Antes de começar a escrever este artigo, gostaria de lhe referir que vou escrever sobre actividades ilícitas e como tal não estou de forma alguma a recomendá-las. Este será apenas um exercício de auxílio à compreensão do funcionamento do mercado de futuros.

Aliás, para que a compreensão do teor deste artigo seja plena, gostaria de recomendar a leitura prévia do artigo da secção Economic Zone deste site, «A opinião contrária e o sentimento de mercado». Neste artigo diz-se, entre outras coisas importantes, que o nº de contratos «long» é sempre exactamente igual ao nº de contratos «short», que os futuros são um jogo de soma nula e que a larga maioria dos intervenientes no mercado perde no longo prazo.

Vamos simplificar ao máximo o funcionamento do mercado de futuros, através de um exemplo:

Imagine que conseguia reunir todos os investidores do mercado numa sala de cinema, e para simplificar, vamos supôr que são apenas 100. O leitor conhecia as posições de todos os investidores, em termos da sua direcção (long ou short).

Agora repare que poderão existir fortes desiquílibrios no mercado: se a maioria dos traders acreditar que o mercado vai subir, irão comprar contratos, o que fará os preços aumentar devido ao acréscimo de procura. Para que a maioria dos 100 traders, imaginemos 60 esteja long, é necessário que alguns dos outros 40 (não necessariamente todos) esteja short. Assim, pelo que dissemos atrás e no artigo da Economic Zone referido, esta minoria terá de deter tantos contratos short como a maioria que está long. Prosseguindo a tendência ascendente, cada vez temos mais traders bull e cada vez menos bears, até que poderemos chegar a um extremo em que temos por exemplo 85% de traders a acreditar na subida, 5% neutros e 10% a acreditar na descida.

E continuamos com o mesmo paradoxo em que a minoria, os 10% ou neste caso 10 traders, têm tanto capital investido como os 90% da maioria. Quando se chega a um extremo destes, uma viragem na tendência só pode estar iminente. Isto porque os 10% que estão short são muito mais fortes financeiramente (e provavelmente do ponto de vista da informação) do que os 90% que estão long, e não irão abandonar a sua posição com facilidade. Por outro lado, para que os preços pudessem continuar a subir seria necessário um acréscimo de procura, o que é altamente improvável senão impossível, pois quase todos os traders já estão long e praticamente já não existe capital para comprar futuros.

Desta forma a decisão acertada, com grande dose de segurança, seria juntar-se à minoria e entrar short. Os pequenos bulls com um abanão iriam correr a fechar as posições e nós já estaríamos a ganhar dinheiro.

Para simplificar ainda mais o exemplo, vamos imaginar que hipoteticamente todos os traders acreditavam na subida a curto prazo e que os 100 traders estavam long. Obviamente o mercado só poderia cair, pois já toda a gente tinha comprado e agora apenas poderia vender (esta situação de extremo é impossível de acontecer, pois na situação assimptótica existe no mínimo sempre pelo menos um trader short, para que todos os outros possam estar long.

O exemplo de cariz académico que referi serve para nos dar a noção de que conhecidos os dados do mercado, em termos de nº de jogadores long e short, colocam a nossa probabilidade de sucesso nos futuros muito próximo de 1.

Repare que apenas as corretoras e somente as autorizadas podem colocar ordens no mercado de futuros. Serão umas 15 em Portugal. Se conseguisse obter conhecimentos em cada uma das 15 corretoras, que lhe dissessem no final de cada sessão, quantos jogadores estavam long e quantos estavam short, não seria preciso muito mais para garantir o sucesso dos seus investimentos nos futuros. Quando se gerasse um extremo, em que mais de 80% dos traders tomasse uma direcção, bastava abrir posições na direcção contrária e muito provavelmente a trade seria lucrativa. Desta forma estaríamos sempre do lado das mãos fortes, daquelas que têm mais capital e que no final de contas acabam por ganhar o jogo.

É claro que obter este tipo de conhecimentos não será tarefa fácil para qualquer pessoa, mas certamente existirá quem consiga fazê-lo (também um único contacto directo na BDP, onde as ordens de todas as corretoras são colocadas teria o mesmo efeito do que contactos nas 15 corretoras).
Volto a referir que este tipo de comportamento não é ético e que provavelmente será ilegal, embora exista a possibilidade de nem sequer existir legislação sobre o assunto em Portugal.

Seria o estudo do mercado na sua essência, nas acções directas dos seus intervenientes. É o mais puro «inside trading». Outra informação interessante seria o acesso às «margin calls». Quando os traders que estão «long», por exemplo, começam a receber chamadas para fecharem as suas posições devido à falta de margens, estaremos num clássico fundo de mercado e uma entrada long será a medida acertada.

Quero por fim voltar a frisar que este artigo consiste apenas numa abordagem com carácter didáctico ao funcionamento do mercado de futuros e que não aconselho ninguém a fazer o que é descrito no seu conteúdo pois as consequências poderão ser danosas.

César Borja