O Desafio

O correio tradicional diminui todos os anos. É uma tendência estrutural irreversível. A questão para os CTT era: como compensar esta queda? A aposta foi dupla: capturar o crescimento de encomendas do comércio electrónico e criar um banco postal que aproveitasse a rede de balcões como «agências bancárias».

O Banco CTT

Lançado em 2016, o Banco CTT posicionou-se como banco simples e acessível. É uma aposta interessante: os CTT têm mais de 2.000 balcões em Portugal, incluindo em zonas rurais onde os bancos tradicionais fecharam agências. A questão é se o banco gera rentabilidade suficiente para compensar o declínio do correio.

A Privatização e a Controvérsia

Os CTT foram privatizados em 2013-2014, nos anos finais do programa da troika — uma das últimas grandes privatizações do programa. A operação foi controversa: os CTT eram a empresa pública com maior capilaridade no território (mais de 2.300 estações de correio, presença em praticamente todas as aldeias de Portugal) e muitos argumentaram que privatizar o serviço postal universal comprometia o acesso de populações rurais e idosas.

Após a privatização, a crítica materializou-se: centenas de estações foram encerradas ou convertidas em «postos» com horários reduzidos, o serviço de entrega deteriorou-se em zonas rurais, e queixas dos consumidores multiplicaram-se. O preço das acções, após uma subida inicial pós-IPO, caiu significativamente — reflectindo a dificuldade de gerar crescimento num negócio em declínio estrutural (o volume de correio postal cai 5-10% ao ano com a digitalização).

A Reinvenção: De Correios a Banco e e-Commerce

A gestão dos CTT tentou diversificar para compensar o declínio do correio: lançou o Banco CTT (um banco de retalho que aproveita a rede de estações como agências bancárias — uma estratégia que a La Banque Postale usou com sucesso em França), expandiu os serviços de encomendas e e-commerce (o crescimento do comércio online gera mais entregas de encomendas, parcialmente compensando a queda do correio), e investiu em serviços financeiros (seguros, crédito ao consumo).

O Banco CTT é a aposta mais ambiciosa: aproveita a confiança que os portugueses (especialmente os mais velhos e os rurais) têm nos CTT para oferecer serviços bancários simples. Tem crescido consistentemente desde o lançamento, embora a rentabilidade ainda esteja longe dos bancos estabelecidos.

Para o Investidor

Os CTT são uma aposta na capacidade de reinvenção de uma empresa em declínio estrutural. O negócio core (correio postal) está a morrer. As apostas de diversificação (banco, encomendas) estão a crescer mas ainda não compensam o declínio. Os dividendos foram cortados após a privatização — um sinal claro de stress financeiro.

É um investimento para quem acredita que a diversificação vai funcionar a médio prazo — e que o preço actual (significativamente abaixo do IPO) já reflecte o pessimismo. O risco: a digitalização pode acelerar o declínio do correio mais rápido do que as novas apostas crescem. É a mesma dinâmica da Kodak: o negócio antigo morre mais rápido do que o novo nasce.

Os CTT são um caso de estudo em transformação forçada: o negócio core (correio postal) morre lentamente, as apostas de diversificação (banco, encomendas) crescem mas ainda não compensam, e o mercado avalia a empresa com o cepticismo reservado a empresas em transição incerta. Para o investidor paciente que acredita na execução da diversificação (especialmente no Banco CTT), pode haver valor escondido no preço actual. Para o investidor conservador, é demasiado incerto — e há alternativas mais previsíveis no mesmo mercado.

O e-commerce é a oportunidade mais óbvia para os CTT: cada encomenda comprada online precisa de ser entregue fisicamente. O crescimento explosivo do comércio electrónico em Portugal (acelerado pela pandemia) gerou volumes de encomendas que parcialmente compensam a queda do correio tradicional. Os CTT são o líder de entregas em Portugal — uma posição que beneficia directamente do crescimento contínuo do e-commerce. Se conseguirem manter a liderança em entregas e rentabilizar o Banco CTT, a empresa pode estabilizar e gerar valor. Se não, o declínio do correio prevalece.

Para o Investidor

Os CTT são um case study de transformação empresarial em curso. O resultado depende da execução: se as encomendas e o banco crescerem o suficiente, pode ser uma história de criação de valor. Se não, o declínio do correio acabará por dominar. É uma acção para quem acredita na transformação — não para quem procura estabilidade.