Autor: João Henriques
Data: 10-11-2004 04:53
Depois de um início de semana com muito pouca volatilidade, o mercado aguarda dois números importantes. Primeiro, o défice comercial, que tem mais influência no mercado cambial, e que é divulgado às 13:30, segundo, as taxas de juro e respectivo comunicado do Fed, que é divulgado às 19:15.
Relativamente ao défice comercial, o número ganha importância, devido a estar em níveis recordes e estar a por pressão negativa sobre o dólar. O que acontece é que apesar da taxa de poupança dos particulares estar em apenas 1%, quando na Europa, por exemplo é de 9%, e as taxas de juro estarem a aumentar, a propensão para o consumo continua a ser muito elevada, obrigando ao contínuo crescimento das importações, as quais elevam-se ainda mais devido ao aumento do preço do petróleo. O défice comercial com a China, por exemplo, é actualmente maior que o défice comercial total há oito anos atrás.
O crescimento das importações não tem sido compensado na totalidade pelo aumento das exportações, que têm sido impulsionadas pela desvalorização do dólar, e deste modo, o défice comercial atingiu os 55 mil milhões de dólares em Junho e apesar de uma melhoria em Julho, voltou a aumentar em Agosto para os 54 mil milhões. As expectativas para Setembro são novamente de 54 mil milhões de dólares.
A balança comercial é a principal componente da balança corrente, e estando o défice comercial em níveis recordes, a balança corrente também tem crescido fortemente, ultrapassando já os 5,5% do PIB. Os 5% são considerados um valor muito importante, porque segundo um estudo do Fed, é o valor médio a partir do qual se inicia uma correcção do défice, com implicações de desvalorização da moeda, subida dos juros e diminuição do crescimento económico.
Mas porque razão a moeda desvaloriza? Muito sumariamente, porque para haver uma diminuição do défice comercial, tem necessariamente que haver um abrandamento do consumo, mas para que o crescimento económico se mantenha a níveis aceitáveis tem de haver uma compensação, e neste caso pela via das exportações. A desvalorização da moeda permite que os produtos norte-americanos sejam mais competitivos a nível global. Além disso, um elevado défice corrente implica que o estrangeiro está a ter um papel cada vez mais importante no financiamento da economia do país deficitário, devido à diminuição da poupança doméstica. E quando o défice sobe acima de um certo nível, normalmente 5%, crescem receios que essa economia possa vir a abrandar e existe uma menor procura da moeda, por parte dos privados. Actualmente, e segundo a Morgan Stanley, a economia dos Estados Unidos absorve 80% da poupança mundial, ou seja, uma entrada diária de 2,6 mil milhões de dólares.
Relativamente à decisão de taxas de juro, é esperado uma subida de 25 pontos base para os 2%, e as atenções vão estar viradas para o comunicado do Fed, para se retirar pistas sobre se haverá já em Dezembro outra subida das taxas em 25 pb, a qual ainda não está totalmente descontada pelo mercado. A verdade, é que os últimos dados sobre a inflação indicam uma diminuição da mesma, e se em Junho a variação anual estava em 3,3%, devido essencialmente ao forte aumento do preço do petróleo, actualmente é de 2,5%, porque apesar dos preços do petróleo terem continuado a bater recordes a economia foi-se ajustando. Mas a inflação subjacente, ou seja, excluindo os preços da alimentação e energia, tem vindo a subir e atingiu os 2%, o valor máximo de dois anos.
Ainda a considerar, os últimos dados sobre a economia, que têm sido mistos. Por um lado, o ultimo relatório do emprego foi muito acima do esperado, ainda que com ajuda do emprego temporário, devido à reconstrução das zonas afectadas pelos furacões, por outro, o consumo e rendimento dos privados foi ligeiramente abaixo do esperado e o índice de preços dos gastos pessoais, medida indicada pelo Fed como sua favorita, tem estado estável em 1,5%. A adicionar, a capacidade utilizada na indústria está em 77%, abaixo dos 82%, que costuma ser o valor impulsionador de inflação.
Bons negócios para todos!
João Henriques
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