A Tese Original — Goldman Sachs e a Promessa dos Emergentes

O relatório de Jim O'Neill — «Building Better Global Economic BRICs» — não era um exercício de geopolítica. Era uma peça de research de um banco de investimento, destinada a vender produtos financeiros. A tese baseava-se em projecções demográficas e de produtividade: os quatro países tinham populações enormes, forças de trabalho jovens e em crescimento, e níveis de PIB per capita baixos — o que significava «espaço para crescer» (catching-up growth). Se adoptassem políticas minimamente competentes, o crescimento seria quase mecânico.

A tese funcionou espectacularmente para a China, que cresceu a 10% ao ano durante três décadas e passou de economia emergente a superpotência económica. A Índia cresceu de forma impressionante embora mais lenta — 6-7% ao ano — e ainda está nos estádios iniciais do seu potencial. Mas o Brasil e a Rússia provaram que demografia não é destino. O Brasil teve uma década dourada (2003-2013), impulsionada pelo boom das matérias-primas e por políticas sociais que retiraram milhões da pobreza. Depois veio a recessão devastadora de 2015-2016, a corrupção sistémica (Lava Jato), a instabilidade política, e um crescimento que voltou à mediocridade. A Rússia beneficiou dos preços elevados do petróleo e do gás, mas nunca diversificou a economia para lá dos hidrocarbonetos. A invasão da Ucrânia em 2022 e as sanções subsequentes destruíram a tese de investimento na Rússia para a maioria dos investidores ocidentais.

A lição para o investidor é clara: acrónimos de bancos de investimento não são estratégias de investimento. Os BRIC eram quatro países com quase nada em comum para lá do tamanho e do rótulo. Tratá-los como um bloco homogéneo — como muitos fundos fizeram — era um erro conceptual que custou dinheiro a muita gente.

De Acrónimo a Bloco — A Politização dos BRICS

O que começou como um conceito de research financeiro transformou-se, surpreendentemente, num bloco político. Em 2006, os quatro países começaram a reunir-se à margem da Assembleia Geral da ONU. Em 2009, realizaram a primeira cimeira formal em Yekaterinburg, na Rússia. Em 2010, a África do Sul foi convidada a juntar-se — o BRIC tornou-se BRICS, acrescentando representação africana ao bloco (embora a economia sul-africana seja relativamente pequena comparada com as outras quatro).

As instituições seguiram-se. O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), sediado em Xangai, foi criado em 2014 como alternativa ao Banco Mundial. O Contingent Reserve Arrangement (CRA), com 100 mil milhões de dólares, foi criado como alternativa ao FMI. A mensagem era clara: os BRICS queriam construir uma arquitectura financeira paralela que reduzisse a dependência do sistema dominado pelos EUA e pela Europa. Não era apenas sobre economia — era sobre poder.

Em 2024, o bloco expandiu-se dramaticamente. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Egipto, a Etiópia e o Irão foram convidados a aderir. Os BRICS+ representam agora cerca de 45% da população mundial e mais de 35% do PIB global (em paridade de poder de compra). A expansão transformou o bloco num fórum do «Sul Global» — os países que se sentem sub-representados nas instituições criadas pelo Ocidente após a Segunda Guerra Mundial.

De-dollarização — Ameaça Real ou Exagero?

O tema que mais atenção mediática tem recebido é a «de-dollarização» — a tentativa dos BRICS de reduzir a dependência do dólar americano no comércio e nas reservas internacionais. A China liquida uma parcela crescente do seu comércio em yuan. A Rússia, excluída do sistema baseado no dólar pelas sanções, comerceia em yuan, rupias e rublos. A Arábia Saudita aceitou pagamentos de petróleo em yuan pela primeira vez em 2023. O Brasil e a Argentina anunciaram mecanismos de comércio bilateral em moedas locais.

Para alguns analistas, estamos a assistir ao início do fim da hegemonia do dólar. Para outros, é um exagero monumental. A verdade está provavelmente no meio, mas mais perto do exagero. O dólar representa ainda cerca de 58% das reservas cambiais globais, 88% das transacções cambiais e a maioria esmagadora do comércio internacional de commodities. A infra-estrutura financeira baseada no dólar — SWIFT, mercados de capitais americanos, títulos do tesouro — não tem rival credível. O yuan chinês representa menos de 3% das reservas globais, e a China mantém controlos de capital que limitam a internacionalização da sua moeda.

