..concentrando-me em particular nalgumas passagens do João Henriques que tão bem tem sabido explanar as consequências macro-económicas das grandes notícias económico-financeiras sobre os mercados em geral, atrevo-me a deixar aqui expressos os meus pontos de vista sobre o assunto visado.
Não há dúvida que a sua óptica parece inatacável mas gostaria só de lhe chamar a atenção para 2 questões que abordou e que me parecem que deveriam ser um pouco mais aprofundadas:

1) "O ouro não só está a valorizar face ao dólar como também face às outras moedas, euro, iene e libra inglesa. Será que é apenas uma valorização devido a procura e oferta ou receios de inflação, não me parece!"
Embora não tenha comigo gráficos que o comprovem quer-me parecer que o ouro não se tem valorizado este ano face ao euro, iene e libra. Quanto muito terá andado sensivelmente a par. E quando digo o ouro acrescentaria também toda a panóplia de commodities que são transacionadas nos mercados de futuros um pouco por todo esse mundo fora. A importância que se tem estabelecido em relação ao chavão de "refúgio do ouro" deveria ser relativizada porque na realidade falamos da generalidade das matérias-primas contra o USDollar.
Importar inflação neste momento parece não interessar muito ao Fed, desejoso de manter a todo o custo as taxas de juro muito baixas para estimular a procura interna e os seus mercados a níveis nunca vistos, um ciclo vicioso de resultados que se adivinham "miraculosos" a curto prazo em regimes não deflacionistas, como é claramente o caso.
Enquanto todos os agentes estiverem conscientes deste facto quem quererá ficar com dólares a ser remunerados abaixo de uma pressão inflacionista crescente? Ninguém, é óbvio.
A regra de momento parece ser só uma: apostar tudo contra o dólar, sejam crosses de divisas, sejam commodities. Chega a ser um paradoxo mas quem neste momento detém activos americanos em bonds, stocks ou índices, das duas uma: ou já fez defesa cambial comprando na mesma altura em que adquiriu american assets o equivalente de activos detidos em eurodollars ou arrisca-se a ter levado uma grande estalada.
É uma triste realidade mas infelizmente é assim, os investidores estrangeiros nos Estados Unidos que apostaram em posições longas de acções americanas só terão obtido algum retorno na sua moeda de origem, no caso de não se terem defendido cambialmente, apenas em produtos de activos associados a alavancagens fortes à base de futuros e produtos com margem.

2) "A verdade é que o sistema inventado no último século de regulação da economia tem falhas muito graves. É engraçado que os Estados Unidos são o espelho do capitalismo, mas a verdade é que a definição de capitalismo é a de um sistema no qual os meios de produção são detidos por privados e o desenvolvimento é proporcional à acumulação e reinvestimento dos lucros num mercado livre.
Ora os Estados Unidos são neste momento o inverso disso, porque o endividamento é tão forte que os privados no fundo não detêm os meios de produção. Existe sim apenas a promessa de que serão detidos no futuro! E o desenvolvimento tem sido desproporcional à acumulação dos lucros!"
Uma passagem muito interessante mas ao mesmo tempo polémica.
E será polémica porque, começando com a questão da definição de capitalismo, embora seja consensual afirmar que os meios de produção em mãos privadas garantem concorrência, anti-monopólio, eficiência, orientação para o cliente e mercado e optimização de custos, existirão sempre excepções.
De facto, a tendência que existe para a globalização, instalando nichos de negócio onde o custo de oportunidade prevalece, acabará por ser trasladado um pouco por todo esse mundo fora onde existe economia de mercado, para fora de portas da América. Como acontecerá inevitavelmente nas indústrias de mão-de-obra intensiva, trava-se no exterior dos States o combate de aniquilação das indústrias americanas que não possuam ou usem tecnologias de ponta, via custos de mão-de-obra e diminuição progressiva dos custos de transporte e diminuição das barreiras alfandegárias do comércio mundial.
Se as grandes empresas multinacionais, focadas em indústrias tradicionais que não incorporem tecnologia de ponta, não se instalarem em força nas Chinas e Índias, onde até já a pesquisa no campo do software começa a dar dores de cabeça aos americanos, o futuro da economia americana tornar-se-á sombrio, temos de o reconhecer. Mas este enfraquecimento progressivo do dólar não é já uma resposta a longo prazo para essas preocupações de concorrência?
E nós europeus, coitados, que somos uns bananas no meio disto tudo, nem nos apercebemos que o cenário está ser montado para no futuro sobreviverem apenas as economias americanas e asiáticas! O Euro sobe alegremente, ajudado ainda recentemente pela quebra do PEC, sem ligar minimamente às preocupações do seu tecido empresarial exportador, no fundo o apêndice saudável que nos vai alimentando o sonho de sermos um espaço económico com importância à escala global do planeta. Se tudo continuar como está seremos imolados como cordeiros, a menos que se venda tudo ao desbarato aos futuros senhores do mundo. Nem sabemos o que nos espera!
Mas nem tudo o que parece ser na grande montra do mercado americano o é na realidade. Porque a frase do "endividamento é tão forte que os privados no fundo não detêm os meios de produção" parece-me excessiva. Os privados continuam a ser grandes e verdadeiros detentores dos meios de produção da economia americana, só lhes falta dominar as poderosas máquinas da Defesa e da NASA. Mas nem para isso necessitam de fazer muito lobby, os privados continuam a ser os seus fornecedores exclusivos e a Administração americana tem-se encarregue, com as suas guerras mediáticas no Afeganistão e Iraque, de fazer um marketing excepcional de angariação de novos compradores das suas máquinas e brinquedos de guerra de tecnologias de ponta.
Diria que o problema do endividamento será uma dor de cabeça para o Governo Federal, que inevitavelmente terá de ser resolvido a médio prazo, mas as empresas privadas americanas estão claramente um passo à frente. São elas as grandes credoras de grande parte da dívida da Administração americana, em especial as do sector do armamento e as fornecedoras de produtos de tecnologias de informação.
Enquanto a grande fatia da dívida americana estiver concentrada "dentro de portas" e as empresas americanas sentirem que é a sua Administração central o grande consumidor dos seus próprios produtos, serão essas mesmas empresas as grandes incentivadoras das políticas de crédito ao Governo Federal, se possível incentivando mais e mais os indicadores de aceleração do PIB e de criação de riqueza interna.
Portanto e em resumo, as empresas americanas estão mais ricas e o dólar fraco tem aqui um papel de duplo sabor a gelado apetecível aos olhos do Fed: torna-as ainda mais temíveis e concorrenciais nas exportações e obriga os cidadãos americanos a virarem-se mais para os seus próprios produtos, cada vez mais atractivos em detrimento dos estrangeiros. Associando a tudo isto taxas de juro artificialmente baixas, o boom da economia americana ao virar da esquina parece imparável. Desde que não haja de novo atentados mediáticos a ensombrar o horizonte, está bom de ver.
Nesta perspectiva a recuperação dos mercados accionistas não é mais uma dúvida no ar, é uma certeza adquirida.
Outra questão é a forma como essas empresas serão ou gostariam de ser remuneradas dessa dívida que criaram com o poder central, o seu grande cliente. Aí a música é diferente e o maestro não poderá de continuar a deixar de ser um senhor chamado Alan Greenspan, the man that moves the markets and drives the interest rates at his will!
Essa será a grande novela do futuro, que ritmo será imposto a essa música no grande salão de baile dos mercados mundiais?

Eurofan