A recente atribuição do Prémio Nobel da Economia de 2002 a Vernon Smith e Daniel Kahneman, pelos trabalhos de investigação relacionados com o campo da irracionalidade e Psicologia aplicados em diversas áreas da Economia, veio de novo bater na tecla sobre temas apócrifos que de quando em vez gosto de abordar.
Não deixa de ser significativo o facto de tanto o Nobel de 2002 como o de 2001 da Economia, que versava o assunto das assimetrias ou aproveitamentos decisórios em função do conhecimento antecipado de algo desconhecido para os restantes dos agentes económicos que poderia influir no comportamento dum activo, se terem revelado o centro dos novos debates que se relacionam com a procura das respostas que se podem esperar na evolução concreta dos mercados. As novas pistas de debate aprofundado e apaixonante sobre possíveis explicações acerca dos seus comportamentos claramente ineficientes aparecem finalmente à luz do dia, ao arrepio das teorias académicas economicistas tradicionais.
O caso mais pitoresco e fascinante, retirado dos temas dos Nobel de 2001 e 2002 em questão, que me atraiu bem para além dos limites profissionais do meu próprio ramo de actividade, a Engenharia, é sem dúvida a actividade de carácter lúdico mais atraente e lucrativa do mundo dos negócios, a pesquisa fascinante dos indicadores e regras universais mais adequados, que os há certamente, retirada das reacções emotivas das multidões e agentes participantes activos nos mercados financeiros.

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É possível descortinar e procurar casos concretos de desvios à racionalidade e eficiência dos mercados? Claro que sim, nada melhor que atentar em dois pequenos exemplos antagónicos significativos:
1) Perguntem a qualquer investidor se estaria mais à vontade e predisposto a comprar uma acção cotada a 80 Euros, mesmo sabendo intimamente que está cara, com os mercados a subir, ou a comprar o mesmo activo a 8 Euros, barata em termos fundamentais, com o mercado geral a desmoronar-se em debandada geral?
A resposta é dada pela prática, como é fácil de constatar, pelo primeiro cenário, uma irracionalidade aparente com os agentes a sentirem-se mais seguros a preferirem comprar caro do que barato mediante o clima de euforia instalado, basta ver o que aconteceu com a nossa PTMultimedia.
2) Um exemplo diametralmente oposto: que atitude tomar perante uma acção que se encontra de forma estável a transacionar de forma consistente num canal horizontal entre os 7 e os 9 Euros?
Curiosamente, neste caso, a resposta é perfeitamente racional: comprar quando a acção vem ao suporte dos 7 Euros e despachá-la na proximidade da resistência dos 9 Euros. Porquê um comportamento distinto, equilibrado e expectável neste caso? A explicação mais óbvia parece residir numa simples constatação: os investidores reagem de forma responsável, lógica e justificada num clima de segurança aparente e de pouco risco perceptível à vista.
Se esta rotina de estabilidade é quebrada, por motivos de saída das cotações do trading range habitual, abaixo dos 7 Euros, por exemplo, a instabilidade e irracionalidade saltam imediatamente para o palco: o medo do desabar de um limite considerado previamente uma segurança predispõe a maioria dos detentores da acção a não se sentirem muito seguros com a sua manutenção em carteira, um sentimento que se vai agudizando à medida que a cotação vai deslizando, originando uma bola de neve que se vai auto-alimentando …
Este é um caso típico de irracionalidade, não interessa o valor do activo mas apenas o receio de amanhã não ter a possibilidade de o poder vender aos preços de hoje, a incomodidade crescente de assistir impotente a um desabar de uma reacção em cadeia que vai para além do seu controle, originando mais um participante potencial no dito movimento, um comportamento típico da irracionalidade e ineficiência dos mercados!

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Estando constatados e comprovados estes desvios decisórios e comportamentos (a)típicos no campo dos mercados financeiros, resta saber se existe forma de avaliar em que termos e em que altura os investidores e restantes agentes intervenientes vão ter propensão a actuar, cada um à sua maneira, tomando atitudes que originam os movimentos do mercado, de acordo com um expectável direccionamento do tipo racional ou irracional ?
A resposta é positiva, um sim claro e cristalino. Como ? Através de indicadores próprios que não são nem mais nem menos que os indicadores que muitos de nós estamos habituados a extrair da chamada Análise Técnica!