A de-dollarização está a acontecer nas margens — e é provável que continue. Mas substituir o dólar como moeda de reserva mundial exigiria que uma alternativa oferecesse o que o dólar oferece: mercados de capitais profundos e líquidos, estado de direito, convertibilidade total, e confiança acumulada ao longo de oito décadas. Nenhum dos BRICS oferece tudo isto. A China controla o yuan. A Rússia é uma economia de commodities sob sanções. O Brasil e a Índia têm mercados financeiros subdesenvolvidos. A de-dollarização é um processo de décadas, não de anos — e o resultado mais provável é um sistema monetário multipolar mas ainda dominado pelo dólar.

As Contradições Internas — Um Bloco de Rivais

A maior fraqueza dos BRICS é que os seus membros têm interesses frequentemente contraditórios. A Índia e a China têm disputas fronteiriças activas e confrontos militares periódicos nos Himalaias. A Arábia Saudita e o Irão são rivais regionais que travaram guerras por procuração no Iémen e na Síria. O Brasil, uma democracia liberal, tem pouco em comum politicamente com a China ou a Rússia. A África do Sul enfrenta crises internas que limitam a sua capacidade de projecção internacional.

Comparar os BRICS com a NATO ou a União Europeia é um erro fundamental. A NATO tem uma estrutura de comando integrada e um compromisso de defesa mútua. A UE tem um mercado único, livre circulação e instituições supranacionais. Os BRICS não têm nada disto — são um fórum de diálogo, não uma aliança. Concordam em discordar do Ocidente, mas concordam em pouco mais. A China domina economicamente o bloco, e os outros membros receiam essa dominação tanto quanto receiam a dominação americana.

A expansão de 2024 agravou as contradições. Quanto maior o grupo, mais difícil o consenso. A Etiópia e os Emirados Árabes Unidos partilham um bloco mas partilham quase nada em termos de interesses económicos ou políticos. O risco é que os BRICS se tornem uma versão expandida do G77 — um fórum de países do Sul Global que emite declarações mas raramente produz acções concretas.

Para o Investidor — Quanto Apostar nos Emergentes

A febre dos BRIC de 2001-2010 levou muitos investidores a sobre-alocar nos mercados emergentes. O resultado foi decepcionante: desde 2010, o MSCI Emerging Markets ficou significativamente atrás do MSCI World (dominado pelos EUA). O dinheiro «fácil» nos emergentes — o catching-up growth alimentado pela globalização e pelas matérias-primas — já foi feito. O que resta é mais selectivo e mais arriscado.

Os mercados emergentes oferecem crescimento potencial superior, mas com riscos que os mercados desenvolvidos não têm: risco político (mudanças de governo que alteram as regras), risco cambial (desvalorizações que destroem retornos em euros), risco de governança (empresas com accionistas controladores que ignoram os minoritários), e risco de liquidez (mercados menos profundos onde é difícil vender em momentos de stress).

A abordagem sensata para a maioria dos investidores europeus é uma alocação moderada — entre 5% e 15% da carteira — preferencialmente via ETFs diversificados (MSCI Emerging Markets) em vez de apostas concentradas em países individuais. A Índia é provavelmente a história de crescimento mais promissora dos próximos 20 anos, mas investir num único país emergente é sempre uma aposta com volatilidade elevada. O Brasil oferece exposição a commodities mas exige estômago para a instabilidade política. A China é demasiado grande para ignorar mas demasiado arriscada para abraçar cegamente (como vimos no artigo sobre a economia chinesa).

Os BRICS como conceito de investimento estão mortos. Os BRICS como realidade geopolítica estão vivos e a evoluir. O investidor inteligente distingue entre os dois: usa a geopolítica como contexto para compreender o mundo, mas investe com base em fundamentais, valuations e gestão de risco — não em acrónimos de bancos de investimento.