Nem o gesto característico de Eusébio, segundos antes de se iniciar o desafio com o Anderlecht, serviu para os jogadores do Benfica virarem a página mais importante da história recente do clube. Com a garra do costume, o "Rei" abandonou o relvado do Constant Vanden Stock de punhos fechados e a vibrar na direcção dos onze eleitos por Trapattoni, num apelo frenético ao espírito de conquista das águias.
Incapaz de evitar nova humilhação na Europa, o Benfica terminou o jogo de Bruxelas em condições de envergonhar todos aqueles que se deslocaram a Bélgica na expectativa de ver a equipa qualificar-se para a Liga dos Campeões. A única resposta a Eusébio foi dada por Petit assim que acabou o jogo, tapando a cara com a camisola, numa imagem de desalento que fez tristemente lembrar a oferecida por Andrade naquela noite em que o Benfica sofreu sete golos do Celta.
À semelhança do que aconteceu em Vigo, quando foi orientado por Jupp Heynckes, também nesta última terça-feira o emblema da Luz tinha no banco um grande nome do futebol mundial e será totalmente injusto atribuir responsabilidades exclusivas a Trapattoni pelo segundo insucesso consecutivo na época. Dos jogadores contratados neste defeso, quantos deles foram indicados pelo italiano? Karadas? Talvez... Foi um dos poucos que chegaram depois de ter sido divulgado o nome do treinador, a esta hora um homem muito mais vítima da conjuntura encarnada do que culpado da mesma.
Não foi ele quem se atrasou na sucessão de Camacho; não foi ele quem escolheu a maior parte dos jogadores (se calhar, o único que queria, Adani, não lhe conseguiram dar...); não foi ele quem acreditou ser Everson o sucessor de Tiago e, também, não foi ele quem andou a vender ilusões, acenando com cenários de mirabolantes conquistas.
Goste-se ou não de Trap ele é, nesta altura, a única grande figura no balneário capaz de manter viva a ténue chama de esperança entre os adeptos. Estando o clube numa grande encruzilhada (não despontam novos valores, os reforços são de qualidade mediana e jogadores como Zahovic já passaram há muito o apogeu), só a sapiência que obrigatoriamente se reconhecerá à Velha Raposa permite pensar em melhores dias, sem comparação com as lições de Coimbra ou Bruxelas, nas quais houve sempre areia ou Aruna a mais para a "camioneta" encarnada...
Os pecados de Trap
Giovanni Trapattoni, não podendo suportar todas as responsabilidades, também tem, naturalmente, culpas no desastroso início de temporada dos encarnados. Há "mistérios" que só o italiano pode desvendar.
Por que saiu Yannick da equipa? Com a baliza não se brinca. Se um guarda-redes está bem, agarrou o lugar, porquê mudá-lo? Trap fez a vontade a um jogador do Anderlecht ("Yannick não pareceu grande coisa na Luz") e já terá psicologicamente destroçado um dos três bons guardiões do Benfica.
Por que joga Dos Santos? O casamento fez assim tão mal a Fyssas que o lateral-esquerdo campeão da Europa só consegue jogar pela selecção? O Anderlecht explorou como quis o flanco da defesa encarnada nas duas mãos. E com Dos Santos atrás, Simão nunca mais foi o mesmo...
Por que é suplente Ricardo Rocha? De intransferível a sacrificado. Inviabilizada a saída do central para a Real Sociedad por ser considerado peça essencial (aos olhos do técnico), agora é dos activos mais desvalorizados. Se calhar, no dia em que renovar, perceberá melhor o que se passou com Manuel Fernandes...
Por que tardou Manuel Fernandes? Não pode ser coincidência. Assim que renovou contrato, o jovem jogador passou da equipa de juniores para titular em Bruxelas. Um treinador com o estatuto de Trapattoni não pode sujeitar-se a influências desta natureza no seu trabalho.
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