Esta resposta pode parecer surpreendente mas à medida que o tempo passa e os anos de experiência e aprendizagem se vão acumulando restam-me cada vez menos dúvidas que o comportamento humano global, perante milhares de cenários e padrões diferenciados, pode ser estatisticamente traçado e medido em diversos graus emotivos de agudização que podem ser explorados em benefício dos especuladores que procuram antecipar o referido comportamento expectável.
No fundo, um bom sistema de trading não faz mais do que medir e parametrizar o doseamento da racionalidade e irracionalidade exacerbadas que tendem ao longo do tempo a alternar-se no domínio do subconsciente dos agentes económicos.
O que une afinal todos os participantes dos mercados? A resposta é fácil, todos andam à procura do lucro. De que forma ? A resposta é na prática infelizmente complexa, porque só uma parte o consegue a longo prazo e de forma mais ou menos consistente, projectando hipóteses futuras baseadas em direccionamentos libertadores de emoções doseadas, variando entre leituras de estabilidade, que implicam decisões mais racionais, ou de um exacerbamento do medo e euforia, a que correspondem respostas do tipo irracional ou de defesa instintiva, como lhes queiram chamar!
Na prática os mercados não são completamente estáveis e racionais nem totalmente instáveis e irracionais. Vagueiam em graus intermédios, por entre ambos os extremos, de uma forma que pode ser estocasticamente adaptada a uma escala adequada, mediante a realização de uma miríade de testes significativos que possam ser mensuráveis e comprovados pela prática consequente.
Em termos do mundo real do trading, e em certa medida do investimento, é o que de facto todos acabamos por fazer, sem nos apercebermos directamente desta relação psicológica que rege a vontade de nos colocarmos com maior vontade compradora ou vendedora, procurando de alguma forma aferir de que forma a maioria dos agentes vai reagir à próxima subida ou descida de determinada cotação!
Quer isto dizer que um sistema de negociação em mercados tem de ser adaptado e aferido para calcular a atitude decisória em função do maior ou menor grau de racionalidade dos investidores tomados em conjunto, como grupo maioritário ?
Obviamente que sim, é tudo uma questão de empenho, arte, imaginação, algum jeito para testar e optimizar os indicadores mais adequados para o efeito, um treino prático intensivo e cada vez mais refinado, e finalmente uma crença clara que resulta desta simples constatação: os lucros provêm unicamente da antecipação de posições às atitudes que expectavelmente os agentes irão adoptar mediante a ocorrência de cenários que fazem disparar climas emocionais, racionais ou irracionais, estatisticamente previsíveis.
A solução para ter sucesso nos mercados estará então encontrada ? A pista geral de um vector possível de respostas maioritária e globalmente lucrativas, sim, mas as regras e as fórmulas certas mágicas infalíveis, jamais, desengane-se quem possa pensar o contrário! Basta uma notícia de índole inesperada que faça contrariar os detentores das posições de uma Tendência que se vinha a desenvolver em determinado sentido para inverter o sentimento geral da maioria dos intervenientes, para estragar os planos de qualquer método apelidado de “imbatível”!
É possível de facto desenvolver formas de resposta aos mais hipotéticos cenários de reacção passiva, sem acontecimentos exteriores fundamentais influenciáveis, algo parecido com um modelo que vai autoreagindo ao padrão comportamental que se vai desenvolvendo, uma espécie de cobra que reage de forma probabilística esperada aos seus anteriores movimentos! Apenas acontecimentos exteriores significativos poderão quebrar o ambiente psicológico gerado no referido cenário esperado, fazendo reequacionar novas formas de abordar e reiniciar o novo imbróglio.

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Outro tema curioso relacionado com a irracionalidade dos mercados, é o do uso dos stops de saída!
Sabendo-se que os mercados se movimentam constantemente para cima e para baixo, em oscilações ou swings mais ou menos extensos, a aplicação de stops que nos colocam fora do mercado, não os do tipo reversivo para adoptar a posição contrária, acaba por ser uma confissão que determinado método falha algures ou fica confuso com a ocorrência de cenários que contrariam a sua função básica e racional: procurar determinar a todo o instante se o activo em estudo vai subir ou descer a curto prazo.
