Em 1721 George Graham inventou um relógio que media o tempo com um erro máximo de apenas um segundo por dia, quando conseguiu compensar as variações na velocidade do pêndulo causadas por variações na temperatura. No século XXI qualquer relógio de pulso pode dividir o tempo em dias, horas, minutos, segundos, e se quisermos, em centésimos de segundos, com uma fiabilidade quase total.

Para vencer nos mercados, temos de conseguir prever o futuro. Seja os próximos anos, os próximos meses, os próximos dias ou até os próximos minutos ou segundos, apenas prevendo com alguma fiabilidade a evolução futura dos preços se pode lucrar.

A Análise Técnica, a Análise Fundamental, a Análise do Sentimento de Mercado, a Teoria dos Candlesticks (normalmente englobada na AT), não são mais do que ferramentas para aumentar a fiabilidade dessas previsões. Utilizamos estas ferramentas para diminuir o grau de erro das previsões, com a consciência de que é de todo impossível reduzir esse grau de erro a zero, não existem bruxas e adivinhos, e lamento informar-vos, não existem bolas de cristal :-)

Mas, aquilo sobre que pretendo conversar nesta Mensagem da 1/2 Noite, não é nos meios para prever o futuro, mas sim num refinamento do objectivo inicial, é que para chegar a algum lado, mais do que termos um carro muito rápido, precisamos de saber para onde queremos ir.

Para onde quer ir? Qual é o futuro que quer prever? Daqui por 10 anos? Daqui por 1 ano? Ou, pretende saber como vai ser a próxima semana? Ou a próxima 1/2 hora?

Antes de se pôr a remexer nas ferramentas de análise, tem de responder a esta questão. Saber exactamente qual é o time-frame em que se movimenta no mercado. Cada um terá o seu perfil, as suas necessidades, a sua flexibilidade e disponibilidade, pelo que a pergunta terá certamente múltiplas respostas na Comunidade.

E eu digo já qual é o meu time-frame predilecto: o dia. Transaccionar dentro do próprio dia, com um objectivo fixo e sempre igual, chegando ao final da sessão com uma vitória ou uma derrota, mas sempre com um resultado. Para me auto-avaliar. Para corrigir rapidamente o caminho quando me enganei na direcção ou entrei num beco sem saída. Para atingir o objectivo final - o sucesso de longo prazo nos mercados financeiros.

Claro que não defendo isto para todos, atenção, para muitas pessoas o day trading não é minimamente adequado, não encaixa no seu «perfil» de trader. Mas, e tenho pena que esta Mensagem já esteja demasiado longa, deixo apenas mais uma achega para reflexão:

O que é mais previsível? O próximo dia ou as próximas semanas? O futuro mais próximo ou o futuro mais longínquo? Quanto menor o tempo entre a previsão e o resultado, menor ou maior a probabilidade de erro?

A sabedoria convencional diz que os movimentos intraday do mercado são imprevisíveis, diz mesmo que o curto prazo é apenas ruído e que os investidores se devem concentrar no médio/longo prazo. Nada mais errado, na minha humilde opinião. Quanto mais tempo decorrer entre a previsão e o resultado maior a quantidade de imponderáveis, de riscos, para a previsão acertar. Sei muito melhor o que vou fazer nas próximas horas (esta Mensagem da 1/2 Noite) do que o que vou fazer no próximo fim de semana (sei lá :-)). Se tratarmos o mercado como um organismo vivo, se transpusermos a nossa realidade pessoal para a globalidade dos agentes do mercado, chegamos ao seguinte raciocínio: se cada um de nós sabe muito melhor o que vai fazer nos próximos momentos, também o conjunto dos traders sabe melhor o que vai fazer nos próximos momentos do que o que vai fazer daqui a alguns dias ou daqui a alguns meses. Para adivinharmos, através das nossas análises e previsões, aquilo que os traders vão fazer, é uma boa ajuda que eles próprios saibam o que vão fazer :-)

Bom, isto promete ser um tema quente (tenho esperança nisso), estão lançadas as bases para um debate sobre a problemática dos time-frames. Confesso que estas ideias apenas me ocorreram nos últimos dias, já tinha assim qualquer coisa lá na parte de trás do cérebro, mas só agora é que elas se chegaram à frente. Desta forma, as minhas frases, embora pareçam, não são nada de conclusivo, estou só a pensar nisto, a ver se chego a uma teoria qualquer mais ou menos consistente. Agradeço desde já o vosso interesse e possíveis contributos.

