Artigo publicado no The Guardian, Sábado, 25 de Janeiro de 2003, por Terry Jones (Monty Python):
Estou excitadíssimo com a última justificação de George Bush para
bombardear o Iraque: perdeu a paciência. Pois bem, eu também!
Faz já algum tempo que estou pelos cabelos com o Sr. Johnson, que
habita umas portas abaixo da minha, lá na rua. Quer dizer, com ele e com o Sr. Patel,o dono da loja de alimentos dietéticos. Ambos me olham com um
olhar curioso e tenho a certeza que o Sr. Johnson prepara um qualquer
golpe perverso contra mim, mas ainda não consegui descobrir o quê.
Fui lá dar umas voltas, a tentar ver o que é que ele congemina, mas
está tudo muito bem escondido. Isto só para vos dizer até que ponto ele é
vicioso.
Quanto ao Sr. Patel, não me perguntem como é que eu sei mas sei-o de
fontes seguras, é na realidade um assassino em série, um homicida de
massa.
Distribuí vários avisos pela rua a dizer que se não formos os
primeiros a agir seremos todos mortos, um a um. Houve vizinhos que me
perguntaram porquê, se eu tinha provas, se não ia à polícia. Pura e
simplesmente ridículo. A polícia dirá que precisa de provas de um crime
para poder inculpar os meus vizinhos. Para resolver o problema, com eles,
será necessário passar por eternas autorizações, por discussões sem fim
sobre o direito ou não de uma acção preventiva, e durante todo esse tempo
o Sr. Johnson estará a finalizar os seus planos para me fazer sofrer
terríveis coisas e o Sr. Patel estará a matar secretamente pessoas. Como
sou o único na rua a possuir um arsenal razoável de armas automáticas,
acho que terei de ser eu a fazer reinar a paz. Mas, até há bem pouco
tempo, existia uma pequena dificuldade.
Felizmente, agora, George W. Bush veio demonstrar que tudo o que preciso é de perder a paciência, e então posso intervir e fazer tudo o que
quiser. E olhemos as coisas de frente, a política cuidadosamente
eflectida do Sr. Bush em relação ao Iraque é a única maneira de manter a
paz e a segurança internacionais. A única maneira segura de parar com os
atentados-suicídas dos fundamentalistas muçulmanos contra os EUA e a
Inglaterra é bombardear alguns países muçulmanos que nunca nos ameaçaram.
É por isso que vou rebentar com a garagem do Sr. Johnson e matar a sua mulher e os seus filhos. É preciso ser o primeiro a atacar! Servir-lhes-á
de lição. Depois, ele deixar-nos-á em paz e deixará de me olhar desta
maneira completamente inaceitável.
O Sr. Bush mostra bem que tudo o que é preciso saber antes de
bombardear o Iraque é que Saddam é um homem muito mau e que possui armas de destruição massiva - mesmo se ninguém as consegue encontrar. Estou certo de ter tantas razões para matar a mulher e os filhos do Sr. Johnson como o Sr. Bush tem para bombardear o Iraque. A perspectiva a longo prazo do sr. Bush é tornar o mundo mais seguro, eliminando os Estados-bandidos e o terrorismo. É um objectivo a muito longo prazo, pois como saber quando estará terminado? Como é que o Sr.
Bush saberá que eliminou todos os terroristas? Quando todos os terroristas forem mortos? Mas um terrorista só se torna terrorista a partir do momento que comete um acto de terror. Que fazer dos pretendentes-terroristas? São esses que deve verdadeiramente tentar eliminar, a partir do momento em que a maioria dos terroristas conhecidos, ao tornarem-se bombas humanas, se eliminaram já por si próprios. Talvez o Sr. Bush precise de liquidar toda a gente que possa eventualmente tornar-se num terrorista? Talvez não esteja seguro de ter terminado a sua missão antes de todo o fundamentalista muçulmano ter sido morto? Como saber se um muçulmano é fundamentalista? O Sr. Bush deve eliminar todos os muçulmanos.
Pois na minha rua é igual. O Sr. Johnson e o Sr. Patel não passam da
ponta do iceberg. Há dezenas de outras pessoas na rua de que eu não gosto e que, francamente, me olham de uma maneira esquisita. Ninguém estará verdadeiramente tranquilo aqui enquanto eu as não matar a todas.
A minha mulher diz que se calhar estou a ir longe de mais, mas eu
respondo-lhe sempre que utilizo a mesma lógica que o presidente dos
Estados Unidos. Isso fá-la calar-se. Como o Sr. Bush, estou no fim da
paciência e se isso é uma razão suficiente para o presidente, é-a também
para mim. Dou a toda a rua duas semanas, não, 10 dias, para me entregar
todos os estrangeiros e sequestradores interplanetários, os fora-da-lei
galácticos e os cabeças pensantes dos terroristas interestelares, e se
eles mos não entregarem gentilmente dizendo-me "obrigado", bombardeio a rua inteira até ao fim dos tempos...
É tão sensato quanto o que pretende George W. Bush e, em comparação
com o que ele se propõe, a minha política não destruirá mais que uma rua.
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