1

O salão nobre da Universidade de Nova York estava repleto. Como em todas as grandes ocasiões, respirava-se a solenidade de uma atmosfera intemporal, cheia de tradições, de boas tradições, que certamente se haveriam de manter.

Estávamos em Maio de 1984, e ia ser concedido o Doutoramento Honoris Causa em Ciências Comerciais a Rose Gorelick Blumkin, de 90 anos. Sentada no seu alto cadeirão, Rose contemplava a assistência, o seu olhar deambulando devagar, primeiro por aquele espaço visitado por tantas gerações, depois pelo tempo, vagueou pelo seu tempo, pelo seu presente e, claro, pelo seu passado.

Principalmente pelo seu passado, a muitos milhares de quilómetros de si mesma, voltando atrás, muito atrás, à sua Rússia natal, onde afinal era bem ela própria que se via correr, naquelas manhãs tão frias, nos arredores de Minsk.

Quanto tempo passado, tanto tempo, mas lembrava-se bem da altura em que tinha resolvido partir, escapar da sua terra, e emigrar para a América com o marido. Fora há 67 anos, tinha ela então 23, e passava o ano de 1917.

Lembrou os primeiros anos nos Estados Unidos, de um trabalho duro e extenuante, vivido a dois, num autêntico contra-relógio para poder trazer a sua família para junto de si. E recordou também, com uma ternura imensa, a forma como aprendeu a língua inglesa, ela que nunca tinha entrado numa escola (nem o faria depois). Todas as noites, a sua filha mais velha ensinava-lhe, uma a uma, as palavras que tinha aprendido na escola durante o dia.

Estes pensamentos trouxeram-na momentaneamente ao presente, à Universidade e a esta cerimónia, o que lhe fez sentir um arrepio, ao pensar que era a altura dela, que a estariam já a chamar. Mas não, os discursos continuavam, e Rose voltou a admirar-se da forma como as pessoas estavam a ser simpáticas, como lhe estavam a dar uma atenção que ela não julgara possível, nem talvez merecida. Não, como poderia ser merecida uma honra destas se ela só tinha criado e dirigido uma empresa, com todo o empenho e honestidade é certo, até com bastante sucesso de que se orgulhava, mas nada mais? Era isso, a atitude da Universidade era extremamente simpática, mas ainda lhe custava imenso acreditar que o seu lugar poderia ser ao lado de tanta gente ilustre.

Mesmo sem querer, o seu cérebro voou de novo para os pensamentos de há pouco, que apareciam diante dos seus olhos com uma naturalidade e clareza que a ela própria admirava. Era curioso que não estava a passar em revista toda a sua vida mas sim determinados períodos e situações que se impunham com uma força determinante.

Veio-lhe à memória, o ano de 1937, em que depois de muitos anos a negociar roupas em segunda mão, tinha conseguido poupar 500 dólares e concretizar o sonho da sua vida: criar um armazém de venda de mobílias e tapeçarias, a sua Nebraska Furniture Mart. Que tempos! Lembrou-se bem de todos os obstáculos iniciais que teve de vencer, da concorrência feroz, da necessidade que teve de vender as mobílias da sua própria casa para pagar aos credores, exactamente na data combinada. Depois o negócio prosperou, ano após ano, até se tornar, de longe, a maior empresa de loja única do seu sector em todos o país.

Tinha tido razão, conseguira vender mais barato do que os outros e com melhor qualidade, dizendo sempre a verdade aos clientes. E nunca entrou em áreas onde não fosse a melhor, mantendo-se sempre no mobiliário e nas tapeçarias (estas últimas, eram mesmo a sua grande especialidade pessoal).

E, pensou, até a venda da empresa no ano anterior (por 55 milhões de dólares) tinha sido uma operação aconselhável e no interesse de toda a sua família. Para além do mais, todos se mantinham na gestão da “Mart”, e ela própria, com os seus 10%, continuou como Presidente da sua empresa.

E não evitou um sorriso ao lembrar-se da negociação com Warren Buffett. Ele fora de uma grande correcção, confiara nela em absoluto, dispensando até a auditoria e o inventário. E recordou-se da cara dele, um misto de compreensão risonha e de, ia jurar, admiração comovida, quando achou natural, e até necessário, que ela continuasse à frente da empresa.

A cerimónia continuava, ela ouvia o elogio do reitor, talvez mais pessoal do que ela esperaria. Mas Rose, estranhamente, não conseguia estar com a atenção que desejava, o seu cérebro parecia flutuar e demorou o resto daquele discurso a tentar serenar e a tomar consciência precisa do que se estava a passar. Até que o momento chegou e Rose estava doutorada. Exactamente na mesma Universidade em que tinham recebido idêntica distinção personalidades como os CEO´s da EXXON, Citicorp, IBM e General Motors e, pouco tempo antes, Paul Volcker, Presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, uma extraordinária figura de financeiro que influenciou decisivamente a economia americana nos anos 70 e 80.


2

E a sua vida continuou. O tempo foi passando, e Rose Blumkin (conhecida em todo o Nebraska por Mrs. B.), com a mesma alegria de sempre, mantinha o seu ritmo normal na empresa, trabalhando 7 dias por semana desde a abertura ao fecho, adorando atender os seus clientes, surpreendendo-os com excelentes negócios que eles se apressavam a aceitar. “Ia a casa para comer e dormir, e pouco mais. E mal podia esperar que o dia nascesse, para voltar de novo à empresa”. Parecia mesmo que ainda não tinha atingido completamente todo o seu verdadeiro potencial! E isto já com 96 anos!

O segredo do sucesso da sua empresa sempre tinha sido o nível extremamente baixo dos custos operacionais, que se situavam, de forma sustentada, em pouco mais de 15% das vendas. E foi assim que conseguiu apresentar um crescimento ininterrupto do volume de negócios durante 64 anos.

Mas em 1989, aconteceu uma situação inesperada. Devido a uma diferença de opinião com a restante administração da empresa (que incluía o seu filho Louie), Rose decidiu sair e criar, de imediato, num edifício adjacente que lhe pertencia, uma nova empresa de … tapeçarias, estabelecendo, alguns anos mais tarde, já com 99 anos, um acordo de não-concorrência com a “sua” Nebraska Furniture Mart!

Essa sua actuação não seria uma forma engenhosa de sair na altura certa, deixando todo o caminho aos mais novos (!), e para ao mesmo tempo continuar a fazer aquilo que sempre quis e soube?

Ao completar 100 anos de idade, as velas acenderam-se na empresa, para uma mais do que devida comemoração. Mas como o trabalho está sempre primeiro, Mrs. B. adiou a festa para uma tarde em que a loja estivesse encerrada…

Rose Blumkin, morreu em 1998, aos 104 anos de idade. A sua empresa mantém-se hoje na mesma rota de crescimento e de lucros, tendo atingido, no final desse ano, 300 milhões de dólares em vendas, as quais continuaram a subir com naturalidade até ao presente.

Tudo tinha começado em 1937, com um investimento de 500 dólares, um enorme entusiasmo, ideias muito claras do negócio e uma tremenda vontade de vencer.

Não há dúvida que ela foi e é uma fonte de inspiração, mesmo para quem nunca a conheceu!…


Um abraço

Comentador

Veja ainda: O Exemplo da Srª. Blumkin

Clique Aqui para veer todos os artigos dos foruns