser pedido, apesar de desejado? Ou melhor ainda, saber “ver” quando uma pessoa diz sim, e pensa não.
Muitas técnicas de comunicação por linguagem corporal estão estudadas: um político quando entrevistado na televisão, nunca fala sem que pelo menos uma das mãos ou mesmo os dois braços, estejam apoiados na mesa que está à sua frente; é uma forma de transmitir que não está “distanciado” do entrevistador e não se sente (apesar de por vezes se sentir) “fechado” sobre os assuntos que lhe são colocados a comentar.
Quando uma pessoa mente, tem a tendência de tocar na face, em especial, no nariz. Para concluir esta pequena amostra de sinais por linguagem corporal, conto por curiosidade que quando uma pessoa está e se sente realmente apaixonada, estando a olhar para a pessoa por quem sente essa paixão, o circulo interior preto dos olhos dilata e retrai-se de uma forma ritmada, apesar de estar exposto sempre à mesma luminosidade. Neste caso esta linguagem corporal é realizada inconscientemente, o que a torna ainda mais interessante. Portanto, se resolver mentir a uma miuda dizendo-lhe que está apaixonado por ela, tente não levar a mão ao nariz e desviar o olhar, mas por outro lado não deixe que a miuda lhe olhe fixamente nos olhos não vá ela saber!... Olhos fechados e um beijo costuma resolver a situação!... :-)
Uma das partes que achei mais curiosas no livro Reminiscences of a stock operator, foi a parte em que Livermore descreve como um vendedor de livros o convenceu a comprar uma colectânea em poucos minutos. O pormenor de Livermore ter falado na situação sem a descrever, a meu ver, revela uma das suas caracteristicas menos falada em todo o livro mas que certamente a tinha. O facto de não a mencionar em todo o livro é em si mais uma evidência de que possuia essa caracteristica. Livermore era uma pessoa extremamente inteligente. Mostra inteligencia ao nao descrever como o vendedor o convenceu a comprar os livros dado que se o fizesse estaria a “mostrar-se”, revelar-se. Mostra inteligencia ao não referir no seu livro que é necessário ser-se inteligente para ser bem sucedido nos mercados, pelo simples facto de nao realçar este facto, dado que se o fizesse... nao estaria a ser inteligente! Mostra inteligencia por ter mudado a sua forma de negociar quando constatou que em Nova York o seu “sistema” de bucket shops não funcionava. Mostra inteligencia porque descobriu a forma de continuar a fazer o que fazia nas bucket shops, apesar de mudar o seu sistema: Ganhar!
E este é o âmago da questão...
Qualquer que seja a actividade, é importante saber conhecer as pessoas, saber “vê-las”...
Para o vendedor, foi-lhe útil esta qualidade para saber que tipo de pessoa era Livermore por forma a atingir o seu objectivo.
Livermore também teria de ter esta qualidade dado que explorou os sentimentos de milhares de pessoas, “gritados” na tape, para poder lucrar. Porque será que Livermore fez questão de falar neste episódio? Não terá Livermore sentido na pele, da forma mais surpreendente, que também ele pode ser “lido”?
Porque falo disto “tudo”?
Afinal de contas, este é um forum de bolsa e eu não estou a mostrar gráficos, falar de lows e highs, médias móveis, LT’s, EURUSD, SP500, etc...
Talvez para chamar a atenção que mais importante que saber fazer rectas, escolher os indicadores que mais gosta e defende como defenderia a sua honra, tentar mostrar que faz uns trades à maneira, etc, deveria pensar no seguinte:
Você é diferente porquê? O que o distingue dos milhoes de pessoas que negoceiam consigo, ou “contra-sigo”? Que ninguem tenha dúvidas que nesta selva, só há uma regra; tirar o dinheiro aos outros. É que todos nós (espero eu) negociamos com o objectivo de fazer dinheiro. Tirar dinheiro aos outros. Portanto, talvez não seja má ideia pensar o que nos torna especiais para conseguirmos o que outros não vão conseguir.
Daí o chavão: “Conhece-te”. Assim, saberás onde és especial.
É com “edges” que se desbrava caminho. Quais sãos os seus edges? As suas vantagens competitivas, são realmente suas ou são de tanta gente que já nem são vantagens?
Uma vantagem é imutável?
Para que não se diga que escrevi isto tudo e não falei de mercados concretamente, aqui fica um breve comentário: não faço a mínima ideia do que os mercados vão fazer, nem quero saber :-)
Mas uma coisa é certa; estas ultimas semanas foram demasiado fáceis! :-)
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