Bolsa escapa às incertezas sobre défice orçamental
O eventual incumprimento do PEC este ano afecta a credibilidade do mercado face ao exterior. Mas sendo a bolsa uma história de empresas, aos investidores interessam mais as notícias de microeconomia.
O eventual incumprimento do PEC este ano afecta a credibilidade do mercado face ao exterior. Mas sendo a bolsa uma história de empresas, aos investidores interessam mais as notícias de microeconomia.
O «chumbo» do Eurostat à proposta do governo português de aluguer de imóveis, como medida extraordinária para o cumprimento do limite de 3% do défice orçamental imposto por Bruxelas, não teve uma ressonância directa no mercado de capitais, que encerrou ontem praticamente inalterado face à véspera, com uma descida de 0,03% para os 7580,71 pontos.
O facto de muitos investidores estrangeiros já se terem retirado da praça nacional quando Jorge Sampaio anunciou a intenção de dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas pode explicar a ausência de fortes oscilações na praça lisboeta.
«Quem tinha que sair, já saiu», referiu ao Jornal de Negócios Nuno Serafim, da Luso Partners. «Na realidade», diz, «já toda a gente sabia que o cumprimento dos 3% do PEC só seria conseguido à custa de medidas extraordinárias, porque na realidade, em termos líquidos é evidente a existência de défice acima dos 3%», o que explica a ausência de reacção do mercado.
«Para os investidores portugueses, que já se habituaram à falta de rigor das contas do Estado, esta situação não traz nada de novo», afirmou ao Jornal de Negócios José Santos Teixeira, administrador da SGF - Sociedade Gestora de Fundos.
«Não se pode generalizar e dizer que as dúvidas em relação ao cumprimento do Pacto de Estabilidade têm um impacto directo e imediato na bolsa, os investidores não reagem de forma imediata a este tipo de questões», afirmou Francisco Garcia dos Santos, presidente da Associação Portuguesa de Corretores.
Também para Vasco Balixa, analista da Ok2 Deal, os investidores só reagiriam de forma mais acentuada se as notícias se relacionassem de forma directa com as empresas. Na sua opinião, «os investidores ligam mais à parte microeconómica e, nesse sentido, se houver notícias positivas em relação às empresas o impacto do facto de Portugal não conseguir cumprir o défice dilui-se».
Os especialistas contactados pelo Jornal de Negócios, consideram que a credibilidade do país (e da bolsa) ficou mais beliscada com a revisão em baixa do «rating» da dívida da República por parte da Standard & Poor’s quando foi anunciado o Orçamento do Estado, do que com a questão do cumprimento das metas definidas por Bruxelas.
Na opinião de Santos Teixeira, o essencial para recuperar a credibilidade do país e, dessa forma, atrair mais investidores e mais capital para a bolsa «é que o Estado português tome medidas de fundo para não ser obrigado a recorrer a operações de cosmética».
Impacto na bolsa, só indirecto
O eventual incumprimento do Pacto de Estabilidade e Crescimento só teria consequências na bolsa de forma indirecta, diz Garcia dos Santos.
«Só se pode avaliar esse impacto para cada uma das empresas, individualmente, e a médio/longo prazo».
«Se realmente não for cumprido o défice, então Portugal corre o risco de sofrer penalizações de Bruxelas, entre as quais, a perda de fundos comunitários», acrescenta.
As cotadas cujo desenvolvimento de projectos esteja dependente destas receitas, podem «vir a ver esses montantes negados e, por essa via, ver os seus resultados penalizados».
Bolsa escapa às incertezas sobre défice orçamental
notíCIas_pt
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22-12-2004 02:15
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