Quem Foi William O'Neil

William O'Neil não nasceu rico. Começou como corretor na Hayden Stone & Co. nos anos 1950, e rapidamente percebeu que os investidores com melhores resultados não eram os que tinham mais informação — eram os que tinham um método. Aos 30 anos, comprou um lugar na Bolsa de Nova Iorque e fundou a sua própria firma de research. Em 1984, fundou o Investors Business Daily (IBD), um jornal financeiro que competia directamente com o Wall Street Journal mas com uma abordagem radicalmente diferente: em vez de notícias gerais, o IBD focava-se em dados quantificáveis sobre cada acção — lucros, força relativa, acumulação institucional, ratings proprietários.

O'Neil acreditava que os dados deviam guiar todas as decisões de investimento. Não queria saber de opiniões, de «dicas quentes» ou de previsões macroeconómicas. Queria números: esta acção tem lucros a crescer? A força relativa é superior a 80% do mercado? As instituições estão a comprar ou a vender? Há um padrão gráfico válido? Se as respostas fossem todas «sim», comprava. Se não, passava à frente. Simples, rigoroso e repetível.

Os Sete Critérios do CAN SLIM

C — Current Quarterly Earnings (Lucros Trimestrais Actuais). O primeiro filtro exige que a acção apresente crescimento de lucros trimestrais de pelo menos 25% face ao período homólogo. Não basta que a empresa seja lucrativa — os lucros têm de estar a acelerar. Uma empresa que ganhava 0,50€ por acção no Q3 do ano passado deve ganhar pelo menos 0,63€ no Q3 deste ano. Quanto maior a aceleração, melhor. O'Neil descobriu que as maiores vencedoras da bolsa tinham, em média, crescimentos de lucros trimestrais de 70% ou mais antes de dispararem.

A — Annual Earnings Growth (Crescimento Anual de Lucros). Lucros trimestrais fortes podem ser pontuais. O segundo critério exige crescimento anual de lucros de pelo menos 25% ao longo dos últimos três a cinco anos. Isto filtra empresas com uma trajectória consistente de crescimento, não apenas um trimestre excepcional. Adicionalmente, o retorno sobre o capital próprio deve ser superior a 17%.

N — New Products, Management or Price Highs (Novidades). As grandes movimentações bolsistas são quase sempre impulsionadas por algo novo: um novo produto revolucionário (o iPhone da Apple), uma nova gestão transformadora, um novo sector emergente, ou simplesmente um novo máximo de preço (que indica que o mercado está a reconhecer algo positivo). O'Neil era enfático: não se deve ter medo de comprar acções em máximos históricos. As acções baratas são baratas por alguma razão.

S — Supply and Demand (Oferta e Procura). Empresas com capitalização reduzida ou float pequeno (poucas acções disponíveis no mercado) tendem a fazer movimentos mais explosivos quando a procura aumenta. Se uma empresa tem apenas 10 milhões de acções em circulação e os fundos institucionais começam a comprar, o preço sobe rapidamente. Adicionalmente, programas de recompra de acções pela empresa reduzem a oferta e sinalizam confiança da gestão.

L — Leader or Laggard (Líder ou Retardatário). Comprar as líderes do sector, não as seguidoras. O'Neil usa o Relative Strength Rating (RS), que mede o desempenho de uma acção face a todas as outras. Uma acção com RS de 90 está a superar 90% do mercado. O'Neil recomenda comprar apenas acções com RS acima de 80 — de preferência acima de 90. «Comprar acções fracas porque parecem baratas é como apostar no cavalo mais lento porque tem melhores odds», escreveu.

I — Institutional Sponsorship (Patrocínio Institucional). As grandes movimentações de preço precisam de volume — e o volume vem dos institucionais (fundos de investimento, fundos de pensões, seguradoras). Uma acção deve ter pelo menos alguns fundos institucionais de qualidade a comprá-la. Mas não demasiados — se todos os fundos já compraram, quem resta para comprar? O ponto ideal é quando o número de institucionais detentores está a crescer trimestre a trimestre.

M — Market Direction (Direcção do Mercado). Talvez o critério mais importante e mais ignorado. Três em cada quatro acções seguem a direcção geral do mercado. Comprar a melhor acção do mundo durante um bear market é uma receita para perdas. O'Neil usa a combinação de preço e volume dos principais índices para determinar se o mercado está numa tendência de alta confirmada ou não. Quando não está, a posição correcta é em cash. «O mercado é o juiz final», dizia O'Neil. «Não discutas com o juiz.»

O Padrão Cup and Handle — A Chávena de O'Neil

O'Neil popularizou vários padrões gráficos, mas o mais famoso é o Cup and Handle — uma formação em forma de chávena (U largo, não V afiado) seguida de um pequeno recuo (a pega). A chávena forma-se quando uma acção corrige, encontra suporte, e gradualmente recupera até ao nível anterior. A pega é um pequeno pullback que «sacode» os últimos investidores fracos antes do breakout.

O ponto de compra — o «pivot point» — é quando o preço ultrapassa o máximo da pega com volume significativamente acima da média. É nesse momento que a acção confirma que a acumulação institucional está a empurrá-la para novos máximos. O'Neil insistia que o buy point devia ser respeitado com precisão: comprar demasiado cedo (antes do breakout) é arriscar num padrão que pode falhar; comprar demasiado tarde (mais de 5% acima do pivot) é perseguir o preço e aumentar o risco.

As Regras de Venda — A Disciplina que Separa Profissionais de Amadores

A regra de venda mais importante do CAN SLIM é absoluta e não admite excepções: se uma acção cai 7-8% abaixo do preço de compra, vende-se imediatamente. Sem analisar, sem esperar que «recupere», sem procurar justificações. É a regra mais difícil de seguir emocionalmente — porque admitir uma perda de 8% dói — mas é a que salva a conta quando o mercado muda. Uma perda de 8% recupera-se com um ganho de 9%. Uma perda de 50% requer um ganho de 100%. A matemática é implacável.

Do lado dos lucros, O'Neil recomendava realizar ganhos parciais aos 20-25% de lucro, a menos que a acção atingisse esse nível nas primeiras três semanas após a compra — nesse caso, mantinha-se pelo menos 8 semanas para dar espaço a um movimento maior. As grandes vencedoras frequentemente sobem 20% logo nas primeiras semanas e depois continuam a subir por meses ou anos.

Críticas e Limitações

O CAN SLIM tem limitações reais. É muito focado em acções de crescimento — durante bear markets prolongados ou em ciclos de rotação para value stocks, o sistema fica em cash durante longos períodos. Requer tempo e disciplina consideráveis: filtrar centenas de acções pelos sete critérios não é trivial. Muitos breakouts falham (O'Neil estimava que apenas um terço produziam ganhos significativos), o que significa muitas pequenas perdas de 7-8% antes de encontrar uma grande vencedora.

Adicionalmente, o CAN SLIM funciona melhor no mercado americano — profundo, líquido, com milhares de acções de crescimento. Para o investidor português a operar no PSI-20, com poucas acções, baixa liquidez e escassas empresas de crescimento acelerado, a aplicação directa é difícil. Mas os princípios — comprar líderes em tendência, cortar perdas rapidamente, respeitar a direcção do mercado — são universais e aplicáveis a qualquer mercado, qualquer capitalização, qualquer geografia. O CAN SLIM não é apenas um método de selecção de acções — é uma filosofia de disciplina e gestão de risco disfarçada de acrónimo.