Abstraindo-nos da óptica de trading de curto prazo e tentando olhar para o mercado no muito longo prazo, parece uma verdade absoluta dizer:
- «O mercado accionista sobe no longo prazo»

Indo um pouco mais longe, e olhando para o Dow Jones, o índice sobre o qual temos um histórico mais longo, podemos mesmo calcular uma taxa média de rendibilidade anual para todo o século XX:
- Entre 10 a 11% ao ano

Ou seja, para quem esteve durante todo o século XX investido (não sei se há algum leitor nessa situação? :-), um investimento a 1 de Janeiro ano de 1900 no Dow, traduziu-se em 22.181% de rendibilidade em 31 de Dezembro de 1999.
Impressionante no mínimo, não ?

- 1000 contos investidos a 01/01/1900 valiam 222.812 contos no último dia do século !!

Claro que há alguns detalhes no meio que alteram este facto ser possível na vida real, já que a maior parte das empresas componentes do Dow em 1900 sairam do índice, algumas foram à falência, o índice foi alargado e alterado inúmeras vezes no século, a própria ponderação das componentes do índice se altera conforme a performance de cada uma, etc.
De qualquer forma, não quero tirar (ainda) o mérito desta súbida, já que um investidor activo e experiente nestes 100 anos deveria acompanhar o índice e em média até ultrapassá-lo sem grandes problemas (como é o caso dos leitores do Clubeinvest).

Esta pequena introdução era só para justificar o porquê da crença inquestionável de que o mercado sobe no longo prazo. Deixo agora um gráfico com escala simples do Dow desde 1900 à actualidade:



Claro que um gráfico com uma variação de 22.181% não deverá ser visto nesta escala, olhando para o gráfico em escala semi-logaritmica acompanhamos melhor o desenvolvimento histórico:



É fácil notar neste gráfico a fabulosa ascensão dos anos 20, no que foi um dos melhores Bullmarkets de sempre (os loucos anos 20), altura em que se falava de uma Nova Era económica de crescimento sustentado (Recomendo a leitura de «O Diabo leva a melhor Parte» por João Henriques).
Pouco antes do Crash de Outubro de 1929 (Quinta Feira Negra) e na queda de 89% que se seguiu até 1932, as páginas dos Jornais eram as seguintes:

- «For five years at least, American business has been in the grip of an apocalypic, holy-rolling exaltation over the unparalleled prosperity of the New Era.» - Business Week - Setembro de 1929

- «It seemed to be taken from granted in speculative circles that this is a market of manifest destiny, and that the destiny is to go continuously forward.» - New York Times - Setembro de 1929



O que se seguiu foi o mais devastador Bearmarket de sempre com ínicio numa Quinta Feira Negra em Outubro de 1929. A duração deste Bear nem foi das mais longas, contudo em menos de 3 anos o Dow Jones caiu 89%, numa queda assustadora e sem precedentes durante o resto do século XX.

Só 25 anos mais tarde é que o índice voltou aos níveis máximos de 1929, em 1954 finalmente se bateram novos máximos.

Para os investidores que começaram as suas carreiras em 1929, a frase «O mercado accionista sobe no longo prazo» representou 25 anos de espera e sofrimento..... Muitos deles ficaram-se pela famosa frase de Keynes «No longo prazo estamos todos mortos»....

E a inflação ? E as taxas de juro dos depósitos a prazo e das Obrigações ?

Era aqui que queria chegar com este artigo....

Durante estes espectaculares 100 anos de subida com umas quedas pelo meio, existiu um fenómeno chamado inflação....
Explicando melhor o sentido que quero atingir, um investidor que tivesse investido 1000 contos no máximo de 1929, ao chegar a 1954 será que estaria em casa ?
- Não, esses mesmos 1000 contos não tinham o mesmo poder de compra que tinham 25 anos antes....

Este fenómeno aparentemente pouco importante vai alterar de forma muito significativa o sentimento que se tem sobre o mercado accionista....

Voltando ao investidor que investiu 1000 contos em 1929, na realidade para ficar em casa, teria de esperar mais 5 anos além de 1954 até atingir o poder de compra de 1929, ao todo 30 anos até ver a luz de um lucro.... E diga-se de passagem que beneficiou de um periodo que teve inflação relativamente baixa comparativamente com outras épocas do século XX.

Muitos dos leitores podem neste momento estar a pensar o seguinte:
«sim, mas isso é a velha história do Crash de 29, agora os tempos são outros... desde 1982 que mantivemos subidas sustentadas, batendo máximos históricos sem precedentes, além disso a inflação e as taxas de juro estão em queda».


De facto, não foram estes 5 anos que a inflação retirou à performance do Dow Jones que me impressionaram... Olhando para o gráfico do Dow Jones Deflacionado desde 1900, espantei-me com outra situação:



Até olhar para este grafico, nunca me tinha passado pela cabeça que só em 1994 é que se bateu o máximo de 1966, ao contrário do que sempre pensei olhando para gráficos nomais em 1982.
Este «atraso» de 12 anos deveu-se sobretudo ao Bearmarket de 1972/1973, altura em que o Dow caiu 45%, no entanto com a crise petrolifera e a inflação acima dos 10%, a queda real em termos de poder de compra do mesmo capital não foi de 45%, mas antes de 75%...

Outra conclusão é que em 1982, o nosso investidor secular estava exactamente nas mesmas paragens que estava em 1951, 1931 e 1926. Por outras palavras, em qualquer uma destas 3 datas poderia ter optado por trocar as suas acções do Dow Jones por depósitos a prazo ou obrigações, e em 1982 teria exactamente o mesmo capital, com a vantagem de não ter perdido uma unica noite de sono (provavelmente iria também poupar um bocado o colesterol, ganhando mais uns aninhos de vida :-)

Este tipo de conclusão nunca se iria conseguir tirar olhando para gráficos que não deflacionassem o índice...

A pergunta que deixo no fim deste artigo aos leitores é a seguinte:

- Será que as acções no longo prazo são um investimento seguro ?
(Quem me quiser responder ou argumentar pode-me enviar um email ou utilizar o nosso fórum)

Deixo também uma nota:
No século XX, os mercados subiram em média 10% ao ano, mas no século XIX, subiram apenas 6%, apesar de não saber como foi a inflação no século XIX, podemos desde já notar que o spread ficou muito alterado, já que a inflação é um imposto muito alto a pagar nos ganhos de bolsa... :-)

Conclusão Final:
- Periodos de inflação alta são péssimos para investir na Bolsa, o risco não compensa.
- As acções não são tão rentáveis como toda a gente pensa.
- Um investidor que decida entrar no mercado para o longo prazo e que escolha um timing errado corre riscos de não assistir com vida aos seus lucros.
- Se aceitar a hipótese de que as acções sobem em média 10% ao ano, dada a discrepância dos últimos 19 anos, os próximos 19 anos terão uma performance inferior a 10% por ano.

atentamente,

Pedro Miranda
em 23/05/2000

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Nota: Alguns leitores questionaram-me sobre os dividendos e respectivo reinvestimento ao longo destes 100 anos. Contudo, também não incorporei as taxas de mais-valias desse periodo, pelo que a análise se mantém e atinge os objectivos que tencionava cobrir.