Peço desculpa por um preâmbulo tão comprido, vamos ao concreto desta Mensagem:

1. A sessão

1.1. DAX




(lamento mas os valores em baixo no gráfico, derivado de algum problema técnico, estão errados. Os valores correctos são: Open = 2.524; High = 2.535; Low = 2.479,5; Close = 2.506,5; Volume = 79.549)

A sessão de hoje teve poucos segredos, foi aquilo que se pode chamar uma sessão «bem comportada». Abriu em gap down nos 2.524. O suporte era nos 2.523. Tocou aí, e o suporte deu-lhe impulsão para ir fechar o gap em aberto, nos 2.524 - 2.536. O máximo da sessão foi nos 2.535.

No Fórum o fig questionou-me porquê que o gap estaria fechado, uma fez que não fez 2.536 mas apenas 2.535. Faltou portanto 1 tick, os 2.535,5. Mas, como disse, o mercado não é matemática, e temos de pensar na psicologia, na motivação por detrás das opções dos traders. Enquanto que fazia sentido comprar nos 2.523, porque era um suporte e havia um gap por fechar, comprar depois de ter ido aos 2.535 já não fazia sentido, pois estar a arriscar um longo por causa de um pormenor de 1/2 ponto é estar a ser um purista da AT, um perfeccionista. E o mercado, porque é constituído por pessoas, é tudo menos perfeito.

Ora, como escrevi ontem, abrindo nos 2.523 poderia ir fechar o gap, e existia uma resistência no fecho desse gap. Atingida essa resistência, o mercado descaiu, e quebrou o suporte dos 2.519 no cash, os tais 2.523 nos futuros. A partir daí não tem ciência, o suporte passa a resistência e bastaria shortar cada tentativa de ataque a essa zona por parte dos bulls, para ter várias oportunidades de fazer 20 ou mais pontos.

No final da sessão houve mais um teste a essa resistência, mais uma vez falhado, o que só reforça o carácter bearish da sessão. O volume foi fraco, tem estado fraco, será de esperar um qualquer aumento de volume antes de uma reacção positiva minimamente convincente.

1.2. S&P 500



O S&P, embora tenha tentado reagir no suporte dos 827 e tenha tido até alguns movimentos intraday em torno desse ponto de referência (era um suporte fraco como vimos ontem), acabou por sucumbir à vontade dos bears (ou à falta de vontade dos bulls), e quebrou em fecho os 827, fechando nos 822 pontos.

Como sempre os media avançam com explicações mais ou menos credíveis, desta vez o bode expiatório foram os 3 atentados terroristas nas Filipinas, que causaram 19 vítimas mortais. Outra notícia na frente geopolítica foi o envio de 4 caças norte-coreanos para interceptar um avião de vigilância norte-americano sobre o mar do Japão. E ainda, avançam os media, o Rumsfeld ter dito que não é suficiente para evitar a guerra o facto do Iraque estar a destruir os seus mísses Al-Samoud 2.

Outro motivo que posso apontar é a «Carta aos accionistas» de Warren Buffet ontem, onde referiu que se sentia inconfortável em relação aos derivados e que também não via grandes oportunidades na generalidade das acções, que apesar de estarem no 4º ano de quedas consecutivas não se encontram subavaliadas.

Enfim os motivos podem ser de vária ordem, mas o mais importante são os factos, e o S&P fechou nos 822 pontos, a descer 12,5 pontos.

2. Amanhã

2.1. DAX




Resistências:

1) 2.519 (2.523 nos futuros). É a barreira que define a acção do público. Além de ser um ponto de referência importante (por ser o mínimo de 2002), hoje funcionou como resistência intraday.

2) 2.590 no cash. É a LT ascendente a tracejado, serviu antes de suporte, agora serve de resistência.

3) 2.655 - 2.690. É uma zona de tripla resistência dada por 3 LT´s descendentes.

Suportes:

1) Temos de ver se o DAX vai abrir ou não em gap down. O mínimo de hoje nos futuros foi 2.479,5, logo precisaria de se verificar uma abertura dos futuros abaixo deste valor para termos um gap down. No caso de gap down, os day traders poderão fazer o «gap trade» (como aconteceu hoje), e comprarem na abertura em baixa, para venderem quando o gap for fechado, nos 2.479,5 que passariam a resistência.