Atenção a alguns pormenores prévios: quanto maior é o rácio de lucros sobre as perdas gerado por um determinado método usado por qualquer agente económico, ao longo de anos e anos a fio, maior a certeza de estar no caminho certo. Por outro lado, não esquecer nunca que, por muitos que sejam os lucros, também os riscos associados não podem deixar de ser negligenciados. De facto, se grande parte do stress que acompanha uma decisão de compra e venda pode quase desaparecer, tendo em conta o grau de confiança que qualquer trader deposita no seu método de negociação, é bom lembrar que à maior rentabilidade crescente forjada no crescimento dos lucros que acompanham determinada Tendência, à medida que o tempo passa vai crescendo o seu grau de ansiedade em relação ao ponto de suportabilidade dos drawdowns em que necessariamente terá de incorrer, se quiser obedecer de forma integral à regra de “deixar correr os lucros”, nos movimentos contra a Tendência dominante que inevitavelmente se seguirão.
É aqui que ocorre a grande indecisão, a de incluir ou não regras de introdução de ordens de stop de saída obrigatória.
Em mercados estáveis e racionais do tipo lateral faz sentido o uso de stops de saída, enquanto as cotações oscilarem no interior do canal de trading ? Claro que não, mas se o regime for transformado em algo claramente anti-random, ineficiente e Tendêncial poderíamos considerar e procurar justificar tal atitude de adopção, repito, para saída em posições neutras e não para entradas em posições longas ou curtas, já que estas se justificam de forma clara nessa eventualidade.
Quanto mais extremada for a aceleração e extensão do movimento ascensional ou descendente da Tendência, maior será a resposta correctiva expectável do ricochete. A reacção aparentemente racional que faz algum sentido momentâneo consensual, provocada pelo grupo mais forte e capitalizado daqueles que se aproveitaram e acabaram de sair da Tendência dominante!
Se todos sabemos que as reações à Tendência líder deverão ser estatisticamente aproveitadas para reforçar posições para o próximo assalto à retoma da referida Tendência predominante, faz sentido sair do mercado via stops arrecadando apenas os lucros do aproveitamento da maioria do movimento Tendêncial principal ? Os testes estatísticos, a parte racional da esperança matemática a funcionar, dizem que não, mas a nossa mente humana de forma irracional, porque contraria a procura da rentabilidade mais elevada procurando como objectivo a estabilidade emocional através da diminuição do drawdown pontual da trade, diz-nos que sim, exigindo um travão automático ou uma pausa por saída através de um stop imposto. Mesmo que constate que na maioria das vezes irá retomar a Tendência em valores para além da saída anterior!
Todos ouvimos falar que o uso de stops é obrigatório para evitar incorrermos em perdas elevadas, mas se calhar é por essas e por outras que qualquer ser humano jamais poderá ser um trader super-perfeito, de excepção.
Quem não gostaria de desenvolver o sistema de negociação mais eficiente, com os maiores rácios profit/loss e profit/risk possíveis ? Qualquer um de nós, sem dúvida, mas ao limitarmos hipoteticamente o “risk” a um baixo valor de perdas, através do indiscriminado uso de stops, mesmo que esses stops obedeçam a regras estritas e impostas, esquecemo-nos que estamos a limitar o numerador “profit”, gerador dos lucros do capital, a ocasiões de pausa anti-optimizada em que a rentabilidade potencial do sistema estaca por motivos irracionais provocados por causas derivadas da ansiedade e estabilidade emocional. Tudo pelo receio de não querer ir além de um sofrimento suportável causado pela erosão dos drawdowns, impondo-se a satisfação egocêntrica de querer manter parte significativa dos lucros recentes!
A natureza humana é mesmo complexa, irracional e paradoxal neste caso concreto. Gostaria em teoria de ganhar o máximo mas na prática, em geral na maioria dos casos que conheço, toma ou introduz regras decisórias que contrariam esse objectivo, mesmo conhecendo os fundamentos teóricos da asneira!
“No gain, no pain”, ao que eu acrescentaria “much gain, much pain”, uma atitude racional para um computador mas irracional para um humano …
Enquanto o Homem for o verdadeiro centro donde parte a tomada de decisão nos diversos campos da Economia e Mercados, jamais a Psicologia poderá ser dissociada das explicações comportamentais inerentes aos acontecimentos desequilibrados que acompanham o nosso mundo real.

Cem