A Cimpor como Investimento



O cimento é um dos negócios mais simples do mundo: extrai-se calcário, transforma-se em cimento, vende-se à construção civil. É pesado e barato (por tonelada), o que torna o transporte a longa distância inviável. Resultado: o cimento é um negócio intrinsecamente local, com concorrência limitada dentro de cada região geográfica. É quase um monopólio natural — o que explica as margens historicamente elevadas do sector.



A Cimpor beneficiava desta dinâmica: em Portugal, era o maior produtor com quotas de mercado dominantes. Em cada mercado onde operava, tinha posições de liderança ou co-liderança. As margens EBITDA rondavam os 25-30% — invejáveis para uma empresa industrial.



Para o investidor da bolsa portuguesa, a Cimpor era o investimento «aborrecido mas fiável»: comprava-se, recebia-se dividendo de 3-4% por ano, e dormia-se descansado. A volatilidade era inferior à dos bancos e a visibilidade dos resultados era superior à da maioria das empresas cotadas.



A Internacionalização — Do Tejo ao Mundo



Privatizada nos anos 90, a Cimpor embarcou numa estratégia agressiva de internacionalização: adquiriu fábricas de cimento em Espanha (maior mercado), Egito, Turquia, Cabo Verde, Moçambique, África do Sul, China, Índia e Brasil. No seu auge, operava em mais de 15 países e era uma das maiores cimenteiras do mundo em número de mercados.



A diversificação geográfica era, em teoria, a grande vantagem: quando a construção civil caía num mercado (Portugal, pós-2002), outros mercados (Turquia, Egito, Brasil) cresciam. Na prática, a gestão de uma operação tão dispersa revelou-se complexa: riscos cambiais, riscos políticos, e custos de coordenação pesaram sobre a rentabilidade.



A Camargo Corrêa e a OPA (2012)



O grupo brasileiro Camargo Corrêa, que já detinha cerca de 33% da Cimpor desde 2010, lançou uma OPA sobre o restante capital em 2012, oferecendo 5,50 euros por acção. O preço representava um prémio sobre a cotação de mercado — que estava deprimida pela crise portuguesa e pela incerteza sectorial — mas estava muito abaixo dos máximos históricos (acima de 8 euros em 2007).



A OPA teve sucesso e a Cimpor foi retirada da Euronext Lisboa. As operações foram integradas na InterCement (a divisão de cimento da Camargo Corrêa), e Portugal deixou de ter uma cimenteira cotada em bolsa.



Para os accionistas que venderam na OPA, o retorno dependia do preço de compra: quem comprou nos anos 90 a preços baixos teve retornos aceitáveis (acumulados com décadas de dividendos). Quem comprou nos máximos de 2007 perdeu significativamente, mesmo com a OPA.



O Sector do Cimento — Depois da Cimpor



Com a saída da Cimpor, o investidor português que queira exposição ao sector do cimento tem de olhar para fora: a Heidelberg Cement (Alemanha), a LafargeHolcim (Suíça), a CRH (Irlanda), ou a Buzzi Unicem (Itália) são alternativas cotadas na Europa. Ou, indirectamente, através de ETFs de materiais de construção.



A Secil (subsidiária da Semapa) continua a operar em Portugal mas não é cotada separadamente. Para exposição indirecta ao cimento português, a Semapa é a única opção na Euronext Lisboa.



Lições para o Investidor



Empresas sólidas podem ser retiradas de bolsa. A Cimpor era um investimento de qualidade — e desapareceu. O investidor que contava com dividendos da Cimpor durante décadas viu esse plano interrompido por uma OPA que não pediu nem desejou. É o risco de concentração numa acção individual — por melhor que seja.



O preço da OPA reflecte o momento, não o valor intrínseco. A Cimpor foi comprada durante a crise, quando tudo estava barato. Se a OPA tivesse acontecido em 2007, o preço teria sido muito superior. O timing da OPA — que é decidido pelo comprador, não pelo vendedor — determina o valor que o accionista recebe.



O PSI-20 está a encolher. Cimpor, Brisa, BPI, BES, PT — todas saíram de bolsa na última década. O mercado português é cada vez mais pequeno, menos líquido, e menos diversificado. O investidor que só olha para Lisboa tem cada vez menos opções — e cada vez mais razões para diversificar internacionalmente.



A Cimpor foi uma boa empresa e um bom investimento para quem a comprou cedo e a manteve durante anos. Mas a sua história é, acima de tudo, um lembrete de que nenhuma acção individual é eterna — e que a melhor protecção do investidor é a diversificação, por empresas, por sectores e por geografias.




A Portucel e a Cimpor — Dois Destinos



É instrutivo comparar a Cimpor com a Portucel (hoje Navigator): ambas eram empresas industriais portuguesas de referência, ambas foram privatizadas nos anos 90, ambas foram alvos de OPA. Mas os destinos foram diferentes: a Portucel ficou em mãos portuguesas (Semapa/Queiroz Pereira), manteve-se cotada, e continuou a remunerar os seus accionistas com dividendos generosos ao longo de décadas. A Cimpor foi para mãos estrangeiras e desapareceu da bolsa.



A diferença? A Portucel tinha um accionista maioritário português com interesse em manter a empresa cotada e independente. A Cimpor, com um accionariado mais disperso, era mais vulnerável a uma OPA hostil. É mais um argumento a favor da atenção à estrutura accionista: empresas com accionistas de referência comprometidos são menos susceptíveis de ser «levadas» por um comprador oportunista em tempos de crise.



Para quem investiu na Cimpor durante duas décadas e recebeu dividendos consistentes ao longo desse período, o balanço total pode ainda ser positivo — especialmente se comprou cedo. Mas a saída de bolsa foi uma desilusão: os accionistas queriam continuar a ser donos de uma empresa sólida, e não tiveram essa opção. É o risco que toda a acção individual carrega, por mais sólida que pareça.