2) Os 2.433 - 2.435 no cash, que foram os valores mínimos de 2003. É credível que o mercado atinja estes níveis amanhã, a avaliar pelo fecho dos states e pelos futuros a esta hora, aí deverá surgir uma linha de procura por parte de day traders que pode provocar alguma reacção positiva, pelo menos no intraday.

3) Os 2.254 - 2.304, que é o target da ruptura em fecho dos 2.519 pontos.

Atenção que na 5ª feira teremos um factor que poderá influenciar bastante o intraday do DAX, que é a reunião do BCE, cuja decisão será divulgada às 12:45 de 5ª feira. Espera-se um corte de taxas de juro, os economistas estão indecisos entre um corte de 25 pb e um corte de 50 pb. Mas, se pensarmos que poderá estar a funcionar algum «buy the rumor» em relação a esta questão da política monetária, e mesmo assim o DAX está a cair tanto, verifica-se que baixar as taxas de juro não terá uma influência mais do que esporádica no mercado.

De qualquer forma isto é só para 5ª feira ...

2.2. S&P 500



Resistências:

1) Sendo o padrão de candlesticks um marubozu negro, temos logo de considerar a possibilidade de thrusting ou uma hipotética abertura em alta. Nestes dois casos, a resistência é o midpoint do body da vela negra, os 828,4 pontos.

2) Os 827 eram um suporte de curto prazo, são agora uma resistência.

3) O limite superior do range anterior, os 852,5 pontos.

Suportes:

1) Os 818,5 são de facto o último mínimo relativo, mas por ter sido apenas um mínimo intraday não me parece que tenha grande significado, é um suporte muito fraco.

2) Se o S&P abrir em forte baixa (tem de se ver a abertura pelos futuros do S&P às 14:30), abre-se a possibilidade de ir fechar o gap ou até fazer um thrusting. No caso de fecho de gap a resistência é o mínimo de hoje, os 822. No caso de thusting é o midpoint do body da vela negra, como vimos há pouco, os 828,4. Sumariamente, aqui no S&P dá-se o mesmo caso do que no DAX, se a abertura for em baixa demasiado pronunciada, em gap down, poderá surgir uma linha de procura dada pelos day traders que fazem o «gap trade».

3) Os 806, que é o mínimo de 2003. Julgo que mais tarde ou mais cedo, quiçá amanhã, este valor será atingido e até quebrado (as previsões de longo prazo são conhecidas, mas nem vamos entrar por aí, seria prejudicial para os objectivos de um day trader)

Amanhã são divulgados dois relatórios económicos, com relevância aparentemente média, ficam aqui os valores esperados:

a) Wednesday, the Institute for Supply Management releases its services index. Although economists gripe that it is badly constructed and lacks sufficient history, traders recognize it as one of the few leading indicators of the service economy they have. The forecast is for the index to come in at 53 for February versus January's 54.5.

b) The Fed's Beige Book, an anecdotal look at the economy put together by the regional Federal Reserve Banks, comes out Wednesday afternoon.

2.3. Nasdaq Composite



Resistências:

1) Midpoint do body da negra de hoje, os 1.314 pontos.

2) 1.332 pontos. Foi suporte de curto prazo e é o midpoint da negra de 2ª feira.

3) A zona 1.347 - 1.352.

Suportes:

1) Atenção ao caso de gap down, com abertura abaixo dos 1.307 abre gap.

2) 1.292 é o anterior mínimo relativo, mas considero-o um suporte de pouca relevância, por ter sido fixado em apenas um dia e apenas no intraday, não deverá ter ficado suficientemente na memória dos traders.

3) 1.262 deverá ser o próximo suporte com alguma relevância. É o mínimo de 2003.

Antes de terminar, gostaria só de reforçar a atenção para a parte inicial, que sendo estratégica de longo prazo acaba por ser a mais importante. Só mais uma coisa: para day trading apenas recomendo os futuros. Nem warrants, nem CFD´s, e muito menos acções. Isto devido aos spreads e comissões de corretagem muito mais competitivas dos futuros quando comparados com outros produtos financeiros.

Uma boa noite !
César Borja